Siena: Medievais na Série A

Na próxima temporada, a Série A do campeonato italiano terá um time estreante, de pouquíssima tradição no futebol, mas de uma cidade bela e histórica. O time da cidade de Siena conquistou antecipadamente, ao lado da Sampdoria, o direito de subir para a elite do futebol italiano. A façanha teve participação de dois brasileiros: o ex-palmeirense Taddei e o atacante Pinga.

Siena é uma cidadezinha medieval de 62 mil habitantes, localizada na Toscana, perto de Florença. Surgiu como colônia militar romana e viveu seu apogeu no final do século XIII, quando rivalizava com Florença. A cidade abriga a Duomo di Siena, uma das maiores catedrais da Itália, construída no século XII, e a Piazza del Campo, para muitos a mais bonita praça da 'Velha Bota'.

O futebol nunca foi o principal esporte em Siena. Lá, a grande atração é uma corrida de cavalos, que o ocorre apenas duas vezes por ano (em 2 de julho e 16 de agosto), o famoso Palio di Siena. O Palio é mais que uma simples corrida. São 17 participantes, cada um representando uma 'contrada' (paróquias ou bairros rivais da pequena cidade). A festa do Palio é realizada regularmente desde 1656, mas existem registros dela desde 1283. A tradicional corrida é disputada em torno da Piazza del Campo e dura pouco mais de um minuto. O detalhe é que os 'fantini' (cavaleiros) não utilizam cela, e que o importante é o cavalo cruzar a linha de chegada, com ou sem eles. Isso aconteceuem 2001, quando o cavalo vencedor ganhou a corrida sozinho, pois seu cavaleiro havia caído na última curva. A 'contrada' vencedora lava o Palio (uma bandeira simbólica de seda) e o respeito da cidade.

No meio do Palio e do ciclismo nasce o futebol

No início do século passado, Siena era uma pequena cidade rural com 30 mil habitantes. Nela existia a Associazione Ginnastica Senese, onde a elite da cidade praticava seus esportes. Devido ao grande contraste social existente na associação, em 1904 alguns atletas resolveram fundar a sociedade Studio e Divertimento, tendo o ciclismo como principal esporte. A sociedade ganhou prestígio e no dia 1º de novembro de 1908 trocou seu nome para Società Sportiva Robur (apelido do time até hoje), com as cores da cidade: o branco e o preto. O futebol chegou na Robur alguns anos depois, trazido por estudantes da Universidade de Siena (fundada em 1240) e em 1920 a equipe é inscrita na Federação Italiana de Futebol.

Entre 1921 e 1935, a Robur participou de campeonatos amadores. Em seu primeiro campeonato, o time entrou em campo com camisas vermelhas, em homenagem ao Sena Football Club, primeiro time de futebol da cidade. Nos anos seguintes, adotou a camisa listrada branca e preta, usada até hoje. Em 1923, o time ganhou seu primeiro campo: o San Prospero, pago por Ezio Francioni, presidente do clube.

Em 1933, o presidente Gino Tosi, pensando no profissionalismo, mudou o nome do clube para Associazione Calcio Siena (sem perder o apelido de Robur) e começou a contratar jogadores para o time. Entre 1936 e 1948, o Siena faz boas campanhas. O time conquistou seu primeiro título, o campeonato italiano da Série C na temporada 1937/8. Em 1938, o time quase subiu para a primeira divisão, mas perdeu a vaga para a Fiorentina. Nesse mesmo ano, o time ganhou seu novo estádio: o Rastrello.

1945 foi um ano de reformulação no futebol italiano devido à guerra. Foi criado um campeonato dividido por regiões (norte e sul), o que colocou o Siena de frente com times como Roma, Lazio, Fiorentina e Napoli. A Robur terminou na penúltima colocação e continuou na Série B.

Série B é o objetivo

Em 1948, o time caiu para a terceira divisão. A partir daí até poucos anos atrás, a grande luta do Siena era para chegar à Série B. O time alternou bons e maus momentos. Chegou a disputar a quarta divisão entre os anos de 1952 e 1956 e quase subiu para a Série B em 1959. O Siena tem em sua história grandes problemas econômicos, por isso dificilmente conseguiu montar grandes times. Mesmo com esses problemas, o time arrumou algumas formas para contratar jogadores conhecidos, como em 1962. Graças ao presidente Danilo Naninni, a Robur contratou o atacante Cocciuti, da Lazio. O preço da negociação? Um piano. Isso mesmo: o atacante trocou a Lazio pelo Siena, pelo valor de um piano. A contratação não adiantou muito. O Siena continuou na Série C, e disputou a Série D entre 1970 e 1976.

No ano de 1978, o campeonato Italiano sofreu nova reformulação, e foram criadas as Séries C1 e C2, entre as quais o Siena oscilou até o ano 2000. Nem o jovem técnico Marcello Lippi, hoje na Juventus, contratado em 1986 conseguiu tirar o siena da Série C. Na temporada 1990/1, a Robur faz um bom campeonato, mas perdeu a vaga na série B para a Ternana.

A Luta pela série B continuou complicada até que na temporada 1997/8. Nesse ano, a SNAI Servizi, grupo que agencia as apostas nas corridas de cavalo na Itália, comprou as ações do time graças ao empenho de Pierluigi Piccini, prefeito de Siena. Os novos proprietários estruturaram melhor o time, contrataram reforços e empolgaram a torcida. Mas não foi o suficiente. Devido principalmente às constantes trocas de técnicos, o Siena não conseguiu a promoção. Na temporada seguinte, a SNAI foi obrigada a vender suas ações, pois uma nova lei na Itália não permitia que o grupo controlasse o time de futebol e as apostas nas corridas de cavalo.

Muito Brunello e riciarelli: é Série A!

Novamente Piccini conseguiu que o time fosse comprado, dessa vez por grandes empresários da cidade. A temporada 1999/2000, agora com mais tranqüilidade, é histórica para o Siena. O time tem uma boa base sob o comando do técnico Antonio Sala. Primeiro bateu o Crotone na final da Supercopa da Série C se consagrou campeã. Na mesma temporada conquistou o título da Série C e após 53 anos retornou à série B. Em tempo recorde, o estádio (que antes era muito utilizado com estacionamento para carros) foi reformado e ganhou o nome de Artemio Franchi. Mas mais uma vez, as coisas não foram fáceis para o Siena. Na temporada 2001/2, o time teve uma péssima campanha no primeiro turno do campeonato e para segunda metade contratou reforços importantes como o atacante brasileiro Pinga, do Torino, e o técnico Giuseppe Papadopulo. O time ficou a apenas dois pontos do rebaixamento.

Para a temporada 2002/3, o Siena apostou em mais um brasileiro: trouxe Taddei, ex-Palmeiras. Contratou ainda o atacante Tiribocchi, do Torino, o zagueiro Agostini e o goleiro Taglialatela, da Fiorentina, entre outros. O investimento deu certo. A coroação de uma ótima temporada veio na partida contra o Genova. O Siena venceu por 3 a 1 (gols de Pinga, Taddei e de Tiribocchi) e garantiu o direito de disputar a Série A pela primeira vez em sua história. De quebra, conquistou o título da Série B na última rodada, ao empatar com a Salernitana e ser favorecido pela derrota da Sampdoria.

A tocida da Senese está em festa. Para comemorar a conquista, as festas são regadas a muito Brunello di Montalcino, um dos vinhos mais apreciados no mundo, fabricado na região, e adoçadas com o Riciarelli, doce típico de Siena.

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