Schuster: primazia em todos os sentidos

Nos últimos anos tornou-se comum craques abandonarem suas seleções pelos mais diversos motivos. Já consagrados e tidos como unanimidades( e via de regra após ganhar um título), decidem não jogar mais pela equipe nacional, seja pelo desgaste decorrente desses compromissos, seja para preservar a imagem do “auge” ou mesmo para não ficar no banco para qualquer molecote que apareça. No entanto, poucos sabem que há 23 anos, um rapaz loiro, aos 24 anos de idade, resolveu largar de vez a seleção por razões muito mais profundas do que as dos craques recentes.

Bernd Schuster iniciou sua carreira no Colônia aos 18 anos em 1978 com a bagagem de já ter sido um dos principais nomes nas seleções de base da Alemanha Ocidental. Talvez por isso, aos 19 anos, tenha sido convocado para a seleção alemã que venceu a Eurocopa de 1980, cuja fase final foi realizada na Itália, jogando 2 dos 4 jogos da equipe. Essas duas atuações foram suficientes para premia-lo com a Bola de Prata desse ano, ficando atrás de seu compatriota, o já consagrado Karl-Heinz Rummenigge. As boas atuações e o grande destaque conseguido após o torneio fizeram com que o poderoso Barcelona o levasse para Catalunha.

Em Barcelona, Schuster foi peça fundamental e pilar da equipe durante praticamente toda a década de 80. Marcou 63 gols em 170 jogos, número excelente para um meio campista. No Barça jogou com craques como Maradona, Simonsen e Lineker e curiosamente só o controverso Schuster, que em sua passagem de 8 pelos culés colecionou brigas com todos os técnicos, de Aragonés a Helenio Herrera, teve grande destaque.

No entanto, tratando-se de Bernd Schuster, nem tudo poderiam ser flores em sua aventura catalã. Além das já citadas brigas com os técnicos, o alemão teve uma séria contusão no joelho direito após uma entrada de Andoni Goikoetxea( o mesmo que quebrou Maradona) em 1981. Além desse período de um ano parado, em 1987, uma temporada antes de se transferir para o Real Madrid, o “anjo loiro” se envolveu numa séria discussão com o presidente do Barcelona, que também o deixou parado como castigo por toda a temporada. Tratado como ídolo por alguns torcedores e tido como polêmico demais por outros, Schuster conseguiu dividir até mesmo o sempre unido espírito catalão.

Adeus à Seleção

Durante seu período na Catalunha, Bernd Schuster decidiu abandonar a seleção alemã com tenros 23 anos de idade e menos de 30 partidas no currículo. As constantes divergências com a federação e com o técnico Jupp Derwall, além de brigas com companheiros como Paul Braitner, Stielike e Rummenigge foram minando seu ambiente na equipe. A sua decisão de não aceitar uma convocação para um jogo contra a Albânia para estar em casa no momento do nascimento do seu segundo filho gerou uma trauma irremediável à já conturbada relação entre Schuster e a Nationalef e, após severas críticas da imprensa, o meio campista decidiu de uma ver por todas que era hora de parar.

Sua última partida foi contra a França em 1984. Sua recusa o deixou fora de todas as grandes competições em um período em que a Alemanha era protagonista do futebol mundial e,assim sendo, Schuster deixou de participar das Copas de 1986,1990 e 1994, além das Eurocopas de 88 e 92 apesar de ser um dos maiores jogadores desse período.

O Real Madrid

Apesar de 8 anos no Barcelona, Schuster se transferiu ao Real Madrid. Uma passagem sempre traumática ( vide Luis Figo) que foi tirada de letra por “Don Bernardo”. Na capital espanhola, talvez pelo avanço da idade, o alemão se envolveu em menos polêmicas e venceu mais títulos. Foi o grande maestro do lendário time do Real Madrid conhecido como “La Quinta del Buitre”, apelido dado por um jornalista espanhol a equipe que dominou o cenário espanhol no fim dos anos 80 e contava com 5 jogadores crescidos no Real: Sanchis,Butragueno(cujo apelido deu origem ao da equipe),Vazques,Michel e Pardeza. Além de ganhar o bi-campeonato espanhol 88/89 e 89/90, Schuster participou da equipe que detém o recorde de gols numa temporada da Liga: 107 gols.

Final da carreira

Mas como tudo na vida desse alemão é controvérsia, após problemas com a direção do Madrid, o arqui-rival do clube merengue, o Atlético de Madrid contrata-o para o meio campo. Com pretensões mais modestas, Los colchoneros guiados por Schuster conseguem vencer 2 Copas do Rey, numa delas inclusive batendo o próprio Real Madrid em pleno Bernabeu, com um gol antológico de falta do “anjo loiro”.

Em 1993, retorna a seu país natal para defender o Bayer Leverkusen. Numa eleição de gol do ano, as três primeiras posições são obras primas de Schuster. Apesar de não ter ganho nenhum título com o time das aspirinas, sua ótima temporada 93/94 fazem com que boa parte da imprensa, apesar dos 33 anos cogite sua ida à Copa dos EUA. No entanto, apesar das pressões midiáticas, jogadores e comissão técnica preferem deixá-lo de fora temendo possíveis rachas e brigas no elenco. Coisas que aconteceriam mesmo sem a sua presença na equipe, já que o não menos polêmico Effemberg tratou de dividir o elenco que foi aos EUA. Talvez o talento e a experiência de Schuster pudessem acalmar os ânimos alemães na tensa partida contra a Bulgária.

Schuster passou algum tempo no Vitesse e teve uma rápida passagem no futebol americano. Decidiu em 1997 que era tempo de acabar sua carreira e aos 37 anos dá adeus ao futebol jogando pelo Pumas do México.

Rebelde, mas só fora de casa

Apesar de toda rebeldia, em casa quem sempre mandou fui sua mulher, Gaby. Não menos polêmica, ela também tem reputação controversa na Alemanha. Reputação agravada quando Gaby simplesmente o obrigou a aceita-la como sua empresária. A imprensa dizia que sem a liberação dela, Bernd não assinaria nem mesmo uma conta de restaurante. Há quem diga que as polêmicas envolvendo Schuster no Barcelona foram muito agravadas pelas atitudes de Gaby, que fazia críticas públicas e nem sempre educadas á diretoria do Barcelona e ao treinador Uddo Lattek. O fato é que ambos ainda são casados e tem 4 filhos e Gaby não é mais a empresária de Schuster.

Desperdício?

Meio campista organizador e de raríssima classe, Schuster poderia estar no mesmo patamar de um Platini ou Zico nos anos 80. Sem dúvida alguma sua renúncia a seleção tão novo o furtou de ter um reconhecimento maior e, por que não, mais prêmios pessoais. Conseguia unir força física e técnica apuradíssima, além de uma visão de jogo que faria inveja aos craques de hoje em dia. Seus lançamentos e passes precisos ficaram ainda mais marcantes em seu período na capital espanhola, quando municiava os atacantes do Real Madrid e arquitetava o famoso jogo de contra-ataques do Atlético de Madrid. Suas cobranças de falta eram simplesmente perfeitas.

Se sua personalidade criou sérios problemas fora de campo, talvez tenha sido o seu maior trunfo dentro dele. Bernd Schuster liderava o time e tinha capacidade psicológica suficiente para sempre impor o seu próprio ritmo de jogo. Uma pena para o futebol que não pudemos ver esse craque como protagonista de uma Copa do Mundo.

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Equipe Trivela

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