São Caetano: O primeiro vôo do Azulão

Quem acompanha futebol sabe que, de alguns anos pra cá, muita coisa tem mudado. Uma das frases que melhor simbolizam esse estágio de mudança é 'não existe mais time bobo', uma das favoritas de muitos treinadores brasileiros. E isso não se resume ao Brasil. Se aqui temos o Brasiliense na final da Copa do Brasil, o Atlético-PR campeão brasileiro, a toda poderosa Seleção perdendo para Honduras, lá fora pipocam exemplos em todos os cantos: Real Sociedad liderando na Espanha, Bayer Leverkusen ameaçado de rebaixamento na Alemanha e, por que não, a seleção francesa, com Zidane e companhia, sendo eliminada na primeira fase da Copa do Mundo sem sequer uma vitória.

Os apaixonados por loteria esportiva que se cuidem, pois esse fenômeno veio para ficar, e as chamadas 'zebras' já se tornaram uma rotina em qualquer campeonato, em qualquer parte do mundo. No Brasil, um dos principais representantes dessa nova fase do futebol é o São Caetano.

Desde que ingressou na elite do futebol brasileiro, contrariando todas as expectativas e previsões, o Azulão – como é conhecido devido à cor de sua camisa – conseguiu feitos que muitos dos times considerados grandes jamais sonharam em alcançar. 'Mas não ganhou nada!'. É verdade, na cultura futebolística brasileira, o vice é o primeiro dos últimos colocados. Mas há de se louvar os feitos do São Caetano em sua breve história.

A Associação Desportiva São Caetano foi fundada no ano de 1989, após uma frustrada tentativa de alteração do nome do SAAD Esporte Clube, onde simplesmente seriam acrescentadas as palavras São Caetano. Demonstrando pensar grande desde o início, o clube tentou em seu primeiro ano ingressar na terceira divisão paulista. Porém, o regulamento previa que só poderiam participar clubes que já tivessem disputado pelo menos três campeonatos amadores oficiais. Parecia que, por hora, o sonho de crescer e divulgar o nome da cidade teria que esperar um pouco.

Foi então que um outro clube local, que possuía todos os requisitos necessários para a disputa da terceira divisão, aceitou mudar seu nome para Associação Desportiva São Caetano. Esse clube era a Sociedade Esportiva e Recreativa União Jabaquara, e, na noite de 4 de dezembro de 1989, o agora São Caetano começava uma impressionante trajetória de trabalho, competência e sucesso.

Entrada com pé direito

A primeira partida oficial do São Caetano foi na terceira divisão do campeonato paulista, diante do Comercial, na cidade de Registro, no dia 18 de março de 1990, conseguindo um empate por 1 a 1 com gol de Taloni – o primeiro da história do clube em jogos oficiais. Ao final do campeonato, o São Caetano, em seu primeiro ano, já conquistou seu primeiro título, ganhando o direito de disputar a Segundona. Mal sabiam que teriam um futuro ainda mais promissor, e o time recém-surgido logo galgaria patamares mais altos, primeiramente em âmbito paulista e depois em âmbito nacional.

Em 1991, o São Caetano preparou um time experiente para a disputa da segunda divisão do campeonato paulista. Vieram então alguns nomes conhecidos, como o zagueiro Luiz Pereira (ex-Palmeiras) e o atacante Serginho Chulapa (ex-São Paulo e Santos), que se juntaram ao resto da equipe para se sagrarem campeões paulistas da segunda divisão, conquistando o direito de disputar o campeonato de 1992 pelo 'grupo amarelo' da primeira divisão paulista.

Com um elenco totalmente modificado, formado por jovens valores onde a única e principal estrela era um Serginho Chulapa em fim de carreira, a equipe não consegue ficar entre os três primeiros colocados do grupo amarelo, que lhe daria o direito de enfrentar os grandes clubes de São Paulo. De 1993 a 1996, o time passa pela única fase negativa de sua história, na qual uma série de maus resultados, fruto da falta de investimentos, faz com que o time voltasse novamente para a terceira divisão.

Volta por cima

Antes de se perder de vez e ver sua história destruída, o São Caetano deu sua última e decisiva cartada. Em 1997 firmou um acordo de parceria com a empresa Datha Representação. Começou então o 'Projeto 2000', cujo objetivo era inserir a equipe entre as principais forças do futebol paulista e brasileiro na virada do século. O objetivo parecia um sonho distante, mas a parceria rapidamente deu frutos, e logo no primeiro ano o São Caetano fez uma campanha impecável, terminando a primeira fase da A-3 paulista em primeiro lugar, passando para a disputa do quadrangular final com todas as vantagens possíveis. Mas a equipe acabou vendendo seus mais importantes jogadores para os grandes clubes e acabou caindo no quadrangular final e perdendo a oportunidade de disputar a série A-2 do ano seguinte. De qualquer maneira, o time percebeu que podia alçar vôos bem maiores.

Após finalmente sagrar-se vice-campeão brasileiro da série C do Brasileirão em 1998, foi em 2000 que o clube deu seu primeiro grande passo e começou a ganhar seu espaço nos noticiários esportivos. Nesse ano, o regulamento da Copa João Havelange (campeonato brasileiro) permitia que três times da segunda divisão se classificassem para o 'mata-mata' decisivo. E o Azulão aproveitou a oportunidade.

Parecia claro que o time já tinha cumprido seu papel ao chegar aos playoffs, afinal, enfrentaria ninguém menos que o poderoso Fluminense, e a oportunidade de disputar uma partida no Maracanã já seria um prêmio à altura do feito do São Caetano. Mas o Azulão provou que ainda tinha muito a mostrar. Com uma bomba de Adhemar, o time venceu o Fluminense e fez história, em uma das grandes zebras de todos os tempos. Não satisfeito, ainda se deu ao luxo de eliminar Palmeiras e Grêmio, chegando à finalíssima contra o Vasco da Gama.

Naquela altura, os autores da fórmula do campeonato encontravam-se alvoroçados com a possibilidade inimaginável de um clube vindo da segunda divisão ser campeão da primeira divisão. Numa decisão que teve de tudo, desde contusão de Romário até queda de alambrado e adiamento de partida, o Vasco acabou sagrando-se campeão.

Em 2001, mais uma campanha irretocável e um novo vice-campeonato brasileiro, mostrando que o desempenho do ano anterior não fora apenas um golpe de sorte. Apesar de mais uma vez não ter sido campeã, a Associação Desportiva São Caetano escreveu seu nome para sempre na história do futebol.

Agora ou nunca

Em 2002 aconteceu um momento decisivo para o clube. Em sua segunda participação na copa Libertadores, o São Caetano surpreendeu ao eliminar adversários tradicionais e tarimbados, como Peñarol e Universidad Católica. Passando pelo América do México nas semifinais, o time enfrentaria o Olímpia na final. Os jogadores, os torcedores e a diretoria sabiam que se tratava de um momento mágico. A conquista da Libertadores é o limite entre ser um grande time e ser um time grande. A derrota confirmaria de vez a sina do vice-campeonato, mas uma vitória serviria para calar a boca dos que relutavam em dar o devido valor ao Azulão.

O resultado do primeiro jogo, disputado na casa dos adversários, serviu apenas para aumentar a desilusão e o sentimento de perda dos brasileiros frente ao resultado final. De nada adiantou o feito heróico de vencer os paraguaios fora de casa. No segundo jogo da série, num estádio lotado, com a vantagem do empate, o Azulão fraquejou e sentiu o peso da responsabilidade. Faltou-lhe algo que, até hoje, não se sabe a fórmula, algo que não depende de organização. Faltou-lhe a mística dos grandes times que tem o poder de fazer surgir o gol da vitória nos últimos minutos, que faz o chute adversário resvalar no zagueiro, nas costas do goleiro, na trave e não entrar. O time acabou derrotado por 2 a 1 no tempo normal, levando a decisão para os pênaltis. Mas todos que assistiam a partida puderam sentir, antes mesmo das cobranças começarem, que não seria dessa vez que o azulão seria campeão das Américas.

Futuro de glórias?

Após a seqüência de vices, o time entrou numa fase de reafirmação. A frustração da perda de tantos títulos parece ter pesado sobre a moral da equipe, que apresenta uma irregularidade atípica na atual temporada. Posicionado no meio da tabela da competição nacional, o time parece ter esgotado sua 'sorte de principiante', entrando numa fase de amadurecimento, da qual só o tempo poderá dizer o resultado. As expectativas em torno do futuro do São Caetano são das mais variadas, afinal, não se pode negar que o passado tenha sido de grande sucesso.

O 'fenômeno São Caetano' continua a ser um dos assuntos preferidos de cronistas e debatedores esportivos, tomando boa parte do tempo das mesas redondas de domingo à noite e das discussões de mesa de bar. Entre palpites e opiniões das mais diversas, surgem verdadeiras teorias que tentam explicar a fórmula de sucesso do Azulão, um dos poucos clubes onde o 'bom, bonito e barato' parece ter dado certo. Apesar de várias possibilidades e nenhuma conclusão, a análise dos números prova que, independentemente de respostas, a verdade é que o São Caetano chegou pra ficar.

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