Ronaldo e Michael Jackson, na Rolling Stone

Revista Rolling Stone
Ed. 34 – julho de 2009
Spring

Michael Jackson faleceu a poucos dias do mês de junho terminar. Com certeza a pauta e a capa da revista Rolling Stone do mês seguinte já deveriam estar fechadas ou quase. O falecimento de MJ foi inquestionavelmente o ‘assunto do mês’ de todas as publicações voltadas a música e a cultura pop, certo? Não no Brasil. A Rolling Stone brasileira incluiu a tempo um bom tributo a Michael Jackson dando a ele uma capa que pode ser escolhida pois a mesma edição acabou tendo duas capas. Quem estampa a outra capa é…Ronaldo! O ‘fenômeno’ com certeza foi o ‘assunto do mês’ no Brasil quando consolidou sua enésima ressurreição ao vencer a Copa do Brasil jogando pelo Corinthians.

Curiosamente Ronaldo divide as atenções com Michael Jackson. Ambos são/eram carismáticos, chamam a atenção da mídia desde muito jovens, protagonizaram escândalos e/ou polêmicas que não são da conta de ninguém mas que se transformam em apoteoses populares. Ainda assim, Ronaldo continua sendo um fenômeno do futebol ao passo que Michael Jackson foi o fenômeno da musica pop. Quando um jogador de futebol transcende a condição de simples atléta critérios técnicos e/ou racionais acabam se tornando ineficiêntes para avalia-lo. Torna-se similar a um rockstar, santo ou lider popular carismático. A imprensa esportiva, sobretudo a brasileira, não sabe como lidar com isto.

Apenas a Rolling Stone poderia apontar aspectos extra-campo de Ronaldo sem cair no sensacionalismo e na ‘cuidação da vida alheia’ habituais à imprensa brasileira. A publicação inventou a forma de abordar ícones populares ou ‘semi-deuses’ do entretenimento. As groupies poderiam ser um detalhe imperceptível atrás do palco dos Rolling Stones onde a música deve estar em primeiro plano. Para os desavisados, vale ressaltar que revista e banda nada tem a ver, mas uma lenda pop reza que a publicação safou-se de um processo por uso indevido do nome concedendo uma capa à banda de Mick Jagger nos idos dos anos 60.

A matéria assinada por Ricardo Franca Cruz e Marcelo Ferla imprime um tom sóbrio e humanista em três páginas que seriam um ensaio inusitado ‘a lá Lester Bangs’. Ao invés de versar a respeito de Lou Reed ou Iggy Pop, Ronaldo é o foco. Um ensaio pois uma entrevista foi perseguida em vão pela publicação desde a chegada do ‘fenômeno’ ao Corinthians. Destacam-se algumas linhas marcantes que dificilmente sairíam na imprensa esportiva ‘normal’, a qual se deixa tomar por um súbito (utilizando um termo do próprio Andres Sanchez) ‘corintianismo’. A isenção ímpar de Cruz e Ferla concendem sentenças cruas do presidente do Corinthians. Em poucas palavras, Andres Sanchez afirma o quão ‘desumano’ são os bastidores do futebol brasileiro e justifica a opção por Ronaldo: “O Corinthians fora do Brasil era um time pouco conhecido. Agora com Ronaldo somos um time global”. O grifo é nosso. Aos colegas ‘corintianistas’ da imprensa digo, a Rolling Stone é uma publicação mundial e esta matéria já pode estar traduzida ao redor do globo para o bem ou para o mal.

Há pouco mais de um mês escrevi uma resenha a respeito de ‘Real Madrd – O Filme’ neste Trivela. Tão logo Florentino Pérez voltou a presidência do clube, outra vez ele lançou mão de contratações de atlétas midiáticos. Após o Real Madrid gastar quase 120 milhões de Euros apenas com dois atlétas (Kaká e Cristiano, o novo ‘Ronaldo 9’ de Madrid), muito se duvidou ou se questionou de onde viria tanto dinheiro. Na resenha que escrevi, postulei um aspecto por vezes incompreendido pela imprensa futebolistica e pelos entendedores do esporte bretão: a megalomania dos astros midiáticos, os quais surgem envoltos em milhões de dólares pagos por direitos de imagem.

‘Real Madrid – O Filme’ fora produzido nos bastidores da primeira ‘era galáctica’ durante a primeira gestão de Florentino Pérez, visando divulgar mundialmente a marca do clube. Ronaldo era parte do plantél madridista naquela época entre 2002 e 2006. Foi um dos diversos filmes produzidos naquele período que visavam expôr algum atléta e/ou o clube, tais quais ‘Zidane – Um Retrato do Século XXI’ (de Douglas Gordon e Phillipe Parrena) e a segunda parte de ‘Gol’, ‘Gol II’ de Jaume Collet Serra em que o personagem principal joga pelo clube de Madrid. Claro que o clube recebeu devidamente por seus direitos de imagem.

Em termos culturais, jogar pelo Real Madrid pode elevar o atléta à condição de ícone. John Carlin autor de ‘Anjos Brancos’ (Ed. Relume Dumará) chegou a enfatizar a condição de David Beckham dentro da perspectiva da cultura pop. Logo que Mr. Becks foi contratado pelo clube tornou-se hype usar a camisa blanca 23 confeccionada pela Adidas nas baladas em Nova York. Embora absurdamente ingênuo no que diz respeito a aspectos futebolísticos, o jornalista norte americano John Carlin soube compreender muito bem o que se passava durante a primeira ‘era galáctica’ em Madrid. Os méritos do livro estariam nos relatos do autor in loco exatamente no momento em que o ocaso dos galácticos começaria a se revelar. Também resenhei ‘Anjos Brancos’ para a Trivela (clique aqui

O especial póstumo produzido pela MTV norte-americana resgatando vida e obra de Michael Jackson ressaltou a abordagem da Pepsi feita sobre o cantor. Jackson era um ícone midiático negro vitorioso numa América que envergonhava-se ao recordar de suas chagas oriundas da época de segregação racial. Os apresentadores tomaram e de maneira muito oportuna o contrato de MJ com a Pepsi enquanto uma ‘abertura de portas’ para outros ícones midiáticos negros. Tais quais Michael Jordan (lendário astro da NBA nos anos 90) e Tiger Woods não por acaso contratados da…Nike! Não teria a empresa norte-americana abordado Ronaldo da mesma forma?

Assimilar Ronaldo por um viés midiático já tomando-o enquanto ícone popular não cabe aos jornalistas/analistas do meio esportivo. A estes importa apenas o que Ronaldo faz dentro de campo. A Rolling Stone tem propriedade absoluta em fazê-lo. O mundo da música, da cultura pop e do rock implica num mundo ilusório onde astros são inalcançáveis e seus fãs agradecem por simplesmente existirem. A RS consolidou sua proposta em meio a efervecência cultural norte-americana entre os anos 60 e 70. Não se tratava apenas de uma publicação musical mas também política e cultural. Testemunhou movimento Woodstock, consequências da segregação racial, Guerra do Vietnã e a libertação sexual num tempo em que o rock originava-se das classes populares, era politizado sem ser panfletário e sua voz se chamava Bob Dylan.

Talvez Ronaldo seja o único ícone popular mundial cujo carisma se equipare ao de Michael Jackson. Poucos dias após a morte de MJ, o vj da MTV Marcos Mion em seu blog também comparou a exposição que Michael Jackson sofria com aquela que assola Ronaldo. Isso tendo testemunhado o assédio indesejável que Ronaldo sofre correndo numa esteira na mesma academia em que ele Mion, treina. O vj foi além dizendo que a popularidade de MJ era realmente mundial, não se limitando apenas ao eixo EUA/Londres mas chegando a países africanos e sul-americanos, dados os atos de caridade realizados pelo cantor. Trata-se de uma possibilidade de expansão de popularidade apenas comparada aquela que o futebol proporciona por assumidamente ser um esporte popular.

Michael Jackson, descanse em paz. Ronaldo ‘rei do pop’!

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Equipe Trivela

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