Retratos de duas obsessões

No último domingo, mais uma vez, o Brasil deixou de ganhar o Oscar. Sim, deixou de ganhar, pois ninguém sai derrotado de uma competição artística, muito menos o país onde nasceu o indicado. Embora tais premiações divirtam e sirvam como reconhecimento ao talento de grandes nomes do cinema, da televisão e da música (ou à eficiência da estrutura de marketing que cerca alguns artistas medíocres), a apreciação de arte sempre é resultado de avaliações quase que inteiramente subjetivas

E daí que muitos dos que lamentaram “nossa” derrota (e em alguns casos, chegaram a xingar os yankees por ela) sequer viram “Rio”? E daí que boa parte destes nem sabiam que, além do folclórico Carlinhos Brown, o também brasileiro (e de currículo amplamente mais respeitável) Sérgio Mendes e até uma gringa, Siedah Garrett, também foram indicados pela canção do filme? O que importa é abrir o berreiro. Conquistar um Oscar se tornou uma boba e incompreensível obsessão contemporânea brasileira.

Outra obsessão nacional ainda não saciada, essa lógica e racional, é a medalha de ouro olímpica no futebol. É mesmo de se estranhar que o país mais vitorioso da modalidade, que inclusive é um dos bichos papões nas categorias de base, tal qual um Gollum-Macunaíma, não consiga colocar as mãos em sua “preciosa”. E, naturalmente, quanto mais a conquista é adiada, mais dramática torna-se a busca por ela (referência bibliográfica: Corinthians na Libertadores).

Para lidar com a fixação pelo Oscar, a lição é simples: fazer bons filmes com mais freqüência, desistir de tentar adivinhar de qual tipo de película a Academia gostaria mais (ou alguém chutaria, há seis meses, que Hollywood se derreteria toda por um filme mudo feito por franceses?) e, principalmente, desencanar. Mais cedo ou mais tarde, um brasileiro levará o carequinha dourado pra casa.

No caso do ouro olímpico, a receita é bem mais simples: levar a competição a sério. Enquanto a Espanha, modelo de excelência do momento e uma de nossas principais concorrentes ao título dos Jogos, já reúne sua seleção sub-23 para amistosos, a seleção olímpica brasileira simplesmente não existe. Se existe, é apenas na cabeça de seu treinador.

A cada coletiva pós-convocação, Mano Menezes se gaba do alto número de jogadores com idade olímpica chamados para defender a seleção principal. Quantos efetivamente têm tido oportunidades para se firmar com a camisa amarela? Com uma dose de boa vontade: David Luiz, Sandro, Ganso, Lucas, Neymar e Leandro Damião. Os demais quase não entram em campo. O maior benefício que tiveram foi a ambientação a Londres, já que a sede dos Jogos é também a atual casa da seleção brasileira.

Por mais que Júlio César, Thiago Silva e mais algum (Ronaldinho não, por favor) sejam convocados como os três acima dos 23 anos, a seis meses das Olimpíadas, o time nunca foi testado, nem mesmo num amistoso mequetrefe. Ainda que a CBF anunciasse que a prioridade é ganhar a Copa e as Olimpíadas disputadas dentro de casa, tamanho desdém seria injustificável, já que a entidade lucra mais do que o suficiente para investir num projeto específico para 2012.

Se Neymar, Ganso, Lucas e companhia não trouxerem da capital inglesa “o único título que falta ao futebol brasileiro”, chegarão à Copa de 2014 com peso duplo nos ombros. Além de terem “falhado” no seu primeiro grande objetivo, continuarão sendo, de forma prematura e até irresponsável, as principais esperanças para evitar um novo Maracanazo (ou outro azo qualquer, já que a seleção só jogará no estádio mais famoso do país se conseguir chegar à final).

Eu fico aqui imaginando por que o diretor de seleções da CBF perde tempo batendo boca com treinador e dirigentes de um clube pela imprensa, quando deveria estar se perguntando onde está aquela seleção olímpica, cuja programação já deveria estar há um bom tempo em cima de sua escrivaninha. Logo ele, que parece tão preocupado com o futuro de quem queima cartuchos em vão.

 

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Equipe Trivela

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