RESENHA: Herois de uma nação – O maior time rubro negro de todos os tempos

Por Roberto Aló Filho

“Aquele time era insaciável! Quanto mais você ganhava, mais tinha vontade de ganhar!” Essa frase foi dita simplesmente por Leovegildo Lins da Gama Júnior. Sim! Ele mesmo!  O maestro Júnior, lateral-esquerdo daquele timaço do Flamengo, multicampeão durante uma era: de 1978 até 1983, quando o rubro negro carioca venceu três campeonatos Brasileiros, quatro Cariocas, uma Libertadores e o Mundial Interclubes. 

Tudo isso é retratado no documentário Herois de uma nação – O maior time rubro negro de todos os tempos. Produzido por Paulo Roscio e dirigido por Eduardo leite e Marcelo Camargo, o filme traz depoimentos de ex-jogadores, dirigentes e jornalistas buscando mostrar como aquele time tornou-se campeoníssimo.

Magia. O Flamengo de Zico. A estampa desse time pode ser comparada, guardadas as devidas proporções, ao Santos de Pelé. Tanto no quesito conquistas como no carisma. Os torcedores de outros times assistiam aos jogos do Peixe para verem o Rei em campo. Isso também aconteceu com o Fla do Galinho. Dava gosto de ver. Uma equipe que jogava por música. Uma orquestra que tinha um maestro, muitos violinos e nenhum bumbo. Aliás, o instrumento de percussão daquela trupe era o pandeiro.

O instrumento típico do samba carioca ditava o ritmo daquela equipe que jogava com alegria. A frase sempre usada por todos era: “Vamos jogar com alegria”. Quando jogava dessa forma, não relaxado, mas despreocupado, o time rendia mais. E como rendia!

Como nasce um time campeão?

Vários fatores a favor explicam o sucesso do rubro negro dessa fase áurea. A formação de jogadores nas categorias de base do clube foi o primeiro deles. Desde 1972, com o surgimento de Zico, até 1976 vários atletas foram guindados ao time de cima. Esse trabalho foi realizado por Joubert Meira, ex-zagueiro do Fla entre 1955 e 1964, que era técnico da equipe de juniores do clube. Vez ou outra assumia o time principal após a queda de algum técnico, mas entre janeiro de 1974 e setembro de 1975 ele foi o técnico rubro negro e começou a usar a garotada, comprovando a máxima criada pelo jornalista Geraldo Mainenti em reportagem da revista Manchete Esportiva de 1979: “Craque, o Flamengo faz em casa”.

Outro fator era a sintonia entre diretoria e o grupo de jogadores na figura do diretor Domingos Bosco. Sua eficiência fora do gramado dava condições para que os jogadores só pensassem em jogar futebol. Bosco se preocupava com a logística e tratava os jogadores como “meus craques”.  Além disso, blindava os atletas quando acontecia uma adversidade. Certa vez, em uma derrota do Flamengo para o Botafogo da Paraíba, resolveu “sumir” com a roupa de Zico no vestiário. A imprensa toda à porta em busca de explicações sobre a derrota e Bosco sai gritando: “Nosso craque está nu. Sumiram com a roupa dele. Isto é um absurdo, acontecer em pleno Maracanã. Como é que o Zico vai sair agora do estádio?” Virou o assunto do momento. Ninguém lembrava mais da derrota. Assim era Domingos Bosco.

A importância dos treinadores.  Naquela época ninguém tinha ouvido falar nos termos “overlapping”, “ponto futuro”, “marcação por setor” e “profissionalismo”. Essas inovações foram trazidas ao clube pelo treinador Cláudio Coutinho. O Capitão, como era conhecido, assumiu o Flamengo em 1976 e ficou até 1980, passando pela Seleção Brasileira entre 1977 e 1980. Comandou o Brasil na Copa de 1978. Coutinho pegou aquela molecada que era comprometida com o clube, dentre eles Zico, Junior, Adílio, Andrade, Tita, entre outros e mesclou com jogadores experientes como Carpegiani, Raul, Sergio Ramires e Toninho Baiano. Foi tri-campeão carioca 78/79/79 e foi importante para dar corpo às grandes conquistas que viriam a seguir. Dirigiu o Fla na conquista do Brasileiro de 1980 e deu lugar a Paulo Cesar Carpegiani que ficou até 1983. O ex-jogador do rubro negro ganhou o Carioca, a Libertadores e o Mundial de 1981, além do Brasileiro de 1982. Carlos Alberto Torres assumiu em 1983 e levou o time ao tri-campeonato Brasileiro. 

O grupo era mais importante do que o individual. O time que ficou marcado foi o da conquista do Mundial em 1981: Raul, Leandro, Marinho, Mozer e Junior. Andrade, Adílio e Zico. Tita, Nunes e Lico, mas vários jogadores foram decisivos nessa era como Rondinelli, Figueiredo, Julio Cesar, Vítor, Nei Dias e Baroninho que davam conta do recado. Porém, o condutor dessa turma era o senhor Arthur Antunes Coimbra ou simplesmente Zico. Um fora de série! O Galinho de Quintino era a estrela da companhia, mas se comportava como um jogador normal. Era um líder diferente. Não precisava gritar para se impor. Fazia isso com seu futebol brilhante. E não havia ciúme entre os outros atletas. Todos sabiam que Zico estando bem, a equipe ganharia e muito com isso. Seu último jogo dessa era de vitórias entre 1978 e 1983 foi à final do Brasileiro contra o Santos na vitória por 3 a 0, onde marcou dois gols. Logo após transferiu-se para a Itália marcando o fim daquele domínio rubro negro no futebol brasileiro. Coincidência?

Conclusão: Um time campeão deve ter harmonia e elos fortes como numa corrente de aço: Bom trabalho de base revelando jogadores de qualidade, sintonia entre diretoria e time, treinadores comprometidos com essa corrente e o grupo de jogadores profissionais vestindo a camisa e acreditando que têm respaldo nesse trabalho em conjunto.

As grandes vitórias

Segundo o documentário, a mola propulsora da série de vitórias desse time foi a conquista do torneio de Palma de Mallorca, na Espanha, em agosto de 1978, quando o rubro negro venceu o Real Madrid pelo placar de 2 a 1, gols de Cláudio Adão e Cleber. Aquela foi a semente de um time campeão.

03 de dezembro de 1978, a final do campeonato carioca ficou marcada por um Deus: Rondinelli, o Deus da raça. O Flamengo era o campeão da Taça Guanabara e, se vencesse essa partida, seria campeão da Taça Rio e por consequência, campeão Carioca. Jogo empatado sem gols, resultado que dava o título da Taça Rio ao Vasco, quando aos 42 minutos do segundo tempo, Zico cobrou o escanteio e Rondinelli voou em direção a bola dando um toque divino de cabeça. Gol! O Maracanã com mais de 120 mil pessoas.  A festa então vascaína mudara de lado para êxtase dos rubro negros.

Uma das mais fantásticas finais de campeonatos brasileiros foi a de 1980 entre Flamengo e Atlético Mineiro. Dois timaços! O time carioca perdeu o primeiro jogo por 1 a 0 e precisava de uma vitória simples na segunda partida. Dia 01 de junho de 1980: Maracanã com 160 mil pessoas que testemunharam um jogão. O Atlético tinha o centroavante Reinaldo, que diziam estar com problemas físicos mas, mesmo “bixado”, o Rei deu trabalho e marcou dois gols. Entretanto, o time iluminado do Flamengo marcou três, dois de Nunes e um de Zico, levantando assim seu primeiro título nacional.

Um capítulo especial do documentário relata a “vingança” do Flamengo pra cima do Botafogo. O time da estrela solitária havia vencido o rubro negro por 6 a 0 no Brasileirão de 1972. Após esse fato, a torcida alvinegra sempre levava uma faixa escrita 6 x 0 para os jogos contra o rubro negro. Aquilo esteve entalado na garganta de torcedores e jogadores até o dia 08 de novembro de 1981. O time da Gávea fez 4 a 0 (Nunes, Zico, Lico e Adílio) no primeiro tempo. Na segunda etapa, a torcida gritava por mais dois gols.  Zico fez o quinto de pênalti e Andrade, no final do jogo aos 42 minutos, fez o sexto gol pra delírio do lado vermelho e preto do Maracanã.  A partir daquele dia a faixa teve que ser retirada pela torcida botafoguense.

23 de novembro de 1981. A terceira partida da final da Libertadores contra o Cobreloa-CHI realizada em Montevidéu-URU. Nos dois primeiros jogos, uma vitória pra cada lado. Jogo duro, os chilenos batendo até na sombra dos flamenguistas. Clima de guerra criado pelos chilenos, que precisavam da vitória a qualquer custo para satisfazer o general Augusto Pinochet. Para o ditador, o Cobreloa era a “pátria de chuteiras”. O ex-lateral rubro negro Júnior teve essa revelação em uma conversa com Mario Soto, que era o zagueiro do time chileno. O Cobreloa jogava duro, mas não era desleal. Naquela partida foi. Mesmo assim, o Flamengo venceu por 2 a 0, gols marcados por Zico e levantou a suada Taça Libertadores.

A final do Carioca de 1981, no dia 02 de dezembro, ficou marcada por uma tragédia: a morte do ex-técnico Claudio Coutinho dois dias antes da decisão com o Vasco. O flamengo do técnico Carpegiani precisava de uma vitória nas três partidas da decisão. Abatidos, os jogadores rubro negros perderam os dois primeiros jogos. Na terceira partida o sentimento de vencer pra homenagear Coutinho aflorou e o Flamengo levantou a taça vencendo por 2 a 1 com gols de Adílio e Nunes. O gol do Vasco foi de Ticão.

O jogo mais importante dessa era de vitórias foi a final do Mundial Interclubes contra o Liverpool-ING no dia 13 de dezembro de 1981. Por incrível que pareça foi também a decisão mais tranqüila disputada por aquele timaço.  O time inglês conhecia pouco sobre o Flamengo. Já os brasileiros conheciam os pontos fortes ingleses amparados pelo trabalho do olheiro Jairo dos Santos. Resultado: 3 a 0 no primeiro tempo fora o baile. Os gols foram de Nunes (2) e Adílio.

O Mengão tornou-se bicampeão brasileiro contra o Grêmio com um gol de Nunes no estádio Olímpico, em 25 de abril de 1982. O último grande título dessa equipe veio com o tricampeonato brasileiro em 1983. A segunda final contra o Santos, dia 23 de maio, foi um espetáculo de um Flamengo arrasador: 3 a 0, gols de Zico, Leandro e Adílio para a festa dos 160 mil presentes no Maracanã.

Derrotas doídas

Duas derrotas foram marcantes nessa era vitoriosa do flamengo: A quarta-de-final do Brasileirão de 1979 contra o Palmeiras, que venceu por 4 a 1 em pleno Maracanã e a semifinal da Libertadores de 1982 contra o Peñarol, 0 a 1, também jogada no maior do mundo, que impediu o rubro negro de disputar mais uma final da competição sul-americana.

Qualidade técnica

Hoje dificilmente teremos uma equipe com aquela qualidade técnica e reunindo tantos talentos por um período tão longo. Um time que teve oito jogadores formados na base disputando a final do Mundial Interclubes algo difícil de acontecer neste mundo milionário do futebol. Quem viu, viu. Quem não viu, verá no documentário.

Os títulos mais importantes de 1978 a 1983

Mundial Interclubes – 1981
Taça Libertadores da América – 1981
Campeonato Brasileiro – 1980, 1982 e 1983
Campeonato Carioca – 1978, 1979, 1979 (especial) e 1981
Taça Rio – 1978 e 1983
Taça Guanabara – 1978, 1979, 1980, 1981 e 1982

Ficha Técnica
Herois de uma nação – O maior time rubro negro de todos os tempos
Duração – 50 minutos
Direção e Argumento – Eduardo Leite e Marcelo Camargo
Roteiro – José Carlos Asbeg
Locução – Milton Gonçalves
Produção executiva – Paulo Roscio
Extras – O Mundial; O grupo; Histórias; Bônus; As campanhas.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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