RESENHA | Conheça o filme Montevideo, de Dragan Bjelogrlic

Por Daniel Brito

O pensamento de que não existe mais romantismo no futebol já conquistou seu lugar entre máximas como “futebol é uma caixinha de surpresas” ou “o jogo só acaba quando termina”. Este é um claro sinal do tal profissionalismo, conceito de abrangência mundial que, por servir de escudo para as mais diversas condutas de jogadores e empresários, se torna cada vez mais subjetivo e difícil de entender.

O romantismo é o movimento estético centrado na idealização de um indivíduo, que valoriza a subjetividade – sentimentos como amor, saudade, ciúme – ao invés da objetividade. Todas as artes já tiveram sua fase romântica, como música, pintura, literatura e por que não o futebol? Afinal, quem acompanha o esporte certamente já viveu uma época sem saber o que é empresário, patrocinador ou marketing; só o que importava era o clube e seus ídolos.

Olhar o futebol sob de uma forma romântica é a proposta do ótimo filme Montevideo (Sérvia, 2010), de Dragan Bjelogrlic, adaptado do livro homônimo de Vladimir Stankovic. Inspirado em fatos reais, o filme aborda de forma lúdica e bem humorada a história a formação da primeira seleção iugoslava de futebol e sua trajetória até a Copa do Mundo do Uruguai, em 1930.

A trama
Para mostrar o esporte de forma idealizada, surge o personagem Stanoje, menino manco do subúrbio de Belgrado, fascinado por futebol, que será o narrador da história. Stanoje conta a trajetória amigo Tirke, o melhor jogador de seu bairro. Órfão de pai, Tirke vive entre a obrigação de ajudar sua mãe trabalhando na indústria e o sonho de se tornar jogador de futebol. Já desiludido e por insistência de Stanoje, tenta a sorte no BSK Belgrado, que ao lado do SK Jugoslavija, dividia a maior rivalidade do país.

Bem sucedido no teste, Tirke conhece Mosa, o mais famoso jogador da Iugoslávia e único no país a receber salário. A dupla ajuda o BSK a ganhar o dérbi e vai se tornando famosa em toda Iugoslávia. Meio a isso, os dirigentes da seleção nacional vislumbram a possibilidade de disputar a primeira Copa do Mundo de futebol, em Montevidéu, mas sequer contavam com um time.

Assim, ao longo de uma série de reviravoltas e histórias paralelas, a união dos jogadores das duas equipes rivais acaba formando a primeira seleção nacional da Iugoslávia.

Elementos e reflexões
Os desdobramentos da história de amizade entre Tirke e Mosa podem ser facilmente aplicados a situações de futebol que convivemos. Em Montevideo, a aproximação entre o menino pobre que começa a fazer sucesso e o jogador já famoso começa de forma amável, mas não demora a provocar desentendimentos, por motivos igualmente verossímeis: mulheres.

Tirke é apaixonado por Rosa, uma inocente garota do seu bairro; Mosa se envolve com a boêmia artista Valeria. Previsíveis reviravoltas e mal entendidos fazem com que os amigos acabem brigando, situação que se reflete na seleção e se torna empecilho no caminho do time à Copa do Mundo.

Embora a figura da mulher seja usada como um clichê, o contexto do filme não apenas o justifica, como torna belo, lúdico. Afinal, é preciso lembrar que a história é contada por um menino que, como ele próprio diz no começo do filme, “conhecia muito sobre futebol e pouco sobre a vida”.

O olhar inocente de Stanoje é capaz de fazer qualquer aficionado por futebol deixar de lado o seu lado crítico por exatos 140 minutos, reavivando uma época em que o futebol era grande demais comparado aos interesses ao seu redor. Um dos pontos altos do filme é o momento em que o jovem conta ao espectador como era ir ao estádio na década de 20. “Naquela época, futebol não era feito de ricos em campo assistidos por pobres, e sim o contrário”.

Estréia no Brasil
Montevideo teve sua primeira exibição no Brasil durante a 35a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo com a presença de seu diretor. Dragan Bjelogrlic, que também é ator, disse à plateia, antes de começar a sessão, que sua intenção ao dirigir era tentar contar uma história que, fundamentalmente, transmita alegria do começo ao fim.

Exageros – ou firulas – à parte, ele foi bem sucedido.

Os fatos reais
A Iugoslávia participou da Copa do Mundo de 1930, no Uruguai, ao lado de Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, México, Peru, Estados Unidos, Bélgica, França, Romênia e os donos da casa. O time chegou à semifinal, derrotando inclusive o Brasil na fase de grupos, quando perdeu para o país sede e futuro campeão.

A dupla de ataque, formada por Blagoje “Mosa” Marjanovic e Aleksandar “Tirke” Tirnanic, é considerada até hoje como uma das melhores da história da Sérvia.

FICHA
Montevideo (Sérvia, 2010)
Elenco: Milos Bikovic, Petar Strugar, Nina Jankovic, Danina Jeftic, Predrag Vasic
Escrito por: Ranko Bozic, Srdjan Dragojevic e Vladimir Stankovic
Diretor: Dragan Bjelogrlic

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