RELEMBRE O JOGADOR | Wilimowski: Nem a guerra o parou

Por Lucas Alencar

Nas últimas duas Copas do Mundo, ocorreram duas mudanças significativas nos maiores goleadores da história da competição. Ronaldo Fenômeno superou em 2006, após 32 anos, a marca do alemão Gerhard Müller, até então recordista com 14 gols. Quatro anos depois, o mundo viveu a expectativa de outro alemão, Miroslav Klose, alcançar o brasileiro, mas ele ficou no quase. O polonês naturalizado germânico parou nos 14 gols. Mesmo assim, igualou o fantástico número de Müller.

Poucos sabem ou lembram, porém, de outro polonês naturalizado alemão que brilhou em Copas. Ernst Wilimowski, que faleceu em 1997, jogou a competição uma única vez, em 1938, e marcou quatro gols. Um número que pode até ser considerado normal se não fosse o fato de que o jogador chegou a essa quantidade de gols em apenas uma partida.

O começo
Ernst Wilimowski, ou Ernst Otto Pradella, seu nome de batismo, nasceu durante a I Guerra Mundial em 23 de junho de 1916, na cidade de Kattowitz, que fazia parte do Império Alemão – atualmente integra o território da Polônia e se chama Katowice. Por causa do confronto, Ernst veio ao mundo basicamente sem pai, um soldado alemão que foi morto durante os combates.

Mas o futebol sempre esteve presente na vida de Ernst. Ele começou a jogar quando ainda era um garoto de 11 anos no FC Kattowitz. E foi lá que toda sua técnica foi aprimorada. O atacante atuou no clube até 1933, quando partiu para o Ruch Wielkie Hajduki (atual Ruch Chorzów), também da Polônia.

No novo time, Ezi, apelido que recebeu, estreou antes mesmo de completar 18 anos. Considerado o melhor do time, mesmo jovem, ele conduziu o Ruch na conquista da supremacia do país – a equipe foi campeã da primeira divisão de 1933 a 36 e depois em 1938. Destes campeonatos, Ernst Wilimowski foi artilheiro em dois (34 e 36). Sua passagem pelo Ruch terminou em 1939 com expressivos 112 gols em apenas 86 partidas.

Na seleção polonesa
Ezi chegou à seleção da Polônia antes mesmo de brilhar no futebol, contrariando qualquer prognóstico. Mas o atacante não era um simples jogador e em 1934, com 17 anos e 332 dias, ele estreou com a camisa polonesa. O debute não foi dos melhores, terminando com vitória da Dinamarca por 4 a 2. Esse jogo, porém, foi apenas um dos 22 que Ezi fez pela Polônia, onde alcançou a incrível marca de 21 gols, média de quase um por partida.

Poderia ter sido mais, não fosse o comportamento do jogador fora dos gramados. Em 1936, ele deixou de ser chamado para os Jogos Olímpicos de Berlim por problemas com álcool e festanças. Sua ausência custou caro aos poloneses, quarto lugar da competição. Críticos da época acreditavam que Ezi levaria à conquista da medalha de ouro.

Mas os momentos de glória de Ernst Wilimowski ainda estavam por vir. Em 05 de junho de 1938, em confronto contra o Brasil pela Copa do Mundo daquele ano, a Polônia fez uma partida memorável, mas acabou perdendo por 6 a 5. No entanto, quem roubou a cena do duelo foi Wilimowski. O atacante marcou quatro vezes e ainda participou do quinto gol – sofreu o pênalti que o também polonês de origem alemã Fryderyk Scherfke converteu. O feito conquistado pelo jogador foi recorde por 56 anos, até que Oleg Salenko o bateu marcando cinco vezes na goleada por 6 a 1 sobre Camarões na Copa de 1994.

Em 1939, a quatro dias de eclodir a Segunda Guerra Mundial, a Polônia enfrentou amistosamente a Hungria, vice-campeã de 1938, e conseguiu uma virada heróica. Comandados por Ezi, os poloneses reagiram após estarem perdendo por 2 a 0 e venceram por 4 a 2, com três gols do atacante e outro gol de pênalti sofrido por Wilimowski.

Atuação durante a guerra e a mudança para a seleção alemã
Com o início da Segunda Guerra, Ezi teve que se desgarrar da Polônia, pois ficou proibida a prática de esportes no país. Como era descendente de alemão, o artilheiro encontrou refúgio na Alemanha para continuar jogando e retornou para o FC Kattowitz com outros poloneses de origem germânica.

Após um ano no clube que o revelou, Wilimowski foi para o Polizei-Sportverein Chemnitz em 1940, onde se dividiu na carreira de policial e jogador. Com a Polônia sob o regime nazista, Ezi acabou sendo convocado para integrar a seleção alemã. E não decepcionou, marcando 13 gols em oito jogos.

A Segunda Guerra voltou a atrapalhar a carreira de Ezi e ele não atuou mais pela Alemanha, já que as partidas internacionais foram suspensas. Com o país destruído após as batalhas, o atacante só teve possibilidade de retornar à seleção na Copa de 1954. Então com 38 anos, ele foi preterido e não participou, sendo esta uma de suas maiores frustrações, de acordo com relatos da filha do jogador.

Nesse longo período em que ficou de fora da seleção, Ernst seguiu brilhando em diversos clubes alemães, como Munique 1860, Chemnitz-West, Augsburgo, Offenburgo, Singen 04, VfR Kaiserslautern e Kehl, onde encerrou a carreira com 43 anos em 1959 e a incrível marca, contando gols em partidas oficiais e não-oficiais, de 1.175 gols.

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