RELEMBRE O JOGADOR: Juan Alberto Schiaffino, o cerebral uruguaio

Por Bernardo Guimarães

“Ele tinha um radar no lugar do cérebro”, a célebre frase dita por Cesare Maldini – bastião do Milan e do futebol italiano – define bem quem foi Juan Alberto Schiaffino, um dos jogadores mais inteligentes e brilhantes da história do esporte bretão. Dono de uma poderosa canhota e com uma inteligência tática e visão de jogo muito acima da média, Schiaffino notabilizou-se como um dos maiores jogadores uruguaios da história e marcou época por onde passou.

Pepe, como era conhecido no Uruguai, começou a jogar nos campos de várzea de Pocitos, região metropolitana de Montevidéu e logo chamou a atenção do Palermo, equipe amadora do bairro homônimo, localizado no sul da capital uruguaia. Desde garoto, Schiaffino se destacava pela enorme visão de jogo, característica que o consagraria mundialmente anos mais tarde.
Durante a adolescência Pepe também passou pelas filas do Olimpia, outro time amador de Montevidéu, mas nesta época o futebol era só um passatempo para o garoto que ganhava a vida como padeiro e, posteriormente, trabalhando em uma fábrica de alumínio.

Aos 17 anos ingressou às divisões de base do Nacional, mas seu destino estava selado junto ao maior rival do tricolor montevideano, o Peñarol. Depois de poucos meses com a camisa dos bolsilludos, Pepe foi levado por seu irmão, Raúl Schiaffino, ao time aurinegro onde faria história.

Ainda nas divisões inferiores dos carboneros, Pepe Schiaffino fez parte de uma mítica equipe que até hoje é lembrada pelos mais antigos torcedores do Peñarol, chamada de a Lendária Terceira de 43, uma espécie de time de aspirantes dos mirassoles que fez história no futebol uruguaio e onde Schiaffino dividia a armação da equipe com Victor Rodríguez Andrade que, anos depois, seria seu companheiro na Celeste nas Copas do Mundo de 1950, no Brasil, e 1954, na Suiça.

Pepe só ascendeu à equipe principal do Peñarol em 1946, depois de sua primeira convocação para a Seleção Uruguaia, o que aconteceu quando ainda atuava pelo terceiro time carbonero. Em sua temporada de debute na primeira esquadra do Peñarol, jogou 23 partidas e anotou 13 gols. Apesar dos bons números, Juan Alberto Schiaffino teve que amargar o vice campeonato vendo o Nacional, maior rival dos Manyas, levantar o troféu de campeão, o que se repetiu em 1947.

Em 1948 um movimento grevista paralisou o futebol uruguaio. O campeonato nacional daquele ano foi interrompido após a décima rodada em razão da greve dos jogadores e não chegou ao fim. A bola só voltaria a rolar no Uruguai no ano seguinte e a primeira grande glória de Juan Alberto Schiaffino estava por vir.

O Esquadrão da Morte

Com dois títulos consecutivos do Nacional e um campeonato inacabado em três temporadas, 1949 tinha que ser o ano do Peñarol. E para tal, formou-se no estádio José Pedro Damiani aquele que seria considerado, até os dias de hoje, o maior time da história do clube. Sob o comando do treinador húngaro Emerich Hirschl, o Peñarol foi campeão daquele ano de forma invicta, com seis pontos de vantagem sobre o Nacional – em uma época em que a vitória valia apenas 2 pontos – e com duas vitórias sobre seu maior rival, 2 X 0 no jogo de ida – partida em que os carboneros se negaram a voltar ao campo depois do intervalo – e um mítico 4 X 3 no returno. O Peñarol venceu 16 das 18 partidas do campeonato de 49, empatou outras duas, anotou 62 gols e tomou apenas 17.

Schiaffino era considerado o cérebro da linha média-ofensiva desta equipe que ficou conhecida como Esquadrão da Morte e contava ainda com os craques Juan Eduardo Hohberg, destaque uruguaio na Copa de 1954, Alcides Ghiggia, autor do gol do título celeste na Copa de 1950, Óscar Míguez, campeão de 50 e maior artilheiro da história da seleção uruguaia, e Ernesto Vidal, habilidosos ponta esquerda apelidado de O Patrulheiro, titular na Copa de 50 até a partida contra Espanha, quando se machucou. O time de 1949, considerado o maior da história do Peñarol, ainda contava com mais três lendas do futebol uruguaio, o eterno capitão Obdulio Varela, o goleiro Roque Máspoli e o meio-campista Washington Ortuño, todos campeões no Brasil em 1950.

Mesmo sendo base da seleção uruguaia campeã do mundo, os carboneros não repetiram o sucesso da celeste olímpica no campeonato local e viram o Nacional ficar com o título de 1950. No ano seguinte o Peñarol voltou a conquistar o campeonato uruguaio, feito que se repetiu em 1953 e 1954, sempre com Pepe Schiaffino se notabilizando como uma das figuras nas três conquistas.

O título uruguaio de 1954 foi o último de Schiaffino com a camisa do Peñarol. No dia 25 de julho do mesmo ano ele se despediu da torcida carbonera em uma partida amistosa contra o River Plate do Uruguai. A vitória aurinegra por 6 X 1 foi o que menos importou para a multidão que lotou o estádio Centenário para despedir-se de um dos maiores ídolos de todos os tempos do Peñarol e do futebol uruguaio.

O adeus teve que ser dado porque os italianos do Milan desembolsaram 72 mil libras esterlinas, o equivalente a 103 mil euros para ter o cerebral jogador em suas filas. Embora a quantia pareça ínfima para os dias de hoje, a transferência de Schiaffino foi, à época, a maior da história do futebol e só foi batida três anos depois quando o argentino Omar Sívori trocou o River Plate da Argentina pela Juventus da Itália.

Os anos no Calcio

Após a Copa do Mundo da Suiça, em 1954, Juan Alberto Schiaffino desembarca em Milão para defender o time rubro negro da cidade. Em razão de sua descendência italiana e do fato do escrete milanista já possuir dois jogadores estrangeiros, a dupla sueca Gunnar Nordahl e Nils Liedholm, Pepe Schiaffino chegou a Milão já com a dupla nacionalidade, o que o permitiu atuar também pela Squadra Azzurra.

Logo em sua primeira temporada com os rossoneri (1954/1955), Schiaffino sagrou-se campeão italiano, quebrando a sequência de dois títulos consecutivos da rival Internazionale. O uruguaio anotou 15 gols na campanha vitoriosa e o scudetto valeu ao Milan a classificação para a primeira Copa dos Campeões da Europa, torneio disputado na temporada 1955/1956 e no qual a equipe italiana chegou às semifinais, caindo diante do Real Madrid de Alfredo di Stéfano, time que viria a ser campeão da competição. Na mesma temporada o rubro negro de Milão sagrou-se campeão da Copa Latina, torneio que era disputado por equipes da Espanha, Itália, França e Portugal e que, antes da criação da Liga dos Campeões, era o principal campeonato continental da Europa.

Dedicando-se apenas ao Calcio, Schiaffino e o Milan reconquistaram o título italiano na temporada 1956/1957, classificando-se para a terceira edição da Copa dos Campeões. No torneio continental no ano seguinte, o Milan voltou a reencontrar o Real Madrid de Alfredo di Stéfano, só que desta vez na decisão do torneio. Aos 14 minutos do segundo tempo, Schiaffino abriu o placar na grande final que aconteceu no estádio Heysel, em Bruxelas. O hispano-argentino Alfredo di Stéfano empatou o cotejo aos 29 do segundo tempo; aos 33 o argentino Ernesto Grillo voltou a colocar os milanistas à frente no placar, mas um minuto depois outro hispano-argentino, o atacante Héctor Rial, deixou tudo igual, levando a partida para o tempo extra. Aos dois minutos do segundo tempo da prorrogação, o espanhol Francisco Gento marcou e garantiu o terceiro título consecutivo da Copa dos Campeões para o time de Madrid. Com todas as atenções voltadas para o torneio continental, o Milan amargou um discreto nono lugar no Campeonato Italiano.

Na temporada 1958/1959, disputando novamente apenas os campeonatos nacionais, o Milan voltou a faturar o Scudetto, deixando pra trás Fiorentina, Internazionale e Juventus, seus três grandes rivais da época. Na temporada seguinte o Milan não conseguiu repetir o bom desempenho das outras duas participações na Copa dos Campeões, caindo diante do Barcelona ainda nas oitavas de final, perdendo por 0 X 2 em Milão e tomando uma sonora goleada na Catalunha, 5 X 1. Ao final da temporada 1959/1960 Schiaffino foi vendido à Roma onde encontraria um antigo companheiro de Peñarol e Seleção Uruguaia, o atacante Alcides Ghiggia.

Mesmo com 35 anos, Juan Alberto Schiaffino manteve o alto nível nos Giallorossi e logo em sua primeira temporada levou o time vermelho da Cidade Eterna ao título da Copa das Feiras, a precursora da Copa da UEFA, hoje já denominada de Liga Europa. Na final, a Roma venceu o Birmigham, empate na Inglaterra em 2 X 2 e vitória giallorossi na Itália, 2 X 0.
A inteligência tática de Schiaffino era tanta que, na Roma, foi deslocado para jogar de líbero, posição a qual se adaptou rapidamente e, mesmo já veterano, conseguiu se destacar. Ao final da temporada 1961/1962, com o segundo quinto lugar consecutivo no Campeonato Italiano, o uruguaio encerrou oficialmente a gloriosa carreira.

Na Celeste

A história de Juan Alberto Schiaffino na Seleção Uruguaia é riquíssima. Sua primeira convocação aconteceu quando Pepe tinha apenas 20 anos e ainda defendia o terceiro time do Peñarol. Sua estréia com a camisa celeste aconteceu em 29 de dezembro de 1945 no estádio Centenário de Montevidéu, em um amistoso contra a Argentina, quando Juan Alberto teve o privilégio de atuar ao lado do seu irmão dois anos mais velho, Raúl Schiaffino.

Cinco anos depois do seu debute Pepe Schiaffino já era um dos principais jogadores da Celeste Olímpica que viria ao Brasil e venceria a Copa do Mundo de 1950. Foi dele o gol de empate na decisão contra a Seleção Brasileira, tento que abriu o caminho para o título uruguaio. Schiaffino atuou nas quatro partidas do Uruguai no Mundial de 50 e anotou três gols, o mais importante deles o de empate na grande decisão.

Quatro anos depois, na Suiça, Juan Alberto Schiaffino jogava sua segunda Copa do Mundo, novamente com grande destaque. Ao lado do atacante Juan Eduardo Hohberg, ele foi o grande jogador uruguaio do Mundial de 1954, quando a Celeste caiu nas semifinais diante do mítico time da Hungria, 4 X 2 em um jogo duríssimo, decidido apenas na prorrogação. Na disputa pelo terceiro lugar o Uruguai foi derrotado pela Áustria por 3 X 1 e terminou aquela Copa na quarta colocação. A partida contra os austríacos foi a última do meia com a camisa do Uruguai.
Ao todo Juan Alberto Schiaffino defendeu a Celeste Olímpica em 21 partidas – 9 em Copas do Mundo – e marcou oito gols, sendo cinco deles em Mundiais.

Na Squadra Azzurra

Seis meses após tranferir-se ao Milan, Schiaffino estreava na Seleção Italiana em um amistoso contra a Argentina, em Roma. O uruguaio só voltou a vestir a camisa azul da Itália três anos depois de seu debute, em 1957, já nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1958, que seria disputada na Suécia.

Seu retorno aconteceu no tumultuado jogo contra a Irlanda do Norte em Belfast. A partida terminou empatada em 2 X 2, o que praticamente garantia a classificação italiana para o Mundial seguinte, mas acabou anulada pela FIFA já que o árbitro designado para o cotejo, o húngaro István Zsolt, ficara retido no aeroporto de Londres por causa do mau tempo na capital inglesa e o jogo teve que ser dirigido por um árbitro norte-irlandês.

A partida contra a Irlanda do Norte foi remarcada, os britânicos venceram por 2 X 1, se garantiram no Mundial e, com esta derrota, Schiaffino se despediu da Squadra Azzurra. Ao todo foram quatro jogos pela Seleção Italiana e nenhum gol.

Ficha Técnica
Nome Completo: Juan Alberto Schiaffino
Nascimento: 28/07/1925 – Montevidéu (Uruguai)
Morte: 13/11/2002 – Montevidéu (Uruguai)
Equipes: Peñarol (Uruguai), Milan (Itália) e Roma (Itália)
Seleções: Uruguai (1945/1954) e Itália (1954/1957)
Copas do Mundo: 2 (1950 e 1954)
Títulos: Campeão uruguaio pelo Peñarol em 1949, 1951, 1953 e 1954. Campeão italiano pelo Milan em 1955, 1957 e 1959. Campeão da Copa Latina pelo Milan em 1956. Campeão da Copa das Feiras pela Roma em 1961. Campeão da Copa do Mundo de 1950 pela Seleção Uruguaia.
Jogos/Gols: Peñarol: 227/88
Milan: 171/60
Roma: 39/3
Seleção Uruguaia: 21/8
Seleção Italiana: 4/0
Total: 462/159
O gol contra o Brasil em 1950: http://www.youtube.com/watch?v=lB52ly-ca-A

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