RELEMBRE O JOGADOR: Erwin Sánchez, o Platini dos Andes
/https%3A%2F%2Ftrivela.com.br%2Fapp%2Fuploads%2Fhttps%3A%2F%2Ftrivela.com.br%2Fapp%2Fuploads%2F2011%2F11%2Fimg-16544-erwin-sanchez-fez-parte-do-elenco-da-bolivia-na-copa-de-1994.jpg)
Joseph Blatter, Michel Platini e toda a comitiva da Fifa visitavam a Bolívia. Quando tentavam entrar no local de um dos eventos previstos, o francês foi barrado pelo segurança. “Não, ele tem de entrar. É o Platini”, disseram. O segurança, todo orgulhoso, disse conhecer pessoalmente Platini e que não tinha fisicamente nada a ver com aquele sujeito. O funcionário achava que Platini era o nome do meio de Erwin Sánchez, ídolo local.
A confusão do segurança foi inesperada, mas dá uma boa noção do quão forte é a imagem de Erwin “Platini” Sánchez no imaginário do torcedor boliviano. Nascido em 19 de outubro de 1969, em Santa Cruz de la Sierra, conviveu desde garoto com a bola. Com apenas 12 anos já estava na Academia Tahuichi, o maior celeiro de talentos do país (Marco Etcheverry, Juan Manuel Peña, Jaime Moreno, Luis Hector Cristaldo e muitos outros, saíram de lá).
Sua primeira experiência internacional foi aos 15 anos. A Tahuichi foi designada para representar a Bolívia no Mundial Sub-16 (atual Sub-17), realizado na China. Sánchez atravessou o mundo, foi titular em duas partidas e fez o único gol de sua seleção no torneio, num empate por 1 a 1 com os donos da casa.
Profissionalismo
A estreia profissional veio em 1987, pelo Destroyers. Seu time ocupava uma posição no no meio da tabela, mas Sánchez se destacava. Em fez 23 gols em 67 jogos e, em 1988, foi vendido ao Bolívar. Conquistou o título nacional logo na primeira temporada no time de La Paz, depois de vencer a decisão contra o rival The Strongest por 3 a 0.
Em 1989, já fazia sua primeira aparição na seleção principal da Bolívia. Ele veio ao Brasil para a Copa América. Como titular ou entrando no segundo tempo, atuou em três das quatro partidas de sua seleção. Ficou de fora apenas no 0 a 0 contra a Argentina, na última rodada.
Tudo continuava acontecendo muito rápido na carreira de Sánchez. Apenas um ano após sua participação na Copa América ele já conseguia uma transferência para o futebol europeu – algo, na época, raro para um jogador boliviano. O Benfica – comandado por Sven-Göran Eriksson – pagou US$ 300 mil para tirá-lo do Bolívar. Ainda jovem, ele teve dificuldades para ganhar espaço no elenco. O time foi campeão português, mas o meia foi emprestado ao pequeno Estoril na temporada seguinte.
Volta por cima
Mesmo adaptado à seleção boliviana, Sánchez precisava se consolidar no seu clube. E teve sucesso. Na primeira temporada pelo Estoril, foi titular absoluto, marcando oito gols na surpreendente campanha dos canários, que terminaram na décima posição. Mesmo assim, o Benfica rescindiu seu contrato. O boliviano acabou assinando com o Boavista.
O segundo clube da cidade do Porto estava se estruturando e ambos – time e jogador – acabaram crescendo juntos. Na primeira temporada, Platini Sánchez foi reserva, mas foi fundamental para levar a Bolívia à Copa 94, superando o Uruguai nas Eliminatórias. O meia se transformou em titular do Boavista na temporada seguinte, quando os axadrezados fizeram boa participação na Copa da Uefa (eliminaram Union Luxembourg, Lazio e OFI Creta-GRE antes de cair diante do Karlsruher).
O grande momento da carreira de Sánchez foi em junho de 1994, na Copa do Mundo dos Estados Unidos. A campanha da Bolívia foi trágica, com apenas um ponto, no empate de 0 a 0 diante da Coreia do Sul. Na última partida, em 27 de junho, os bolivianos encararam a Espanha. A Furia venceu por 3 a 1, encerrando a participação boliviana na Copa do Mundo. Erwin Sánchez, porém, entrou para a história. Aos 22 minutos do segundo tempo, a Espanha já vencia a dois gols, Platini chutou de fora da área. A bola desviou em um defensor espanhol e encobriu Zubizarreta. Foi o primeiro – e até hoje único – gol da Bolívia em Mundiais. Não à toa, o meia foi eleito o jogador do ano de seu país em 1994.
O retorno
Sánchez tornara-se referência no Boavista, permanecendo no clube de 1992 até 1997, num total de 106 partidas e 25 gols pelos axadrezados. Sua participação no clube do Bessa terminou com um título da Taça de Portugal, fazendo dois gols na vitória por 3 a 2 sobre o Benfica na final. Os encarnados resolveram apostar novamente no boliviano. E novamente se decepcionaram. Na temporada 1997/98 meia foi titular apenas nove vezes,
marcou seis gols e jogou apenas 1.114 minutos. Acabou retornando ao Boavista.
O ano de reestreia não foi positivo para Sánchez, que jogou apenas quatro vezes como titular. O Boavista fez um excelente Campeonato Português, terminando na segunda posição e conquistando a vaga para a primeira Liga dos Campeões de sua história. A titularidade só foi recuperada no final da temporada 1999/2000, quando o time já havia sido eliminado da LC.
Em 2000/01, o boliviano teve sua temporada mais vitoriosa em Portugal. O meia foi o motor do Boavista durante a campanha que resultou no único título da Superliga da história do clube. Na temporada seguinte, foi importante para levar os axadrezados para a segunda fase de grupos da Liga dos Campeões.
Foi o último grande momento do Platini dos Andes. Em janeiro de 2003, já com 33 anos, Sánchez teve diagnosticada uma lesão no ligamento anterior. Perdeu o resto da temporada europeia. Em 2003/04, no último ano de seu contrato, tentou a sorte como técnico do Boavista. O meia voltou à Bolívia e tentou retomar a carreira, fazendo duas temporadas pelo Oriente Petrolero. Fez dez gols em 38 partidas antes de encerrar definitivamente a carreira, aos 35 anos.
Prancheta
A partir de 2006, Erwin Sánchez foi o escolhido para liderar a seleção principal da Bolívia, como treinador. Sem grandes jogadores em mãos, o ex-meia não conseguiu repetir o sucesso da época de atleta. Platini comandou a Bolívia nas Eliminatórias Sul-Americanas para a Copa 2010. La Máquina Verde ficou na penúltima posição, à frente apenas do Peru. A rara glória foi a goleada por 6 a 1 sobre a Argentina de Maradona em La Paz. No total, ele dirigiu os bolivianos em 53 partidas, ganhando apenas nove, empatando outras sete e perdendo 37, um aproveitamento de 34,34%.
Hoje, aos 42 anos, o Platini boliviano não está comandando nenhuma equipe e se concentra na carreira do filho, Erwin Sánchez Jr. O garoto, que já passou pelos juvenis do Porto e por clubes universitários dos Estados Unidos, atualmente defende o sub-23 do DC United (Estados Unidos). Talvez esteja no DNA o início da recuperação do futebol boliviano.