Red Bull Salzburg: Nas asas do dinheiro
Dietrich Mateschitz, com apenas um produto (a bebida energética Red Bull), construiu um império de milhões de dólares e enorme reconhecimento mundial. Tudo isso permitiu a ele estender seu domínio ao esporte, promovendo competições, comprando equipes de Fórmula 1 (Red Bull e Toro Rosso) e de futebol (Red Bull New York).
Mas outra de suas compras esportivas trouxe muita controvérsia e críticas, especialmente dos antigos fãs da equipe comprada. Trata-se do Red Bull Salzburg, ou como “antes” se chamava, Austria Salzburg
A pré-história
O Áustria Salzburg nasceu no ano de 1933, da fusão entre o Hertha e o Rapid locais. Vinte anos após sua fundação, o clube conquistou a promoção para a primeirona austríaca, em 1953. No início, o clube se comportou como um autêntico “ioiô”, alternando rebaixamentos e promoções. Quando permanecia na elite, ficava em posições intermediárias. Em 1969, o clube começa a se mudar para o Lehner Stadions, mudança completada em 1971.
A primeira boa campanha do Áustria foi a temporada 1970/1, com o vice-campeonato, um ponto atrás do Wacker Innsbruck. Os “Violet-Weiss” (branco e violeta) mudariam de nome em 1978 para Casino Salzburg (quando a Casinos Áustria, empresa de jogos local se tornou patrocinadora). A verba dos cassinos demorou a fazer o time deslanchar: só nos anos 90, a equipe começou a obter bons resultados, com o bi-vice em 1991/2 e 1992/3, sucedendo-se o primeiro título austríaco da equipe, em 1993/4.
O Casino seria campeão nacional mais duas vezes, em 1994/5 e 1996/7. Mas o melhor mesmo aconteceu na temporada do primeiro campeonato. Na Copa da UEFA, o time de Salzburg passou por DAC Dunajska Streda-EVQ, Royal Antuérpia-BEL, Sporting Lisboa, Eintracht Frankfurt, Karlsruhe, e chegou a inédita final com a Internazionale. Pena que Berti, no primeiro jogo e Jonk, no segundo, tiraram a chance da conquista continental ao Casino.
A hora da compra chegou
Em 1997, a Wüstenrot (um grupo financeiro) assumiu o patrocínio do time e o Salzburg adotou o nome deste, Wüstenrot Salzburg. Mas o máximo que o clube faz foi chegar à final de uma Copa da Áustria, em 1999/2000. O clube sofria com as dívidas e com várias campanhas ruins durante esta época, mas tudo parecia que ia mudar um dia.
Em abril de 2005, a Red Bull comprou a equipe de seus antigos sócios e renomeou o time de “Red Bull Salzburg”. A nova direção tratou de mudar tudo, mas tudo mesmo. Não contente em apenas colocar novos diretores e comissão técnica, a empresa radicalizou e resolveu mudar até a cara do time, mudando as cores do uniforme para vermelho e branco (apesar do violeta permanecer nos estatutos), e declarando que a equipe “era nova e não tinha história”.
Um United of Manchester austríaco?
Assim como aconteceu na Inglaterra quando Malcolm Glazer comprou o Manchester United, os torcedores mais tradicionais da equipe ficaram furiosos com o ato e resolveram protestar pela volta da tradição do Salzburg. Diversas reuniões foram feitas entre os torcedores e a nova diretoria, mas nada foi resolvido. Desde então, o clube tem “dois” tipos de torcedores: os que decidiram ficar e se tornar torcedores do Red Bull Salzburg (os Rot-Weiss) e os mais tradicionais (Violet-Weiss). Os “órfãos” do antigo Áustria Salzburg conseguiram registrar o nome da equipe e seu escudo, e negociaram uma fusão com o Salzburg Police Sports Club, que jogava na quarta divisão. E decidiram recomeçar a história da sétima divisão local, como SV Áustria Salzburg.
Já no “novo” time, o dinheiro trouxe novidades para os torcedores que permaneceram. Giovanni Trappatoni assumiu o cargo de treinador da equipe, e Lothar Matthäus se tornou auxiliar técnico. Jogadores como Niko Kovac e Alexander Zickler foram para o Red Bull. E o resultado da história foi logo na primeira temporada: o vice-campeonato austríaco, que garantiu vaga para as fases preliminares da LC. Nesta edição da Liga, entrou na segunda fase, eliminando o Zürich, da Suíça, e chegou a vencer na partida de ida o Valencia, mas acabou eliminado e tendo que se contentar com a Copa da UEFA.
Se os novos tempos, com a grana da Red Bull irão durar, ninguém sabe. Mas que fenômenos como este, de empresas comprarem equipes e as rebatizarem poderão ser comuns no futuro. Os mais tradicionais podem não gostar, mas é um processo que deve ser analisado com cuidado.



