Racing Santander: Frustrando expectativas (dos outros)

Palco: Estádio El Sardinero, em Santander. Atração: primeira partida do atacante Ronaldo como titular do poderoso Real Madrid após sua contratação, na temporada 2002/3. Adversário: Real Racing Club de Santander, ou Racing Santander. Promessa: show dos galácticos da equipe de Madrid, que naquela noite também contava com Roberto Carlos e o francês Zidane – o português Figo e o espanhol Raul estavam machucados. Resultado final do jogo: o Racing ignorou os astros do Real Madrid e, sem oferecer chances ao rival, venceu por 2 a 0, gols de Regueiro e Munitis.

A expectativa era grande, afinal, Ronaldo, a maior contratação do Real Madrid para aquela temporada, iria estrear como titular da equipe merengue. Mas a velha história de Davi derrotar Golias repetiu-se. Ronaldo foi pouco acionado e acabou fazendo atuação discreta. Na ocasião, a equipe de Madrid ainda perdeu sua invencibilidade no campeonato.

O nome do jogo: Munitis, jogador nascido na Cantabria – região que abriga o Racing – mas que havia sido vendido ao Real Madrid e emprestado à equipe de Santander. Aliás, o segundo gol do Racing, marcado por Munitis, foi uma pintura. O atacante recebeu a bola na entrada da área e tocou por cima de Casillas.

Após o segundo gol do Racing, esperava-se que a equipe administrasse a partida, mas ocorreu o contrário. O time anfitrião continuou em cima, mesmo sem criar mais oportunidades. Apesar de incrédula, a torcida festejava intensamente a vitória sobre o Golias madrileno.

Sem títulos, mas sempre entre os pioneiros

Fundado em 1913, o Real Racing Club de Santander é um dos times históricos da Espanha. Essa classificação se dá pelo Racing ser uma das dez equipes que disputaram a primeira edição da liga espanhola, na temporada 1928/9, juntamente com Barcelona, Real Madrid, Athletic, Real Sociedad, Arenas, Atlético de Madrid, Espanyol, Europa e Real Unión.

Desde então, o Racing disputou 34 temporadas na primeira divisão, 32 na segunda, uma na segunda divisão B e quatro na terceira. Sua melhor classificação no campeonato espanhol foi obtido na temporada 1930/1, quando a equipe terminou o torneio na segunda posição, igualada em pontos com o campeão, o Athletic, e a terceira colocada, a Real Sociedad.

O vice-campeonato permitiu aos racinguistas disputar um torneio europeu organizado em Paris, na temporada 1931/2, uma prévia da Copa da Europa – o Athletic, campeão espanhol daquela temporada, estava classificado para o torneio, mas acabou por desistir da competição.

O torneio de Paris foi disputado em partidas eliminatórias. Na primeira rodada, o Racing foi sorteado para jogar com o Wolverhampton, representante da Inglaterra e um dos melhores times da época. Contrariando todos os prognósticos, a equipe de Santander venceu por 3 a 1. Dias depois, o Racing acabou sendo eliminado da competição com a derrota por 5 a 1 que sofreu do Slavia Praga, da antida Tchecoslováquia.

Região pequena, jogadores grandes

O Racing representa a região da Cantabria, localizada no norte da Espanha, entre Astúrias e o País Basco. Esta região tem pelo menos 500 mil habitantes e sua capital é Santander. Vive do turismo, da agricultura e da pesca.

Apesar de pequena, a região da Cantabria revelou grandes jogadores para a seleção espanhola. Dentre eles destacam-se 'Paco' Gento, Ivan Helguera, Ivan de la Peña e Pedro Munitis.

'Paco' Gento: do Racing para o mundo

As habilidades atléticas do espanhol Francisco Gento López, ou 'Paco' Gento, já impressionavam desde criança. Seu passatempo preferido era correr, mas correr rápido e muito. Até ganhou algumas medalhas em competições de atletismo.

Mas o pequeno Gento não estava interessado apenas em correr. Queria correr e lançar, driblar e marcar gols. Então passou a utilizar sua velocidade no futebol, esporte que realmente lhe interessava. Infernal pela esquerda, suas arrancadas quase sempre terminavam em grandes jogadas e assistências perfeitas para seus companheiros de ataque.

Depois de passar por pequenas equipes da região norte da Espanha, como Nueva Montaña, Astillero e Rayo Cantabria, chegou ao Racing Santander em 1951 e ficou até 1953. A equipe vinha da segunda divisão e se reforçou para aquela temporada. De forma meteórica, Gento apareceu na equipe principal e foi o grande destaque do time no campeonato.

Se as grandes jogadas de Gento impressionavam a torcida do Santander também impressionavam e assustavam as agremiações adversárias. Na temporada de 1952/3, numa partida do Racing contra o Real Madrid, infernizou a vida do lateral merengue. Abismado com a atuação de seu lateral e encantado com a genialidade de Gento, o lendário presidente Santiago Bernabéu o levou para sua equipe. No Real, devido à velocidade e procedência, foi batizado de 'La Galerna del Cantábrico' (vento forte que vem do Norte) – no auge de sua carreira, chegava a fazer 100 metros em 11 segundos, fato que lhe rendeu também o apelido de 'El Supersónico'.

'Paco' Gento era o que hoje se costuma chamar de 'garçom'. O argentino Alfredo di Stefano, um dos maiores jogadores de todos os tempos, costumava dizer que Gento era seu companheiro ideal no ataque do Real Madrid, devido a sua solidariedade. Na equipe merengue, formou o que é considerado o maior ataque de todos os tempos, juntamente com o húngaro Ferenc Puskas, o francês Raymond Kopa e Di Stefano. Todos eles chegaram e deixaram o Real, enquanto Gento permanecia no clube de Santiago Bernabéu.

Pelo Real Madrid, Gento conquistou os seguintes títulos: seis Copas da Europa, em 15 torneios seguidos que disputou – participou de 88 das 95 partidas do Real Madrid; 12 campeonatos espanhóis; duas Copas da Espanha; duas Copas Latinas e um Mundial Interclubes. Foi também ele quem anotou o gol de número 2 mil do clube madrileno.

Em 1954, com 20 anos, foi convocado pela primeira vez para a seleção espanhola, que defenderia posteriormente em mais 43 partidas, marcando cinco gols. Pela Espanha, jogou as Copas de 62, no Chile, e 66, na Inglaterra. Participou também da conquista da Eurocopa de 1964, embora não tenha jogado na final.

Em 1971, aos 38 anos e ainda no Real Madrid, decidiu encerrar a brilhante carreira após uma derrota na Copa da Europa para o Chelsea. Era o fim de uma das mais vitoriosas histórias do futebol.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]
Botão Voltar ao topo