Quiroga: o goleiro que não deveria ter jogado a Copa de 1978

Ninguém esquece e pouca gente sabe exatamente o que aconteceu em Rosário nas vésperas de Argentina x Peru, pela Copa de 1978. Os anfitriões precisavam ganhar por quatro gols de diferença para irem à final. Os adversários, ao contrário, já estavam eliminados. E defendem até hoje que jogavam pela honra. E só por ela.

O Brasil de Cláudio Coutinho teria feito a final do Mundial com a Holanda se o Peru perdesse por até três gols. Levou seis e voltou para casa debaixo de muita desconfiança. Kempes, Tarantini, Luque e Houseman deitaram e rolaram naquela gelada em uma noite de junho, no Gigante de Arroyito, aquecido por quase 40 mil vozes.

Ramón Quiroga foi o goleiro que sofreu a meia dúzia de gols. Sua atuação deixou cicatrizes. Analistas de futebol – inclusive argentinos – dizem que ele cometeu falhas absurdas. O agora comentarista esportivo rebate e sustenta que suou pelo branco e vermelho do país. No vestiário após a partida, ouvindo a explosão da torcida em êxtase do lado de fora, e enquanto alguns jogadores, abalados com a goleada, choravam, falou: “Caímos de pé”.

Um homem de duas pátrias

Quiroga não tinha estatura de goleiro. Compensava o 1,71m com bom posicionamento e elasticidade. O Brasil acreditou que isso seria suficiente para travar o ataque argentino.

Ele logo percebeu que não tinha a mínima qualidade para jogar na linha. Quando chegou ao Rosario Central, na década de 60, sabia disso. Tanto que jamais pediu para ser testado em outra posição. Ao contrário de muitos colegas, não precisou sair de casa para tentar a sorte no futebol. É natural de Rosário e a casa onde morava era perto do Gigante de Arroyito.

Em 1968, aos 18 anos, ganhou a esperada chance no time principal. Saiu de lá depois de cinco temporadas e um título do nacional. Foi contratado pelo Sporting Cristal, do Peru. Porém, em 1975, o Independiente o convidou para voltar à Argentina. Aceitou. Mas pouco jogou.

O Sporting Cristal não admitia ficar sem suas defesas. E fezs uma proposta. Dessa vez, com bala na agulha. Retornando para lá e nacionalizando-se peruano, seria convocado para a seleção. Simples assim.

Não pensou duas vezes. No começo de 1976, já ostentava duas pátrias no coração e a camisa número 1 da equipe que, dois anos mais tarde, defenderia o país na Copa. Por isso, as maiores sombras dos 6 x 0 recaíram sobre ele.

O adversário querido

O Brasil bateu de frente com a Argentina naquela Copa. Era uma espécie de mata-mata, embora fossem do mesmo grupo. O vencedor dificilmente ficaria de fora da final. E um empate levaria a definição para o saldo de gols.

O jogo terminou 0x0 e a Polônia era o próximo desafio brasileiro. A vitória tornou-se obrigação. Ela veio num 3×1. A notícia correu e rapidamente entrou no caldeirão do Gigante de Arroyito, onde os times de Argentina e Peru duelariam em 30 minutos.

Quiroga estava em casa. Literalmente. Caso engolisse mais de três gols, sabia que teria de dar mil explicações. Bateu no peito e subiu as escadas em direção ao campo.

Teve uma atuação desastrosa. A quantidade de vezes que buscou a bola no fundo das redes mandou a Argentina para a final. E Leão, Rivellino e companhia para a decisão do terceiro lugar.

Depois do vexame, enfim, as vitórias

O episódio deixou feridas profundas. O Brasil nunca engoliu os seis gols. Criticou ferozmente os jogadores, em especial Quiroga, que por bom senso, não deveria ter jogado, dizem alguns.

Quiroga resolveu encarar as críticas de peito aberto. Sempre negou uma suposta mala preta que teria saído diretamente dos gabinetes da Casa Rosada e da Associação do Futebol Argentino (AFA). Para provar que não tinha agido de ma fé, pediu para continuar na seleção.

Foi atendido e prometeu levar o Peru para a Espanha, em 1982. Conseguiu. Só não foi possível evitar uma campanha horrorosa e a eliminação na primeira fase. Menos mal que o momento no Sporting Cristal era bom. Havia vencido duas vezes o campeonato da primeira divisão. E, em 1983, ainda levantou o tri.

A carreira se aproximava do fim e ele queria trabalhar em outros lugares. Foi ao Equador defender o Barcelona Sporting Club e se mandou de volta ao Peru, no fim de 1984, para jogar no Colégio Nacional de Iquitos e no Universitario de Deportes, clube com o qual foi tetracampeão peruano.

A carreira terminou. O mistério não

Parou em 1986. Seis clubes, cinco títulos, duas Copas e 52 jogos pela seleção. Continuou no futebol. Recomeçou como técnico das categorias base do próprio Universitario, antes de assumir a equipe de cima. O sucesso dos tempos de atleta não voltou e foi embora de mãos abanando.

Tentou o Cienciano. Comandou o time em alguns jogos, mas notou que treinar jogadores não é sua praia. Atualmente, é comentarista de uma TV do Peru. E segue dizendo que não aconteceu nada de anormal nos vestiários de Arroyito. Será?

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Equipe Trivela

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