Pichichi: Artilheiro é apelido!
1) O que é, o que é que Vavá tem e Romário também? 2) O que Christian Vieri e Roy Makaay têm em comum? 3) Qual foi a coleção feita tanto por Di Stéfano quanto por Puskas no Real Madrid? 4) Diego Tristán me ganhou, Diego Forlán me conquistou; quem sou? 5) Somando-se os de Bebeto aos de Eto’o, chega-se aos de Ronaldo; matou? Quem respondeu 1)“Origens vascaínas”, 2) “Frustração por não ter ido à última Copa”, 3) “Títulos da Copa dos Campeões”, 4) “Bela muchacha com queda por Diegos” e 5) “Quilos” errou tudo. Na verdade, todas essas charadas compartilham a mesma resposta: o cobiçado Troféu Pichichi, dado ao artilheiro de cada temporada da liga espanhola. A honra de emprestar o próprio apelido ao famoso prêmio cabe a Rafael Moreno Aranzadi, lenda do futebol basco, ídolo remoto do Athletic Bilbao.
O gol não é um detalhe. A história de Pichichi deixa isso bem claro. Filho do advogado Joaquín Moreno Goñi, sobrinho do antropólogo Telesforo Aranzadi Unamuno e sobrinho-neto do escritor e filósofo Miguel de Unamuno, ele parecia hereditariamente talhado para as ciências humanas. No entanto, as letras não foram capazes de fisgá-lo (na Universidad de Deusto, onde chegou a cursar Direito, seu principal compromisso era com a bola), tampouco os números (“gol” não é justamente o inverso de “log”?). Quem o seduziu mesmo foi o futebol. Através dele, Pichichi adquiriu uma espécie de perpetuidade. Afinal, se, como diz um provérbio basco, só existe o que tem nome, Pichichi existirá enquanto houver goleadores nos campos da Espanha.
Busto na “Catedral”
Meia-direita numa época em que meias-direitas eram atacantes, Pichichi foi o primeiro a sacudir as redes do estádio San Mamés, a “Catedral”, inaugurado em 21 de agosto de 1913. Dois anos antes, fizera sua estréia no time principal do Athletic, anotando um gol na vitória por 2 a 1 sobre a Academia de Artilleria. Debutou em partidas internacionais também em 1911, marcando duas vezes contra o Toulouse. A velocidade, o disparo preciso, a força e a esperteza de Pichichi ajudaram o único clube de sua carreira a triunfar em torneios regionais – a liga espanhola só seria formada no fim dos anos 20 – e na Copa do Rei. Desta tradicional competição, foi campeão em quatro ocasiões. Após a última, em 1921, decidiu aposentar-se, embora ainda contasse 29 anos. Nos meses seguintes, dedicou-se ao ofício de árbitro, até que, inesperadamente, alcançou a linha de fundo de sua vida, em março de 1922. Penalidade máxima para o futebol, para sempre desfalcado.
Desde 1926, há um busto de Pichichi em San Mamés. Quando uma equipe visita pela primeira vez a casa do Athletic Bilbao, manda o costume que ela renda uma homenagem ao mito, depositando flores ao lado da escultura. Outra imagem de Pichichi ligada ao Athletic é um quadro de Aurelio Arteta que mostra o artilheiro, impecavelmente trajado com o uniforme bilbaíno, e sua mulher, Avelina Rodríguez, apoiados numa cerca, em meio a uma paisagem campestre. Com Avelina, Pichichi teve uma filha, chamada Isabel Moreno Rodríguez, que se tornou professora e, dizem, jogava bola quase tão bem quanto o pai.
“Alirón, Alirón, el Athletic campeón”
As ostras em mal estado que, ingeridas por Pichichi, o intoxicaram, provocaram a morte não apenas do talentoso atleta, mas também de um homem muito querido em Bilbao. Nascido na rua Santa Maria n°10 (o povo basco nutre sentimentos profundos em relação ao lar), Pichichi cresceu numa época em que a ausência de tráfego propiciava a crianças e jovens muito espaço para a prática do futebol em vias públicas. Fosse na rua Padre Lojendio, fosse no terreno onde hoje se ergue o Museu Guggenheim Bilbao, lá estava Pichichi, formando-se na ciência dos chutes, diplomando-se em agilidade e picardia. Supõe-se que o apelido tenha surgido numa das vezes em que, ainda muito pequenino, se meteu a jogar com os garotos maiores.
Pichichi ingressou no Athletic em 1910 e lá viveu ótimos momentos. Amigável, divertido e farrista, costumava comemorar as vitórias de sua equipe em bares e restaurantes, muitas vezes pagando a conta dos companheiros. Ninguém antes de Pichichi havia recebido salários para jogar pelo Athletic, e ele não era nem um pouco sovina. Numa dessas noites de celebração dos êxitos “rojiblancos”, Pichichi e seus amigos assistiram a uma apresentação da cantora Teresita Zazá; a certa altura, ela alterou a letra de uma canção chamada “Alirón”, trocando o “pón, pón, pón” por “Athletic campeón”. Aqueles versos de improviso nunca mais sairiam do repertório da torcida. Até hoje, o “Alirón” é orgulhosamente entoado em San Mamés, e foi até adaptado pelos torcedores de outros times espanhóis.
Pioneiro na “Fúria”
O advento da seleção espanhola de futebol remonta às Olimpíadas de 1920, disputadas em Antuérpia. Pichichi foi titular desse time que arrebatou a medalha de prata e recebeu uma alcunha que ficaria para a posteridade: “Furia Roja”. O único gol de Pichichi envergando a camisa da Espanha aconteceu no derradeiro jogo da campanha olímpica, contra a Holanda.
Lenço na cabeça, lucidez nos pés: assim era Pichichi, o homem que virou troféu. Quem o viu jogar garante que foi um autêntico craque. José María Mateos, ex-treinador da “Fúria” e antigo cronista da Gaceta del Norte, assevera: “Pichichi es el jugador maravilla de qualquier tiempo”. Lamentavelmente, o morte o levou bem cedo. Mas, como diz um confortante provérbio basco, “Morre bem quem viveu bem”.



