Pfaff: Carismático guardião
Quando Jean-Marie Pfaff fez seu primeiro jogo pelo Bayern de Munique, contra o Werder Bremen, em agosto de 1982, já era tido como um goleiro diferente, especial. Aliás, não só o seu estilo, chamativo e acrobático, tinha algo de extravagante: também a sua vida foi – e continua sendo – um tanto original. Afinal, não é todo jogador que nasce numa família de artistas circenses; tampouco é comum um atleta se tornar astro de reality show após abandonar os gramados. Na estréia de Pfaff na Bundesliga, ocorreu, para variar, um lance anormal. Uma jogada que, de tão canhestra, permanece na memória de torcedores e jornalistas alemães.
Tudo começou nas imediações da grande área, com um arremesso lateral que tomou a direção do gol. A redonda sobrevoou algumas cabeças, tocou as mãos de Pfaff, ganhou um efeito distorcido e encontrou, enfim, a rede bávara. O estranhíssimo gol podia ser o indício de que Pfaff fracassaria num clube grande como o Bayern, mas o desembaraço e a verve mostrados após o jogo se encarregaram de desarmar as previsões pessimistas: “O gol foi positivo para mim. Eu fiquei imediatamente famoso em toda parte, e na televisão o lance foi repetido dez vezes!”. Sem dúvida, uma declaração fora dos padrões, que só mesmo Pfaff poderia dar. Nos anos que se seguiram, “El Sympatico” foi tricampeão germânico (85/86/87) e vice da Copa dos Campeões (87). Na última aparição com a camisa do Bayern, em 1988, acenou para os adeptos segurando um buquê de flores.
O goleiro amarelo da equipe vermelha
Antes de ir para Alemanha, Pfaff só havia jogado no Beveren – clube no qual ingressou com apenas seis anos – e nas ruas de sua infância pobre. Entre as árvores de velhas praças, verdadeiras traves improvisadas, começava a se formar uma lenda da baliza belga, fundador de uma linhagem que, anos depois, revelaria Michel Preud’Homme. Embora tenha debutado na seleção belga em 1976 (defendendo um pênalti em derrota frente à Holanda) e tenha conduzido, em 1978, o Beveren ao seu primeiro título nacional, os grandes clubes do país resistiam a apostar no seu jeito expansivo e espetaculoso. Por isso, Pfaff considerou a transferência para o gigante Bayern uma resposta aos managers do futebol belga.
Certa rejeição atacava-o, ainda, na seleção. Às vésperas da Eurocopa de 1980, seu posto de titular esteve sob ameaça, em virtude da pressão exercida por quem preferia um Keeper mais sóbrio. Prevaleceram, entretanto, os caracóis dos cabelos de Pfaff, debaixo dos quais havia uma história para contar: a da mais vitoriosa fase dos Diabos Vermelhos, que teve início exatamente em 1980, com um inesperado vice-campeonato europeu. As classificações para a Copa de 1982 e para a Eurocopa de 1984 confirmariam o progresso do selecionado belga, cujo apogeu se daria em 1986. Ceulemans, Gerets e outros contribuíram para a obtenção do quarto lugar no Mundial do México, mas o principal expoente dessa geração estava entre os postes, trajando um uniforme amarelo berrante que combinava perfeitamente com os cachos dourados à mode de Gene Wilder, aquele hilariante protagonista de “A Dama de Vermelho” (1984).
A família Pfaff na TV
Jean-Marie era um dos doze irmãos da família Pfaff, que perderam o pai precocemente. A mãe sempre ensinou Jean-Marie a sorrir, lição que ele aprendeu muito bem. As responsabilidades chegaram cedo, mas o rapaz nunca deixou de exibir um franco e radiante sorriso, nem quando acordava às 3 horas para pegar um ônibus rumo à firma em que trabalhava. Depois do batente, ia treinar usando as luvas compradas com o exíguo salário. O cotidiano agitado e cheio de aventuras não foi um exclusividade de sua adolescência. Recentemente, Pfaff resolveu participar do Rally Paris-Dakar, guiando um caminhão. Noutra ocasião, pedalou 120 km com o intuito de divulgar campanhas de caridade.
Atualmente, além de ser garoto-propaganda de diversos produtos, que vão de cartões de crédito a barras de chocolate, Pfaff é personagem do reality show “Os Pfaffs” (exibido no canal VTM), que tem como cenário sua casa em Brasschat e como coadjuvantes sua esposa Carmen, suas filhas Debby, Kelly e Lindsey, netos, genros, o sogro e um cão chamado Angie. O programa, cujo feitio se assemelha ao do americano “Os Osbournes”, já está em sua quarta temporada e atinge níveis estratosféricos de audiência na TV belga. Apesar do sucesso nessa área e em outras atividades – palestras motivacionais, por exemplo –, Pfaff não se desvinculou por completo do futebol. Desde julho de 2005, faz parte do corpo diretivo de um clube de Berlim, o BFC. Uma de suas aspirações secretas, ou nem tão secretas assim, consiste em, um dia, treinar um time da Bundesliga. Até hoje, Pfaff exerceu a função de técnico somente no pequeno KV Ostend, da Bélgica, entre 1998 e 1999.
Muito mais que uma quinzena
1,81m e mãos pequenas. Tais características não parecem se adequar ao biótipo do goleiro “world class”. Pfaff, contudo, era um colosso na pequena área. O quê de brincalhão não subtraía nada de sua incrível concentração, sempre aliada aos reflexos apuradíssimos e à estupenda impulsão. Talvez seu único defeito fosse o quase obsessivo “desejo de agarrar a bola em qualquer situação”, como ele próprio define. Aquele gol de lateral do Werder Bremen não teria valido caso ele não tivesse encostado na pelota. Na qualificação para a Eurocopa de 1988, Pfaff cometeu, no último minuto de um jogo contra a Irlanda, um pênalti desnecessário justamente por ter corrido em direção à bola como um avestruz atabalhoado e faminto. Nada que chegue a macular o imenso talento de “El Sympatico”, segundo o IFFHS o melhor goleiro do mundo em 1987.
No ano anterior, ele fora eleito o melhor goleiro da Copa. Sua atuação contra a União Soviética incluiu defesas fantásticas e alguma espécie de pacto sinistro com as traves, que o ajudaram a derrotar o time dos ágeis Zavarov e Belanov. Nas quartas-de-final, Pfaff parou a Espanha, que goleara a “Dinamáquina”, e brilhou na disputa de pênaltis. Antes da semifinal diante da Argentina, escapou, como sempre, da mesmice peculiar ao discurso dos futebolistas, soltando uma frase bombástica: “Maradona não é nada de especial”. O embate provou o contrário, mas o que importa? A frase ficou nos anais das Copas. Nos registros de ouro do futebol também ficaram seus vôos de pássaro, a abnegação com que se entregava ao ofício (“Eu costumava treinar como um maníaco”), as divertidas tentativas de dominar o idioma alemão nos primeiros dias de Bundesliga e a atuação contra o Real Madrid em 1987 – a certa altura desse jogo, foi alvo de diversos objetos, inclusive uma faca, que não chegou a atingi-lo.
Ainda bem que uma das famosas sentenças de Pfaff, “As pessoas só se lembram por 15 dias”, não se aplica a todos, pois, assim, podemos ficar aqui, rememorando as passagens de sua bela trajetória no futebol.