Pepi Bican: maior que Pelé?

Ele foi um artilheiro, um verdadeiro especialista na arte de colocar a bola na rede. Seu repertório era variado, incluindo gols após arranques e dribles. Sua cabeçada também era mortal. Isso é o que juram muitos austríacos e tchecos, pois para eles o maior artilheiro de todos os tempos não foi Pelé, e sim Josef “Pepi” Bican, jogador que defendeu Rapid Vienna da Áustria, Slavia Praga e Hradec Králové, ambos da Tchecoslováquia, além das seleções da Áustria e da Tchecoslováquia. Especula-se que Bican tenha marcado mais de cinco mil gols (!).

Mas como atuou nas décadas de 1930/40/50, não há como não registros que comprove a façanha. Oficialmente, Bican ostenta números bem mais modestos. Foram 643 gols marcados em competições nacionais, copas e campeonatos nacionais, da Áustria e da Tchecoslováquia, além de 29 tentos por seleções nacionais.

Futebol em família

Josef Bican nasceu em 1913, em Viena, capital do então Império Austro-Húngaro. Filho de tchecos, o que lhe garantiria dupla nacionalidade anos depois e o direito de defender a Tchecoslováquia, Bican começou a jogar futebol com 12 anos nas divisões de base do Hertha Vienna: clube que seu pai, František Bican, havia defendido por anos.

Jogador bastante conhecido em Viena, František Bican chegou a recusar um convite para defender o Rapid Vienna, principal clube da capital. O patriarca da família Bican faleceu prematuramente aos 30 anos, após sofrer problemas no rim. O mal teria sido causado por um chute acidental sofrido durante uma partida do Hertha contra o próprio Rapid.

As dificuldades provocadas pela Primeira Guerra Mundial e pela morte do pai fizeram com que a família passasse por problemas financeiros. Nessa época, a mãe de Bican, Ludmila, trabalhava como cozinheira em um restaurante. Enquanto isso, o jovem “Pepi”, uma espécie de simplificação do seu primeiro nome Josef, passava o dia inteiro jogando futebol, uma história que se assemelha a de muitos garotos que mais tarde se tornam jogadores profissionais. Sempre descalço, já que a pobreza impedia que Bican conseguisse comprar calçados.

Após defender o Hertha por seis anos, Bican assinou contrato com o Rapid Vienna. Para o jogador foi um grande negócio. No clube, ele recebia 600 schillings por mês. Segundo o próprio Bican, um bom profissional na época ganhava cerca de 20 ou 25 schillings por semana. A pobreza enfrentada durante boa parte da juventude começava a fazer parte do passado. Pepi chegou ao Rapid em 1931, vencendo o campeonato austríaco de 1935.

Bican também defendeu a Seleção Austríaca. A estréia dele ocorreu em 1933, em um empate de 2 a 2 com a Escócia. O jogador integrou o “Wunderteam”, forma como a Seleção da Áustria ficou conhecida na década de 1930. Logo, o time adquiriu fama e passou a ser reconhecido como um dos mais fortes da Europa. Na Copa de 1934, a Áustria chegou como favorita a competição, mas acabou eliminada nas semifinais pela anfitriã Itália. Bican marcou um gol na competição, na estréia contra a França: vitória da Áustria por 3 a 2.

Em 1937, o jogador se transferiu para o Slavia Praga. Na Tchecoslováquia, ele passaria por duas situações distintas: devido aos seus gols seria alçado definitivamente ao caráter de mito, um dos maiores jogadores do futebol tchecoslovaco; mas também sofreria a perseguição do regime comunista, instalado em 1948, e que fez de tudo para apagar seus feitos.

Céu, inferno e céu

Logo no primeiro ano em Praga, Bican conquistou o campeonato tchecoslovaco. Ao longo de 16 anos com a camisa do clube, o jogador foi campeão nacional seis vezes, marcando 328 gols. Foi ainda artilheiro do campeonato nacional em 12 oportunidades e o maior goleador da Europa cinco vezes seguidas, de 1939 a 1945. Na temporada 1939/40, atingiu a impressionante média de 2,5 gols por partida. De quebra, um ano após sua chegada ao Slavia, Pepi conquistou o título da Copa Mitropa, ou Copa da Europa Central, hoje em dia considerada por muitos a precursora da Copa dos Campeões da Europa e conseqüentemente da Liga dos Campeões.

Apesar de todo o sucesso obtido dentro de campo, os problemas extracampo começaram. Já de posse da nacionalidade tcheca, Bican pretendia disputar a Copa de 1938, mas devido a um erro de documentação o jogador foi impedido de participar da competição.

Um ano mais tarde, a Alemanha de Hitler invadiu o Tchecoslováquia. Bican foi convidado a se naturalizar para defender a Seleção Alemã, mas recusou o convite. “Quando entrei na sala [para responder se aceitava o pedido] os generais estavam sentados e aplaudindo. Quando saí da sala, saí como um vira-lata”, afirmou Bican, em entrevista que pode ser vista no documentário A história do futebol: um jogo mágico.
Durante os anos de guerra, o jogador continuou defendendo o Slavia.

Na mesma época, também atuou pela seleção do protetorado de Boemia & Moravia, território criado com a invasão da alemã. Os gols iam se acumulando e o interesse dos outros clubes também aumentava. Depois da Segunda Guerra, a Juventus da Itália foi quem mais demonstrou interesse pelo atacante. Mas temendo a implantação de um regime socialista na Itália, Bican recusou o convite.

No entanto, o jogador não conseguiu escapar. Em 1948, Praga foi dominada pelo regime socialista e o jogador voltou a ter problemas. Três anos depois, Pepi se transferiu para o Hradec Králové, também da Tchecoslováquia. Mas a passagem pelo clube foi curta, durando apenas dois anos. Mais uma vez a perseguição do Partido Comunista fez com que o jogador abandonasse a cidade, retornando a Praga. Em 1955, Bican encerrou a carreira pelo Slavia Praga aos 42 anos de idade.

Depois disso, Bican trabalhou como treinador. Sua passagem mais destacada foi no Tongeren da Bélgica, onde conseguiu levar a equipe da quarta a segunda divisão do campeonato nacional. Durante o período de domínio comunista, que foi até 1989, Bican teve seu legado esportivo praticamente apagado e somente agora, aos poucos, Pepi volta a surgir como um grande atleta, um dos maiores da história da Áustria e, principalmente, da Tchecoslováquia. Mesmo assim parece impossível recuperar completamente seus feitos. Nem ele próprio parecia acreditar na tal história dos 5 mil gols. Certa vez, perguntado sobre a quantidade de gols marcados em sua carreira, Bican brincou: “Quem teria acreditado em mim se eu dissesse que marquei cinco vezes mais gols que Pelé?”.

Josef “Pepi” Bican faleceu em 12 de dezembro de 2001, aos 88 anos, devido a problemas no coração.

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Equipe Trivela

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