Paulista: A locomotiva de Jundiaí

Início do século XX. Naquela época, o trem era o meio de transporte mais usado no Brasil. As companhias ferroviárias empregavam muitos trabalhadores, que, em suas horas de lazer, se reuniam para jogar futebol. Os jogos não se resumiam a peladas internas: os ferroviários marcavam partidas contra outras equipes também. Foram estradas sinuosas as percorridas pelo Paulista de Jundiaí até a final do campeonato paulista de 2004.

Primeira estação: Estádio da Vila Leme

Em 1909, funcionários da Companhia Paulista de Estradas de Ferro marcaram uma reunião com adeptos, simpatizantes e jogadores do finado Jundiahy Foot Ball Club. O local: o pátio da companhia, ao lado da locomotiva nº 34. Ali surgia o Paulista Futebol Clube.

Como não existia uma liga oficial de futebol em Jundiaí, os ferroviários jogavam entre si e ocasionalmente faziam amistosos contra outras equipes, num campo que nem tinha divisão para os torcedores. Em 1913, o time, ainda sem campo próprio, adotou outro lugar pra jogar: o campo da Vila Leme. Os funcionários-jogadores gostaram do lugar, e o clube decidiu então levantar fundos para comprar o terreno. Em 1916, as obras de construção do estádio começaram e as atividades do time foram suspensas.

O terreno foi fechado, o campo foi finalmente separado dos torcedores – que também ganharam arquibancadas – e finalmente em 1918 o Paulista inaugurou o estádio, num amistoso contra o Corinthians Jundiaiense, dando início à preparação para ingressar no campeonato amador do estado de São Paulo.

Segunda parada: primeira divisão

Já em 1919, o Paulista disputava o campeonato do interior e vencia a primeira fase da competição, garantindo vaga na decisão contra o campeão da capital, o Clube Athlético Paulistano. O time da capital venceu por 5 a 4, num lance discutido até hoje, em que Friedenreich fez o gol da vitória com a mão. O Estado de S. Paulo concedeu o título moral para o time do interior, estampando a manchete: ´´São Paulo fica com a taça, mas a competência vai para Jundiaí´´. Os ferroviários construíram a estrada para a vitória e repetiram o caminho com o bicampeonato do interior em 1921 e 1922.

O clube crescia, os associados não tinha muito com o que se divertir, a torcida não cabia mais e os jogadores sentiam-se desconfortáveis. A solução encontrada pelos ferroviários foi construir um novo estádio, que ofereceria mais lazer aos associados e mais conforto para atletas e torcida. A pedra fundamental foi lançada em 1944. Mas o trem descarrilou.

A Segunda Guerra Mundial teve como conseqüência uma pesada retração econômica. O conflito mundial afetou os ferroviários de Jundiaí, que viram o sonho de um novo estádio de futebol grande e confortável sair dos trilhos por falta de recursos. O clube passou então a sofrer com o que talvez tenha sido a pior fase de sua história.

Com a crise, a estrada para a Primeirona demorou a ser construída, e por quase 20 anos o Paulista não conseguiu o acesso. Finalmente, em 1968, o clube dos ferroviários conseguiu o acesso para a elite com um de seus melhores times de todos os tempos: Sidney; Miranda, Jurandyr, Valdir e Foguinho; Ado, Ademir e Jairzinho; Cardoso, Mazzola e Zé Luiz. No banco havia Nilo Macedo, Raimundinho, Mineirinho e Amadeu.

Só que o clube não cuidou muito bem da ferrovia que o levava à primeira divisão. Dez anos depois do acesso, a estrada enferrujou, e o clube caiu para a divisão intermediária. A partir daí, o trem de Jundiaí passou a fazer constantes viagens entre as duas divisões do campeonato paulista de futebol. Em 1984, voltou para a Primeirona, logo depois, em 1986, fez o caminho de volta para a Segunda. Alguns anos depois, o clube regrediu e foi parar na série A-3 do Paulistão.

Financiamento para antigas e novas estações

Cansado de viajar entre as duas divisões, o Paulista decidiu procurar parcerias para poder voltar à primeira divisão paulista. A primeira empresa que topou financiar essa viagem do clube foi a Magnata. Só que os resultados não apareceram, e a parceria acabou.

Lousano foi a segunda empresa a fornecer dinheiro para a viagem. No primeiro ano, o clube voltou para a série A-2 graças à parceria. Jogadores consagrados toparam embarcar no trem, como Toninho Cerezo e Casagrande. Só que a Lousano viu que os trens já estavam enferrujados e decidiu investir em novas locomotivas – a formação de novos jogadores.

O resultado apareceu logo. Em 1997, o time de juniores do Paulista, chamado de Galinho pelos torcedores, conseguiu um dos títulos mais importantes do clube. Após empate emocionante com o Corinthians no tempo normal, a nova locomotiva fez 5 a 3 nos pênaltis e levou a taça da Copa São Paulo de juniores para Jundiaí.

A parceria com a Lousano acabou, e em 1998 o trem passou a se chamar Etti Jundiaí, para insatisfação dos torcedores. Insatisfação essa que não durou muito tempo: a parceria com a Parmalat resultou no título do Paulistão A-2 e da Série C do Brasileiro. O clube de Jundiaí conseguia percorrer novamente o caminho para a elite paulista e ainda construía uma nova estação na Série B nacional.

De repente, pareceu que o trem ia sair dos trilhos novamente. A Parmalat retirou seus investimentos do futebol, o time passou a chamar-se Jundiaí Futebol Clube e até plebiscito aconteceu. A torcida votou pela volta do nome Paulista. De volta à denominação original, mas com um trem novinho, o clube jundiaiense conseguiu se segurar nos trilhos e percorrer novos caminhos.

O Paulista começou este ano objetivando uma boa posição no campeonato paulista da Série A-1. A classificação para as quartas-de-final não foi surpresa nenhuma, afinal, o time se esforçou para construir essa estrada. Só que ninguém esperava encontrar um túnel no meio da ferrovia que conduziu o time de Jundiaí para a finalíssima. Após empate com o Palmeiras na primeira partida, o time jundiaiense se superou e venceu o segundo jogo, nos pênaltis.

Resta apenas esperar para saber se, após quase 100 anos de existência, o Paulista conseguirá alcançar a última estação da ferrovia: a vitória em um campeonato profissional de elite.

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