Para o Flamengo, basta o Rio
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O Rio é a mais bela de todas as cidades. Não é uma afirmação subjetiva, aquela beleza pode ser quantificada, é possível provar que a humanidade desde o seu princípio não conseguiu um lugar para se agrupar tão bonito como o Rio. Onde mais há mar, montanha e lagoa, uma tão perto da outra que talvez caibam no mesmo cartão postal? O Rio é mais bonito que Aguaí, sou obrigado a reconhecer.
Não é só beleza. Tem charme, encanto, reconhecimento internacional. É a cidade brasileira mais amada no mundo, com sua garota de Ipanema. Foi capital e isso foi fundamental para que se transformasse em centro irrradiador de cultura. O Rio foi formador de opinião e seus clubes de futebol devem ser gratos a essa característica, que os transformou em motivos de amor e de culto em todo o país. Clubes com nomes de bairro como Flamengo e Botafogo são adorados em todas as regiões. O Vasco deixou a colônia portuguesa, o Fluminense deixou de ser fluminense. Tudo graças ao Rio. É possível imaginar um time chamado Penha tendo torcedores no Acre?.
Essa universalização do Rio faz com que muitos cariocas criem uma auto-suficiência que, apesar de justificada, é limitadora. Por que vou saber do que se passa no Uruguai, se eu tenho o Rio? Por que não, pergunta o interiorano aqui? Adorei conhecer o Rio, mas também fui feliz em cobrir a Copa América de 1993 em Cuenca.
Citei o Uruguai para contar uma pequena história. Em 1993, fui pela primeira vez a Montevidéu. Fui cobrir um Brasil x Uruguai que terminou 1 a 1. O Brasil vinha mal, havia perdido para a Bolívia nas Eliminatórias e esse empate serviu para aprumar o time. O gol foi de Raí e Dunga começou a se firmar novamente na seleção.
Eu estava totalmente maravilhado com a possibilidade de conhecer o Estádio Centenário. Para quem gosta de futebol, ele é um templo. Ali se jogou a primeira Copa em 1930. Monti, Castro, Nasazzi, Varallo decidiram o título em uma das tantas batalhas do Rio da Prata. E lá estava eu, um caipira de Aguaí, olhando para as arquibancadas, pensando nos meusamigos, na minha família, quando um câmera da extinta TV Manchete falou assim; “Que merrrda de campo…. Lá em Mesquita, tem uns três ou quatro melhores….”
Não tem, é lógico. Ele estava apenas mostrando orgulho de sua cidade. Estava dizendo que ela lhe bastava. Para que mais?
O Flamengo, o mais brasileiro de todos os clubes, poderia ser uma força mundial, mas ele se contenta em ser o melhor do Rio. Em tentar ser o melhor do Rio. Para que mais? Para que Libertadores? Para que Mundial? Já ganhamos um com o Zico.
Para comandar seu time, Patrícia Amorim contratou Joel Santana, com um currículo cheio de campeonatos cariocas, taças rios e taças guanabaras. Para que mais? Os cariocas gostam tanto do Rio que vêem um charme inexistente em seu estadual. Dão a ele um valor que ninguém referenda.
Alguém acredita que o Joel soubesse alguma coisa sobre Olímpia, Lanus e Emelec? A escalação, o sistema de jogo, o passado de cada adversário? Além de Joel, o Flamengo trouxe o carioquíssimo e caríssimo Ronaldinho Gaúcho. R10, Ronight, novo candidato a Rei do Rio. De ótimo gosto ao abraçar a Portela, de pouca vontade profissional, Ronaldinho vive de lampejos do craque que já foi. Incapaz de fazer a diferença em pelo menos um dos três jogos decisivos: empate com Olímpia, derrota para Olímpia e derrota para o Emelec. Talvez Ronaldinho tenha sido o melhor do Flamengo, mas isso não basta. Ele foi o melhor do mundo. Tem obrigação de conduzir o time, com bola ou com suor à uma vitória contra o Emelec.
Com zagueiros toscos como Wellinton e Gonzalez, sem contar David Braz, o Flamengo leva nove gols em três jogos. E está quase fora da Libertadores.
Mais uma vez o clube parece sabotado por seus dirigentes que insistem em lhe tolher as asas. O time nasceu para ser grande, para brilhar mundialmente. Patrícia acha que o Rio está bom demais. Despede Zico e pratica uma dancinha medíocre na chegada de Love. São apenas exemplos de comportamento. Ótimo para times pequenos.
O Flamengo não deveria aceitar esse destino de ser apenas um time carioca. Talvez o melhor, mas apenas o melhor do Rio. É pouquíssimo.