Pablo Forlán: Tricolor e pai do Diego
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A Copa que fez a Espanha ingressar no rol dos campeões mundiais serviu também para renovar algumas esperanças: a de que um país em desenvolvimento pode sediar uma Copa, que é possível vencer e jogar bonito, que o futebol uruguaio pode sonhar com dias melhores, dentre outras. No Brasil, a torcida do São Paulo é que tem algo a almejar. Diego Forlán, o craque do Mundial, disse que seria um sonho jogar no Tricolor, para repetir a bela passagem de seu pai, Pablo.
Pablo Forlán, o menino dos cabelos desgrenhados e das costeletas, fez parte de uma grande equipe do Peñarol, que conquistou o mundo. Começou a jogar profissionalmente no aurinegro aos 18 anos. Era ainda volante, um típico camisa 5, forte na marcação e de bom passe. Sua contratação foi avalizada pelo ídolo Schiaffino, autor do primeiro gol uruguaio no Maracanazo. A ida para a lateral direita se deve a outro destaque da celeste, Roque Máspoli, o goleiro do triunfo no Brasil. Por conta da lesão do titular da posição, acabou por improvisar o garoto, que passou a fazer parte de uma equipe de grandes astros, como Spencer, Pedro Rocha e Maidana. Máspoli dirigiu a equipe entre os anos de 64 e 67. Ganharam três Campeonatos Uruguaios, a Libertadores e a Copa Intercontinental, vencendo o Real Madri, em Montevidéu e na casa dos merengues.
Em entrevista recente ao jornal El País, definiu assim o seu jogo: “Eu era um lateral direito de ataque. Subia muito. Era um pouco ao estilo do Daniel Alves. Apoiava muito os atacantes com minhas idas e vindas. Eu me projetava, tratava de chegar ao fundo e cruzar ou centrar na diagonal. Tínhamos bons cabeceadores, que ganhavam as disputas por cima. Assim, com o Peñarol, fomos campeões da América e da Copa Intercontinental.” Dono de bom passe e de um chute muito forte, seus traços mais marcantes foram a disposição, a raça e o comprometimento.
No Peñarol ganhou seus títulos mais importantes, mas não era a referência em um time recheado de craques. Descrevendo os anos de glória daquela equipe, Eduardo Galeano diz: “A bola tinha entrada proibida no arco de Mazurkiewicz, no meio de campo obedecia a Tito Gonçalves e na frente voava nos pés de Spencer e Joya. Às ordens de Pepe Sasía, rompia a rede. Mas ela se deleitava, principalmente, quando era embalada por Pedro Rocha.” Em 1970, já não era mais titular e foi contratado pelo São Paulo. O tricolor, enfim, fazia planos para um grande time. Estava há 13 anos sem ganhar títulos, por conta da construção do Morumbi, parcialmente inaugurado em 1960, mas que só então ficava pronto. Dois dos grandes times que o mundo viu foram o Peñarol e o Santos dessa década. A supremacia em seus países era tanta que os aurinegros ganharam 7 títulos nacionais, feito só comparável aos 8 títulos paulistas e 6 nacionais (5 Taças Brasil e 1 Robertão) do time da Vila Belmiro. Encontraram-se na final da Libertadores de 1962, com vitória do Santos, e na semifinal de 1965, troco do Peñarol.
Os anos 70 começavam com a promessa de novos tempos, e o Peñarol era uma referência. De lá vieram Forlán, no início do ano, e o craque Pedro Rocha, após o título paulista. O treinador era Zezé Moreira, por duas vezes campeão uruguaio com o Nacional, um intruso na fase áurea do Peñarol. Conhecia muito bem aqueles jogadores, que se juntaram a Gérson e Roberto Dias, em um time que, até então, era bem modesto. Forlán, no São Paulo, ganhou três Campeonatos Paulistas e foi finalista da Libertadores de 1974.
A contribuição de Pablo Forlán para o renascimento do São Paulo foi enorme. Não foi ídolo no Morumbi pela técnica, mas talvez por ser a gota de alma e de sangue que o time precisava para voltar a vencer. Forlán era um vencedor, jovem e já com um enorme currículo. Vendia caro as derrotas, não desistia nunca. Protagonizou grandes duelos com os pontas Nei, do Palmeiras, e Edu, do Santos. Mesmo assim, se mandava pro ataque. Sua entrega contagiava os companheiros em campo e a torcida nas arquibancadas. Por vezes entrava duro demais. Era o estilo uruguaio, sempre à flor da pele.
Seu ciclo no São Paulo chegou ao fim em 1976. Luís Augusto Símon, no livro Tricolor Celeste, conta que um dos motivos foi o medo de avião. Passou a evitar viagens longas. Por conta disso, foi perdendo espaço. Neste livro, Forlán conta que seu maior orgulho foi ouvir do presidente Henri Aidar que a história do São Paulo se dividia entre antes e depois de Forlán. Marcou época.
Por aqui, ainda teve uma rápida passagem pelo Cruzeiro, também de Zezé Moreira. Foram poucos jogos, dentre eles o segundo da final da Copa Intercontinental, contra o Bayern, de Beckenbauer e Gerd Müller, em um empate sem gols no Mineirão. Voltou ao Uruguai, passou pelo Nacional e pelo Sud América, encerrando a carreira no Defensor. Pela seleção celeste, foi para a Copa de 1966, em que não jogou, e foi titular em 1974, quando fizeram uma campanha pífia, perdendo para o futebol total da Holanda e para a Suécia, e empatando com a Bulgária.
Como treinador não conseguiu o mesmo destaque. Treinou as categorias de base do São Paulo antes de passar pelo Defensor e pelo Central Español, no Uruguai. Depois, tentou a sorte na Arábia Saudita, treinando o Al-Watani, e teve sua grande chance ao assumir a equipe principal do tricolor, em 1990, o último antes do mestre Telê Santana. Em um campeonato paulista com 24 clubes, o São Paulo conseguiu a proeza de não se classificar entre os 14 primeiros, beneficiando-se de um regulamento que não previa descenso. A “final caipira” entre Bragantino e Novorizontino coroou o trabalho de Vanderlei Luxemburgo, que despontava no cenário nacional, enquanto a carreira do treinador Forlán terminava.
Aos tricolores, a esperança de rever o nome Forlán estampado na camisa tem o brilho do encontro com o passado e a promessa de um grande futuro. No São Paulo, Pablo foi ídolo e divisor de águas. O filho tem mais talento que o pai, de quem herdou a identificação com o clube. Os três, Pablo, Diego e o São Paulo, já ganharam o mundo. Resta saber se terão a chance de, juntos, repetir essa história.