Otamendi: o sucessor de Ayala
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Maradona ainda não divulgou os 23 escolhidos para tentar dar a Copa do Mundo para a Argentina. Há várias dúvidas e outras tantas certezas. Uma delas é Nicolás Hernán Otamendi, que estará no Airbus rumo a África do Sul com a missão de buscar o tri.
Zagueiro de 22 anos do Vélez Sarsfield, Otamendi é da seleção desde maio. Foi convocado para um amistoso contra o Panamá e nunca mais saiu. Na época, Dom Dieguito assistia a seu time despencar nas eliminatórias e a luz de alerta se acendia. Sem contar o descontento com o desempenho dos considerados “medalhões”.
Com o carro andando, o treinador decidiu, então, trocar o pneu. E começou, aos poucos, a chamar jogadores que atuavam na Argentina. Otamendi foi o que mais agradou. Forte, bom marcador e rápido. Não conseguiu parar Kaká e Luís Fabiano naquela noite em Rosário, é verdade. Mas foi de extrema importância na suada e dramática classificação à Copa.
Os grandes da Europa estão atentos. É bem provável que após o Mundial o zagueiro desembarque no frio do hemisfério norte. É o que o Vélez deseja. Queria vendê-lo em janeiro e estava esperando uma proposta irrecusável que não veio. Botou a culpa em Maradona que o escalou fora de posição no amistoso contra a Catalunha, em dezembro.
Pretendido pelos ricos
Real Madrid, Atlético de Madrid, Internazionale, Juventus e Liverpool sondaram o zagueiro. E o seu destino deve mesmo ser um desses clubes. O Real o queria para substituir o lesionado Pepe. Mas é o rival de cidade que está na frente. O Atlético enviou um dirigente a Buenos Aires no fim do ano passado. Conversou com o empresário do jogador e com a cúpula do Vélez. O negócio não saiu porque os argentinos pediram muito. O cartola prometeu voltar em breve.
Enquanto isso, Otamendi é titularíssimo e homem de confiança de Ricardo Gareca, técnico do Vélez. Veste a camisa 19, joga ao lado de Sebá, ex-Corinthians, e é uma das altas apostas para levar a Libertadores para o estádio José Amalfitani, no ano em que o clube completa 100 anos.
Extremante técnico e raçudo, evita cometer faltas. Não impressiona pelo porte físico. Porém, já mostrou que sabe se comportar sob pressão, quando, por exemplo, não pode levar cartão. Tem o futebol semelhante ao do ídolo nacional Roberto Ayala, que fez história na seleção entre 1994 e 2007
Vaidoso dentro e fora de campo
Fã de moda, Otamendi admitiu recentemente que depila as pernas antes das partidas, sempre que possível vai à pedicure e torra boa parte do salário em roupas. Além disso, vai às compras a cada 15 dias e aplica creme facial com frequência.
Mas o cuidado também é visto dentro das quatro linhas. Para entrar bem em 2010, o zagueiro passou por uma cirurgia no joelho a fim de combater dores no menisco. A intervenção não era urgente, mas visando um bom centenário e um título continental, o argentino preferiu fazer a cirurgia.
A Libertadores, aliás, é o sonho do Veléz. Além de ser um grande negócio. Uma boa campanha, acredita o Vélez, vai fazer os pretendentes aumentarem as ofertas. E se não estiver vendido até a Copa, Otamendi chegará lá valendo mais de 20 milhões de dólares.
Por outro lado, um fracasso na América deixaria cicatrizes. O começo, ao menos, foi bom. Otamendi segurou Kleber, do Cruzeiro, na vitória por 2 x 0.
Com a benção de Maradona
A ascensão no clube foi tão rápida como na seleção. Otamendi debutou em 2008, aos 20 anos. Com 21, já via o banco de reservas de longe. Ajustou a defesa do Vélez e o time foi campeão do Clausura 2009 numa campanha que beirou a perfeição. Somente uma derrota. E o zagueiro foi escolhido a revelação do certame.
Enquanto o campeonato nacional se decidia, na sede da Associação de Futebol Argentino (AFA), o presidente Julio Grondona esbravejava. Exigia de Maradona bons resultados e mandava o treinador abrir o olho. A África ainda estava distante.
A AFA convidou o Panamá para um amistoso, em maio. Maradona ouviu o chefe e chamou atletas “locais”. Ganhou por 3 x 1 e se encantou por Otamendi. Saiu do jogo dizendo que o defensor estava alguns graus acima dos demais.
Por isso o levou para o restante das Eliminatórias. Otamendi era um dos zagueiros da desajeitada Argentina que apanhou do Brasil dentro do caldeirão de Rosário. Mas também era um dos que não deixaram o Uruguai pensar na última rodada, em Montevidéu. Aquela atuação, combinada com o 1 x 0 a favor, decretou o passaporte de Otamendi para a Copa, de acordo com interlocutores próximos ao técnico.
O zagueiro de um gol
Com a vaga praticamente garantida no grupo que vai para a África do Sul, a briga do zagueiro agora é para ser titular da seleção. Demichellis e Schiavi estão na frente. Mas Maradona rabisca um sistema defensivo mais jovem, tornando o setor mais poderoso. Assim, Otamendi pode ser um dos 11 que entrarão em campo contra a Nigéria, em 12 de junho, em Johhannesburgo, na estreia da seleção no torneio.
No Vélez, ganhou o apelido de Ayala. Não gosta da comparação e inclusive pediu para ser chamado apenas pelo sobrenome. Mas ficará satisfeito se fizer o que o veterano não conseguiu: erguer o troféu banhado a ouro da Fifa.
Com 1,83 m de altura, sobe pouco para o ataque. Tanto que tem apenas um gol na carreira, marcado no Apertura 2009. Ricardo Gareca gosta disso. Prefere que seu melhor zagueiro fique atrás da linha do meio-campo desarmando os adversários. É a arma secreta do time para evitar os contra-ataques mortais na Libertadores.
E Maradona segue observando. E pensando. Tem um zagueiro-promessa nas mãos. Só não vai embarcá-lo no avião rumo à África se o jogador se lesionar ou se tiver um ataque de loucura.