Omam-Biyik: o Giuseppe Meazza se rende ao beija-flor africano

Em 8 de junho de 1990, Argentina e Camarões fizeram a partida inaugural da Copa do Mundo da Itália no Estádio Giuseppe Meazza, em Milão. Um jogo de favas contadas já que ninguém – nem mesmo o mais entusiasta torcedor do futebol africano, assim como tampouco o maior secador dos hermanos – acreditava que os Leões Indomáveis pudessem aprontar pra cima daqueles que eram os atuais campeões do mundo, ainda mais com Diego Maradona em campo.
O primeiro tempo foi duro, os camaroneses marcavam forte, não davam espaços, e a alvi celeste não se encontrava em campo; o placar de 0 X 0 nos 45 minutos iniciais foi mais que justo diante da produção das duas seleções. Aos 16 minutos da segunda etapa, um lance que poderia ter mudado a história do jogo; El Pajaro Caniggia puxou um contra ataque pela direita e foi parado, por trás, pelo volante André Kana-Biyik, que foi expulso. Com um homem a mais, a vitória argentina era só questão de tempo.
Seis minutos após a expulsão, Néstor Lorenzo deu uma verdadeira botinada no meio campista Cyrille Makanaky,na extrema esquerda do ataque de Camarões. Victor Ndip cobrou a falta à meia altura e Makanaky, o mesmo que havia sofrido a infração, desviou no primeiro pau; a bola faz uma parábola e subiu, subiu tanto que quase roçou as nuvens nos céus de Milão, e se encaminhou para a cabeça de Néstor Sensini. Foi então que apareceu François Omam-Biyik para cravar seu nome na história. O atacante camaronês saltou, literalmente por cima do defensor argentino, parou no ar como um beija-flor africano e deu um leve toque de cabeça. Nery Pumpido, goleiro campeão do Mundo em 1986, se atrapalhou com a bola que mansamente beijou as redes do San Siro, Camarões 1 a 0 Argentina, resultado que perduraria até o apito final.
O gol de François Omam Biyik representou a primeira vitória de uma equipe da África sub saariana na história das Copas. Antes, apenas equipes do norte do continente negro – Tunísia em 78, Argélia em 82 e Marrocos em 86 – haviam triunfado nos mundiais.
A campanha camaronesa na Copa de 90
Após a histórica vitória sobre a Argentina, Camarões encarou a forte Romênia pela segunda rodada da primeira fase. O jogo aconteceu no estádio San Nicola, em Bari, e os leões indomáveis voltaram a vencer, 2 a 1 com dois gols da lenda Roger Milla, garantindo por antecipação a classificação para as oitavas de final. Na última rodada, novamente em Bari, os africanos foram goleados pela União Soviética, 4 a 0, mas mesmo assim terminaram com o primeiro lugar do Grupo B.
Nas oitavas de final, Camarões pegou a Colômbia, terceira colocada do Grupo D. Depois de um jogo equilibrado no tempo regulamentar, os africanos levaram a melhor na prorrogação, 2 a 1. Mais uma vez os gols do time camaronês foram marcados pelo centroavante Roger Milla, o segundo histórico, após roubar a bola do lendário goleiro René Higuita. Pronto, Camarões fazia história sendo o primeiro time africano a alcançar as quartas de final de uma Copa do Mundo. Mas eles queriam mais!
Nas quartas, os Leões Indomáveis se depararam com toda a tradição dos invetores do futebol, a Inglaterra do genioso e genial Paul Gascoigne e do artilheiro Gary Lineker. E foi um jogaço, talvez o melhor daquele mundial. Com uma cabeçada fulminante, David Platt abriu os trabalhos aos 25 minutos do primeiro tempo. Aos 16, já na segunda etapa, Emmanuel Kundé empatou, cobrando o pênalti sofrido por Roger Milla. Quatro minutos depois o centroavante camaronês – destaque da Copa aos 38 anos – voltou a aparecer; fez uma bela jogada pelo meio e deixou Eugène Ekéké na cara do goleiro Peter Shilton, livre pra marcar o gol da virada africana. Aos 38 do segundo tempo Gary Lineker marcou de pênalti e levou o jogo para a prorrogação. No último minuto da primeira etapa do tempo extra, outra penalidade a favor da Inglaterra. Lineker bateu com força, no meio do gol, decretando a vitória inglesa. Acabava ali o sonho camaronês na Copa da Itália.
O beija-flor africano bate asas para o México
Após suas frustrantes passagens pelo Olympique de Marseille e pelo Lens, ambos na França, Omam-Biyik resolve tentar a sorte no futebol mexicano. Atendendo ao convite do técnico Leo Beenhakker, ex treinador da seleção holandesa e do Real Madrid, o atacante camaronês desembarcou na capital mexicana para defender o clube mais popular do país, o América, que vivia uma das piores fases de sua história. Sob o comando do holandês Beenhakker, o América reencontrou seu futebol ofensivo e vistoso, com históricas goleadas como o 8 X 1 contra o Correcaminos de La UAT e o 7 X 3 no forte Morelia. Com Beenhakker, Omam-Biyik se destacou e logo se converteu em um dos grandes ídolos da torcida azulcrema. Mas por divergências com o então presidente do América, Diez Barroso, que queria impedir a escalação do meio campista Joaquín Del Olmo, Beenhakker foi demitido e as águias não voltaram a voar alto. O camaronês defendeu América por três temporadas (94/95, 95/96 e 96/97), fez 75 partidas, anotou 49 gols e não levantou nenhum troféu.
Ainda em 1997, Omam-Biyik transferiu-se para o Atlético Yucatán, da segunda divisão mexicana. O camaronês jogou 21 partidas e anotou 10 gols pelo time de Mérida, que não conseguiu o ascenso.
Depois de passagens sem brilho pelo futebol italiano (Sampdoria) e estadounidense (Telamon FC), Omam-Biyik voltou ao futebol mexicano, desta vez para atuar pelo Puebla, da cidade de mesmo nome. Pelos camoteros, Biyik não obteve o mesmo sucesso que no seu primeiro momento no América. O camaronês entrou em campo apenas 12 vezes e seus cinco gols não foram suficientes pra salvar o Puebla do rebaixamento.
Depois de pendurar as chuteiras
A relação com o México já estava consolidada. Depois de abandonar o futebol profissional, no Cháteauroux, da segunda divisão francesa, Biyik retornou ao solo azteca, onde estabeleceu residência.
Em 2003, já com 37 anos, jogou na principal liga amadora do México, a Adecmac, onde defendeu o Sahara e marcou 10 gols durante a temporada. Em 2007 Omam-Biyik iniciou sua carreira de treinador ao dirigir o Loros de La Universidad de Colima, time da segunda divisão mexicana. Ficou aí durante uma temporada e, sem conseguir o ascenso, foi demitido.
Já em 2010, após o fracasso dos Leões Indomáveis nas eliminatórias africanas, Omam-Biyik retornou a Camarões para ser o assistente técnico do espanhol Javier Clemente na seleção nacional.



