O Sapo de Arubinha

Heleno de Freitas levando a bola dominada no peito da entrada da área até o gol. Zarcy fingindo que morreu em campo. Marcos de Mendonça, o goleiro que só sofria gols quando o atacante errava o chute. O jogador que usava pregos amarrados ao cinto para machucar adversários. Todos esses personagens e momentos aparecem nas crônicas de Mario Filho. Misto de ficção com realidade, são coisas como essas que ensejam nos saudosistas a convicção de que o futebol hoje não é mais o mesmo.

Mas é o futebol que não tem mais grandes personagens? Ou será que o que desapareceu foram os cronistas geniais, capazes de transformar jogos prosaicos em verdadeiras epopéias e atletas medianos em personagens inesquecíveis?

É exatamente isso o que faz Mario Filho em suas crônicas, reunidas por Ruy Castro no livro ´´O Sapo de Arubinha – Os Anos de Sonho do Futebol Brasileiro´´. Com grande liberdade poética, o irmão de Nelson Rodrigues confere magia a momentos e jogadores, de maneira a eternizá-los no imaginário do futebol brasileiro. O que o torna genial do ponto de vista jornalístico é que tal romantização, apesar de parcialmente ficcional, acaba dando ao leitor uma melhor noção do momento do que se o autor tivesse se limitado a apenas narrar os fatos.

As crônicas apresentadas no livro foram originalmente publicadas entre dezembro de 1955 e junho de 1958, a maioria delas na revista Manchete Esportiva. Porém, a maior parte das histórias narradas por Mario se passa em um passado mais distante, entre as décadas de 10 e 50. Mas essas histórias nunca vêm gratuitamente: elas sempre servem para ilustrar ou exemplificar temas da atualidade do autor.

E Mario Filho não se limita a conferir personalidade aos jogadores. Em ´´O Sapo de Arubinha´´, mesmo alguém que nunca esteve no Rio de Janeiro sente e entende o que é o Flamengo, o que é o Fluminense, o que é o Vasco e o que é o Botafogo. Boa parte dos clichês que hoje ouvimos sobre esses times foram invenções (ou melhor, constatações) desse jornalista. Pessoas medíocres usam clichês, mas só gênios têm a habilidade de criá-los.

Claro que alguém mais chato também pode apontar defeitos no livro. Um, sem dúvida, é o foco quase que exclusivo no Rio de Janeiro. Afinal, Mario Filho morava lá, e na primeira metade do século eram escassas as informações sobre o futebol de outras praças. Outro problema é a repetição de alguns trechos em diferentes textos, coisa comum em coletâneas desse tipo. Afinal, as crônicas foram escritas para serem lidas ao longo de quatro anos, período ao longo do qual tais redundâncias passariam desapercebidas.

O fato é que, de uma só vez, Mario Filho dá uma aula de história do futebol no Rio e escreve textos deliciosos, mesmo para quem detesta futebol. Se você é jornalista ou sonha com escrever algo além de memorandos para seu chefe, ´´O Sapo de Arubinha´´ é leitura obrigatória, que mostra como é infantil a obsessão com o ´lead´ que domina o jornalismo atual.

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