O homem que nunca sorri

Em tempos de boa safra de zagueiros no Brasil, Julio se encantou pela função e, ao invés de tentar uma carreira como atacante preferiu mesmo se tornar zagueiro, um dos guardiões do grande portal do futebol, o gol.

O zagueiro tem como função primordial não deixar que ninguém, mas ninguém mesmo, ameace o gol que defende. A hierarquia defensiva, para os românticos, começa com o cabeça de área ou volante, se preferirem. Ele é o responsável pela primeira caça, digo, marcação. Se falhar tem, no mínimo, mais dois guardiões que irão fazer de tudo para não deixar o oponente prosseguir.

Normalmente, as características apreciadas num bom zagueiro são: a boa estatura, a velocidade, o bom cabeceio, a truculência e a cara de mau. Julio preenchia a todos esses requisitos e ainda tinha um trunfo, a ascendência argentina, o que potencializava a truculência e a cara de mau.

Seu primeiro treinador, um pacato, porém, astuto interiorano, costumava dar dicas para seu pupilo, que desde os 14 anos tinha mais barba do que Fidel Castro. Ele não ensinava muita coisa do ofício propriamente dito da função de zagueiro, mas instigava Julio a não fazer a barba.

– Julio! Semana que vem tem jogo. Deixa a barba crescer. Você tem que ficar com cara de mau, você é um gladiador!

E Julio sempre o obedecia, como bom soldado. O que muitos não sabiam é que por trás daquela barba e temperamento monossilábico, havia um grande apreciador de livros. Ele os devorava com paixão e velocidade espantosa e os seus livros preferidos eram Frankenstein e O apanhador no campo de centeio.

Muitos companheiros de time o apelidaram de “o homem que nunca sorri”, pela feição carrancuda do jovem defensor, muito parecido com Rufus, o lenhador. Mas ele não ligava, pelo menos não esboçava nenhuma reação que pudesse despertar a desconfiança do elenco.

Um dia, em um descontraído dois toques, o áspero zagueiro começou a levar muitos dribles, principalmente por debaixo das pernas, a famosa caneta. O autor a façanha, um novo membro da comissão técnica, não sabia o perigo que estava correndo. Muitos dos jogadores chegaram, inclusive, a temer pela vida dele. Mas Julio saiu calado do treinamento e ninguém ousou tirar sarro ou mesmo conversar sobre o episódio.

Em jogo, Julio não tinha melindres; se estava apertado, bola para o mato, se estava livre, bola para o companheiro mais qualificado. Agora, se estava no mano-a-mano com um atacante, coitado. Quantas substituições feitas pelo time adversário por lesão dos atletas. Quantas caneleiras quebradas. Não que Julio fosse maldoso, mas ele não media a força e, tampouco, tinha pena de seus oponentes.

Mas o episódio mais marcante para ele e sua equipe não foi um gol decisivo ou uma tirada espetacular. Aconteceu no frio mês de junho, em uma competição muito importante. Seu time estava perdendo e Julio já tinha se lançado ao ataque. Em um escanteio, o sinistro zagueiro foi à área adversária para cabecear a bola, só que, ao invés disso, ele acabou apertando a genitália do goleiro, que havia feito uma defesa espetacular em um chute seu e desdenhado de sua cara. O arqueiro caiu no chão, urrando de dor, enquanto Julio voltava para seu território.

No meio do caminho, o sádico defensor ouviu seu nome ser gritado do banco de reservas, era seu treinador. Por um instante, Julio pensou que seria reprimido pelo ato, mas o que ele viu foi apenas um olhar de seu técnico, Rossini. Neste exato momento Julio sorriu, discretamente é verdade, pela primeira e última vez que se teve notícia.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo