O Dia em que o Brasil Esteve Aqui

Assim que a CBF marcou um amistoso do Brasil com o Haiti, ficou claro que havia diversos interesses envolvidos. O governo brasileiro ajudaria a promover a liderança de suas tropas na força de paz da ONU no país mais pobre das Américas (em guerra civil desde a queda do presidente Jean Bertrand Aristide). Ricardo Teixeira ajudaria Lula nessa empreitada, ganhando como bônus uma saudável (do ponto de vista da CBF) aproximação com o poder público. E o dirigente ainda levou, de lambuja, o prêmio Fair Play da Fifa no final de 2004 pela “ação humanitária”.

No meio de tudo isso, ninguém perguntou o que os haitianos acharam. Quer dizer, quase ninguém perguntou. Caíto Ortiz e João Dornelas resolveram produzir um documentário com a passagem da Seleção brasileira na terra de Wyclef Jean. Melhor, mostrando o Haiti de verdade – tão miserável que não dá para dizer que o “Haiti é aqui” – e o ponto de vista dos haitianos.

É complicado ver “O Dia em que o Brasil Esteve Aqui” – que estréia neste dia 5 de maio – sem misturar os aspectos políticos, futebolísticos e cinematográficos. Tudo está muito ligado e, ao assistir ao filme, o espectador inevitavelmente se vê nesse dilema. Afinal, a despeito de todos os interesses menos nobres, a ida da Seleção brasileira a Porto Príncipe representou um grande evento para o povo haitiano.

O documentário mostra isso muito bem. Fica claro como a expectativa da chegada do Brasil cresce no Haiti. Como o exército brasileiro aproveita o jogo – realizado em 18 de agosto de 2004 – para ganhar alguns pontos com a população local em uma postura que, em vários momentos, só não soa como imperialista porque falta a bandeira dos Estados Unidos no meio e porque os brasileiros mostram mais simpatia. De resto, é tudo muito parecido.

A espera pelo evento é tão grande que chega a se tornar insustentável. É comovente a dedicação de alguns torcedores haitianos pelo Brasil, inclusive os membros de um fã-clube local dedicado à Seleção. Tanto que a chegada dos brasileiros teve momentos de histeria coletiva dignos apenas das comemorações do quinto título mundial, em 2002.

Até aí, não se pode negar que, apesar dos motivos menos nobres, o amistoso foi uma ação positiva para a população local. Para um país abandonado até pelas potências, que preferem gastar suas tropas em “missões de paz” em países que tenham petróleo e população branca, o simples fato de estrelas mundiais como Ronaldinho e Ronaldo – esse último o grande ídolo dos haitianos pelo que se vê no filme – aparecerem no Haiti serve como legitimação da própria existência dos haitianos.

Porém, nem tudo é tão bonito assim. Para não contar o fim do filme (não que isso seja muito importante em um documentário), vale resumir o resto. A produção ganha pontos por mostrar que a intelectualidade haitiana não ignorou o fato de interesses políticos moverem aquele amistoso e que a reação dos haitianos após o jogo – que terminou em 6 a 0 para o Brasil – não foi tão positiva quanto a esperada.

No final, o documentário é muito bom, mas é mais atraente para quem, além de futebol, tem interesse em se aprofundar nas discussões sociais e políticas que giraram em torno dessa partida. Até porque, mesmo depois do filme, o espectador continua no dilema (e nem é intenção da produçao responder): “afinal de contas, esse amistoso foi uma coisa boa ou ruim?”.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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