Muhammad Ali domina o futebol brasileiro. E meu adeus ao Miltinho

Cassius Clay era um fazendeiro do Kentucky, que no século 19, ganhou 40 escravos de herança. Tornou-se abolicionista e grande defensor da causa da libertação dos escravos, fundando um jornal para expor suas ideias. Por isso, muitos negros, em sua homenagem, receberaram esse nome. Um dos muitos Cassius Clay, casado com Odessa, batizou um dos filhos com o nome de Cassius Marcellus Clay. Tornou-se boxeador, foi campeão olímpico em 1960, converteu-se ao Islamismo, recusou-se a matar e morrer no Vietnã. Jogou sua medalha no rio. Passou a chamar-se Muhammad Ali. “Cassius Clay era meu nome de escravo”, explicou. Mais do que um boxeador, tornou-se um mito, com seu estilo único. “Eu bailo como borboleta e pico como abelha”, dizia. (Nota: agradeço ao leitor Fernando que educadamente me alertou para o erro).

Neymar baila como uma borboleta e pica como borboleta. Em três anos de carreira, passou dos 100 gols. Não é truculento, embora tenha ganho massa muscular, mas é mortal. Dribla, sai pelos lados, passa e conclui. Como conclui. Com uma precisão incrível. No último jogo do Paulista, não foi o que estamos acostumados a ver. Mas fez um gol de penalti – parou com a palhaçadinha da cavadinha e aderiru à porrada – deu o passe para Juan e, recebendo de volta, achou o lugar certo para a bola entrar, entre tantos zagueiros verdes. Quando joga abaixo do que sabe, Neymar faz dois gols.

Ele está jogando tanto que, mesmo qundo está mal, é respeitado pela becaiada. Os caras se assustam com Neymar, ficam preocupados pelo que ele já fez e pode fazer e não pelo que está jogando naquela partida específica. Isso é coisa de mito em construção.

Impressionante como Neymar cresce. Está forte, não cai mais, está maduro. Além disso, é o verdadeiro malandro. O que é o verdadeiro malandro? Vive a vida, tem barco, muita mulher, mas não falta em treino, não vive batendo carro, é profissional. Vai no carnaval e treina no outro dia. E é santista, o que é muito bom para quem torce pelo Santos. Respeita as tradições, sabe da história do clube, homenageia velhos ídolos.

Neymar só não faria gols no Milton Bertachini. Meu amigo, goleiro aguaiano que morreu hoje por não resistir a um transplante. Há um mês, na formatura de Malu Poletti, jornalista aguaiana, soube que ele estava na fila do transplante. Totonho Martucci, uma das melhores pessoas do mundo, me deu o telefone do Miltinho. Disse para eu ligar, que ele ficaria animado. Não liguei. Sou um imbecil e gostaria de dividir essa tristeza com vocês. Me desculpem.

Um beijo, Milton. Grande corintiano. 

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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