Montpellier: time formado para ser campeão

O Montpellier conquistou seu primeiro título francês com uma receita antiga e comprovadamente eficaz: trabalho em longo prazo. Em 2009, após garantir o retorno à Ligue 1, o presidente Louis Nicollin decidiu apostar em René Girard como treinador e investir na formação de jogadores.

Girard, ex-volante da França da Copa de 82, era, na época, treinador da Seleção sub-21 dos Bleus. Desde 1998, quando era um dos assistentes de Aimeé Jacquet, vinha trabalhando com jovens das categorias inferiores para a FFF (Fédération Française de Football). Treinou também as categorias sub-16 e sub-19. Tal currículo era ideal para alguém com a missão de comandar jovens talentosos e indicar contratações baratas e promissoras.

No primeiro ano, vários jogadores promovidos da academia, como Yanga-Mbiwa, Stambouli, Cabella e Belhanda, fizeram parte do time que terminou o Campeonato Francês no quinto lugar. Na temporada seguinte, o elenco foi modificado e no final o Montpellier terminou em 14º. René Girard trouxe mais um par de reforços, mudou um pouco a forma de jogar, apostando suas fichas em uma promessa de craque, e foi bem sucedido.

Espinha dorsal confiável

O time campeão nacional é baseado em uma espinha dorsal muito confiável e que finalizou a competição com uma média de atuação altíssima. O goleiro Jourdren é seguro e um dos líderes do grupo. Na zaga, o jovem capitão Yanga-Mbiwa e o experiente brasileiro Hilton, maior salário do elenco, formaram uma dupla firme, concentrada e fria. No meio, o marroquino Belhanda vestiu a camisa 10 com honras, usando e abusando dos dribles. Na frente, Giroud fez o papel de homem gol, sendo referência na área e artilheiro da competição.

Para completar o novo 4-2-3-1, uma vez que nas temporadas anteriores a formação preferida era o 4-3-3, Girard optou por dois laterais rápidos (Bocaly e Bedimo), volantes inteligentes e voluntariosos (Estrada e Stambouli ou Saihi) e wingers com velocidade e boa chegada na área (Camara e Utaka).

Transição rápida pelos lados

Quando joga em casa, o Montpellier de René Girard marca o adversário em seu campo, adiantando o posicionamento do volante Estrada e tentando recuperar a bola mais perto do gol. Todos os jogadores demonstram empenho e estão bem instruídos. Isso fica claro porque, uma vez que o rival consegue passar a linha inicial de pressão, o time se recompõe e passa a ocupar espaços no campo de defesa. Apenas Belhanda e Giroud ficam mais à frente. Utaka e Camara trabalham incansavelmente no cuidado aos laterais.

A principal arma é o contra-ataque. A transição pelo lado é muita rápida, seja pelos laterais, principalmente Bedimo, ou pelos wingers. Na imagem abaixo, contra o Valenciennes, Stambouli recupera a bola no campo de defesa e, em apenas sete segundos, o time já está no campo de ataque.

Camara, pela direita, foi quem carregou a bola na transição. Cruzando a linha de meio, ele devolveu a bola para Stambouli. Belhanda, em posição de atacante, já inicia movimento para receber a bola de Estrada e finalizar a jogada.

O marroquino, jogador mais badalado da equipe e cotado para mais de dez destinos diferente na Europa, é a referência técnica da equipe. Com bom drible e visão de jogo, Belhanda terminou a competição com 12 gols e seis assistências. Logo os adversários perceberam a importância do camisa 10 e a marcação nele aumentou. Com participação reduzida de Belhanda, o Montpellier sofre para propor o jogo ofensivo. O chileno Estrada tem qualidade no passe, mas não é dinâmico o suficiente para articular. Stambouli, zagueiro de origem, e Saihi são apenas marcadores. Sendo assim, a estratégia de jogar “sem a bola”, ou seja, posicionado esperando a hora do contra-ataque veloz, é muito mais eficaz. Ao invés de centralizar a articulação em Belhanda, o marroquino passa a ser o homem de desequilibra.

Time mais cauteloso longe de casa

Nas partidas fora do Stade de La Mosson, Girard organiza o time de forma mais cautelosa. A marcação é bem mais funda e Estrada passa a ser um segundo volante fixo, ao lado de Saihi ou Stambouli. No entanto, a importância de contragolpear rapidamente é ainda maior.

Olivier Giroud é o típico centroavante de referência e ocupa a área com desenvoltura. Do alto de 1,92m, o camisa 17 tem imposição física e ótimo tempo de bola. Ao longo da temporada, além dos 21 gols marcados, auxiliou o time com seis passes para gol; em jogadas de pivô, escoradas de cabeça e até um cruzamento, na última rodada, contra o Auxerre. Outra jogada treinada é a passagem do lateral-esquerdo Bedimo. O nigeriano Utaka, veloz e excessivamente individualista, tem a tendência de sempre procurar o meio. Foi justamente com a intenção de completar o setor, que o camaronês Bedimo foi contratado junto ao Lens.

Pela direita, Bocaly e Camara possuem mais entrosamento, mas as jogadas acontecem com menos frequência. O fundamental é que a equipe passou a ter jogadas de linha de fundo pelos dois lados e isso foi decisivo para as vitórias.

Justo campeão

René Girard formou a atual equipe do Montpellier ao longo de três temporadas completas e com poucos recursos. Conseguiu reunir jogadores com talento e ambição e entrou para a história do pequeno clube do sul da França. O novo rico europeu PSG ficou em segundo, mesmo com um orçamento amplamente maior.

A conquista é merecida mas o desafio agora é maior. Desejados por vários grandes clubes europeus, jogadores chave como o ótimo Yanga-Mbiwa, Belhanda e Giroud podem acabar saindo. Além disso, o Montpellier vai disputar a Liga dos Campeões pela primeira vez. Boa sorte ao justo campeão.

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Equipe Trivela

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