Millwall: Os Leões invadem a Europa

A torcida do Millwall está em êxtase – e por um motivo mais do que justo. Pela primeira vez em seus 119 anos de existência, os Lions, como são conhecidos, disputarão uma final. E não qualquer final, mas sim a final do mais antigo e tradicional campeonato de futebol do planeta, a FA Cup (em português, copa da Inglaterra).

Apesar de terem pela frente o Manchester United, que já venceu esse torneio em dez oportunidades, o tradicional, mas pequeno, clube do sudeste de Londres tem um motivo a mais para comemorar. Enquanto times do porte de Liverpool, Newcastle, Birmingham, Aston Villa e Fulham brigam palmo a palmo pela única vaga que a Premiership (a primeira divisão da Inglaterra) dá à Copa UEFA, o Millwall, que atualmente luta para deixar a Division One (a segunda divisão da Inglaterra) já está garantido na próxima edição da segunda competição européia mais importância.

Eis o porquê: como os Red Devils já estão garantidos na próxima edição da Liga dos Campeões, o Millwall herdará a vaga que a FA Cup dá para a Copa UEFA.

A simples classificação dos Lions para essa decisão já é um fato histórico por si só. A última vez que uma equipe das divisões inferiores conseguiu tal feito foi em 1992, quando o Sunderland perdeu para o Liverpool.

Um recorde em jogo

Antes disso, em 1988, o Wimbledon, também de uma divisão inferior, conseguiu o título batendo os mesmos ´liverpudlians´. E o campeão de 1988 e o Millwall de hoje têm em campo uma boa coincidência: Dennis Wise.

Àquela altura, ele era apenas um promissor meia em início de carreira. Depois de sua passagem pelos Dons, ele defendeu o Chelsea e conquistou, entre outros títulos, duas vezes a FA Cup, além de ter defendido a seleção inglesa em 21 oportunidades.

Em outubro passado, meio que por acaso, Wise se tornou técnico-jogador, quando, pressionada pela torcida, a diretoria demitiu o então treinador Mark McGhee. ´´Assumi o comando por apenas quatro partidas, mas venci três delas, e o presidente pediu que ficasse no cargo de vez´´, explica Wise.

Ele sabe que a tarefa que terá pela frente em 22 de maio é praticamente impossível, mas se conquistar o título pelos Lions, o agora técnico-jogador será a primeira pessoa a levantar o troféu por três equipes diferentes.

Antes de pensar na grande decisão contra os Red Devils, porém, Wise quer que seu time se concentre na classificação para a Premiership.

119 anos de sobe-e-desce

Em seus 119 anos de existência, o sobe-e-desce nas divisões inferiores da Inglaterra é mais do que um hábito para o Millwall. O clube da região de Canada Water e Surrey Quays (sudeste de Londres, próximo a Greenwich), fundado por escoceses que trabalhavam numa fábrica de geléia – por isso as cores azul e branco na camiseta -, teve três grandes momentos em sua história.

O primeiro deles foi antes da Segunda Guerra Mundial. Antes de perder seus jogadores para as frentes de batalha, os Lions conseguiram aquele que era seu maior feito até hoje – chegar à semifinal da FA Cup. Naquela oportunidade – a primeira em que um time da terceira divisão chegou a essa etapa -, ao contrário do que aconteceu na edição 2003/4, o Sunderland levou a melhor.

Na década de 60, depois de amargar alguns anos na obscura quarta divisão, o Millwall chegou à Segundonda em 1966. Nessa época, sob o comando de Benny Fenton, o clube montou um de seus melhores elencos em todos os tempos.

A tão sonhada chegada à primeira divisão (que em 1993 virou Premier League) veio em 1988, numa fornada de jogadores que revelou Teddy Sheringham e durou apenas até 1990, quando a equipe voltou à Segundona. Quem comandava o clube nessa época era Mick McCarthy, que só deixou o comando dos Lions em 1995, depois de 13 anos, para assumir a seleção da Irlanda, que foi à Copa de 2002. Atualmente, ele treina o Sunderland.

Ninguém gosta da gente

Se o Manchester United é o time mais odiado da Inglaterra por seu poderio financeiro e por suas conquistas, os Lions o são pelo comportamento de seus fãs.

A torcida do Millwall, para quem não sabe, é internacionalmente conhecida como antro de hooligans da pior espécie. Não raramente, torcedores são presos antes, durante e após as partidas do clube por promover brigas e cantar hinos racistas. Em um de seus cantos mais famosos, eles dizem, sem vergonha e com razão: ´´No one likes us´´ (ninguém gosta da gente).

Desde que assumiu a presidência, Theo Paphitis, além de salvar o Millwall da falência, tem lutado bastante para mudar essa imagem. Além de sempre fazer questão de frisar a participação do Millwall na campanha ´Kick It Off´, que promove o fim do racismo no futebol, o dirigente implantou um sistema de carnês, o que contribuiu bastante para a diminuição de problemas nas imediações do estádio The Den, (em português, ´A Toca´).

Como a final da FA Cup acontecerá longe das rédeas de Paphitis, teme-se que torcedores que há algum tempo deixaram de ir ao estádio com essa nova política possam voltar a atacar e, assim, novamente manchar a história do clube.

Os próprios jogadores sabem que não são bem quistos. ´´Ninguém nos queria na final´´, diz o atacante Neil Harris, que há pouco tempo superou um câncer nos testículos e teme pelo pior quando o assunto é a torcida de seu time.

É por isso que as autoridades em Cardiff, a capital do País de Gales, onde em 22 de maio acontece a final da FA Cup, estarão em alerta máximo.

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