Memórias de um chimarrão

Num clássico nunca há favoritos. Muito menos no derby cavalquense, na fronteira gaúcha, entre o Grêmio Esportivo Fontanarrosa e Esporte Clube Galeano. Fundados por imigrantes italianos no final do século XIX, as únicas semelhanças entre os clubes são, a princípio, as origens. Origens semelhantes pros brasileiros, porque para os moradores dessa cidade, de semelhança não há nada.

Nas novelas da Globo os imigrantes italianos são de famílias sempre alegres e amistosas com uma só identidade, a italiana. Os moradores de Cavalcanti, em sua maioria absoluta imigrantes, não confirmam em nada as historietas da Globo. Suas rinchas mais do que históricas, ressentimentos e ódios são relatadas de todas as formas. O futebol não fica ileso de tanta rivalidade.

O engano comumente cometido de que as origens sejam as mesmas se dá pelo simples fato de que quando os primeiros imigrantes chegaram nessa cidadezinha, o país chamado Itália, hoje tetra-campeão mundial, não existia ainda. Existiam sim, idéias unificadoras, separatistas, anarquistas, socialistas e outras que explodiam naquela época. Aqueles que emigravam da Itália então, de italianos tinham muito pouco ou quase nada.

Os oriundos do Vêneto, logo formaram grupos entre si, viviam sua cultura e não se mesclavam com os demais, muito menos com os vindos da Calábria. A diferença era vista em vários sentidos. A língua ou como alguns dizem, o dialeto não era o mesmo, eles nem se entendiam. A cor do cabelo e dos olhos eram diferentes. Dentre os do Vêneto era mais comum ver louros de olhos claros, enquanto entre os calabreses poucos eram assim.

O Norte do que se conhece hoje como Itália, naquela época sofria fortes mudanças sócio-econômicas, mas mesmo assim era muito mais moderno que o agrário sul. E isso se refletia diretamente nos imigrantes. Havia um racismo enorme entre eles. Era comum escutar xingamentos em uma mistura de Talian (dialeto do Vêneto) com português, querendo dizer burro, inculto, pré-histórico e outros sinônimos de atraso cultural, para com os calabreses.

Os cidadãos cavalquenses, como bons gaúchos da fronteira, fazem uso de um bom português, no entanto, no falar de cada um é fácil identificar quem é torcedor do Galeano ou do Fontanarrosa. Há sempre um tom mais imponente no português quase impecável dos adeptos do Fontanarrosa. Normalmente de famílias mais ricas, os filhos vão quase sempre fazer faculdade em Porto Alegre. Já quando alguém que torce pro Galeano chega a faculdade, a piada mais comum é de que ele teria que mudar de time, porque o Galeano é time de burro. Os adeptos do Galeano, fazem confusões com o espanhol, já que é muito freqüente que argentinos e uruguaios circulem pela cidade, portanto a língua sofre algumas influências vocabulares, mas mesmo assim, aqueles típicos torcedores do Fontanarrosa dificilmente misturam uma coisa com a outra.

Até nas escolas secundárias os meninos enfrentavam sérios problemas quando flertavam com meninas que eram filhas de torcedores do outro time. Poucos conseguiram namorar e que conste, ninguém conseguiu casar. O ódio entre os clubes é maior do que o amor entre duas pessoas.

Aos domingos na missa, os “rosinhas” (termo pejorativo que aludia a Fontanarrosa) ficam do lado esquerdo de quem olha pro altar e não se vê nenhum “galinha” (termo pejorativo pros adeptos do Galeano) que não seja do lado direito. Contam por Cavalcanti que esse posicionamento tem a ver com o alinhamento político, porque desde quando chegaram os primeiros imigrantes do Vêneto, eles tinham uma tendência socialista e ficar na esquerda da igreja era pra simbolizar isso. Os vindos da Calábria ficavam na direita porque era onde tinha espaço. Uma vez um desavisado sentou do lado esquerdo e contam que a missa foi interrompida, houve uma forte briga entre os dois lados e depois disso nunca mais ninguém se equivocou.

As essências políticas se perderam. As preferências esquerdistas ficaram só dentro da igreja. Como os primeiros a chegar conseguiram se tornar proprietários, estes foram se alinhando com a direita, e portanto se simpatizando com os positivistas no final do século passado e início do século. Depois com Vargas, ficaram um pouco insatisfeitos com tantas regalias pro povo, mas como no campo a realidade pouco mudou, não houve nenhum problema maior. Na verdade, davam preferência a Vargas, muito mais por ele ser gaúcho do que por ideologia política e seria melhor do que ter no poder um “brasileiro” (como eles chamavam os que não eram do Rio Grande do Sul). Já os que chegaram depois, no caso os calabreses, vieram a ser mais comunistas devido as condições de vida que tinham no campo. Independentemente de posicionamento político, a única afinidade entre os dois lados é o sentimento separatista deles. Sejam “galinhas” ou dos “rosinhas”, o separatismo é um só.

Esses posicionamentos políticos, influenciaram nas escolhas das cores dos clubes. O Fontanarrosa, tinha camisas azul celeste, calção branco e meias brancas, dizem ser inspiradas nas cores argentinas e uruguaias, justamente pra declarar implicitamente seu separatismo. Já o Galeano se veste todo de vermelho, por causa dos colorados uruguaios, dizem.

Os nomes dados aos clubes são de sobrenomes de dois imigrantes que ajudaram a fundar Cavalcanti. Dizem que tanto um quanto o outro lutaram na guerra dos farrapos. Mas também se escuta que um na verdade lutou a favor do Brasil e o outro a favor da Revolução Farroupilha. Nesse caso vai depender de quem conta a história. O certo é que seus nomes foram eternizados, seus espíritos guerreiros seguem vivos a cada jogo dos clubes.

O futebol, na verdade, em muito serviu pra unir, mas também pra separar ainda mais. Com as fundações do Grêmio Esportivo Fontanarrosa e do Esporte Clube Galeano, muito sangue jorrou. Ao bom estilo gaúcho, ver jogadores saindo de campo, todo cheio de barro, com o nariz sangrando, um braço quebrado e a camisa rasgada, era o mínimo que se esperava de um clássico. A Violência chegou a ser tanta que até o governador em um dado momento interveio junto ao prefeito de Cavalcanti, fizeram um comício onde pediram maior fraternidade entre os cidadãos, fizeram lembrar que eram todos brasileiros e acima de tudo gaúchos. Alguns dos moradores até compraram essa balela, porque os demais, como bons gaúchos que são, sabem que esse papo de brasileiro é conversa fiada e pouco se importaram com aquele discurso eleitoreiro.

Com um estilo sempre mais aristocrático, o Fontanarrosa conseguia conquistar mais títulos no início do século, porém a história contada do outro lado, pelos torcedores do Galeano, é de que os juízes já vinham “comprados”. Os juízes não podiam ser de Cavalcanti, pois em Cavalcanti, nem mulher pode se dar ao luxo de não ter time. E pra evitar um juiz que torcesse por algum dos dois, trazia-se juiz até da capital gaúcha, se necessário. Mas pra isso, havia um custo, e obviamente os diretores do Fontanarrosa, geralmente proprietários de chácaras e fazendas custeavam o gasto a fim de garantir a realização do clássico. Coincidência ou não, os derbys eram sempre mais favoráveis aos “Rosinhas”.

Os “Galinhas”, reclamavam da falta de uma arbitragem mais justa, mas como não podiam custear a vinda de um árbitro de fora, nada podiam fazer. Pra vencer, realmente tinham que dar a vida, como diz a lenda de que certa vez, quando o Galeano venceu o derby por 1 a 0, com um gol aos 43 minutos do segundo tempo, no dia seguinte da histórica vitória, o jogador que leva hoje o nome da rua na frente da sede social do Galeano, Álvaro Righiezze, morreu de tanto esforço, pois ao megulhar no rio no dia seguinte suas pernas cansadas, tiveram câimbras e fizeram com que ele se afogasse. Essa é a história heróica, contada com orgulho pelos fanáticos torcedores do Galeano de todas as gerações, mas há aqueles que não acreditam em nada disso e dizem que, na verdade, ele foi assassinado por um capanga de um dos diretores do Fontanarrosa e depois atirado no rio que beira a cidade.

Do outro lado do rio se via a Argentina e mais adiante o Uruguai. Era mais comum que viessem jogar times dos países vizinhos do que times de Porto Alegre. Então, se fala até hoje que o time de 1950 do Galeano era o melhor do mundo daquele ano, porque não perdeu nenhum jogo pra nenhum time do Uruguai, nem da Argentina. Como coincidentemente naquele ano, o Brasil perdeu pro Uruguai na final da Copa do Mundo, então, segundo a lógica dos torcedores, o Galeano que ganhou de todos os times que vieram do Uruguai, que é o campeão do mundo, o Galeano é então, o melhor do mundo. Mas isso não é um título somente do Galeano, o Fontanarrosa é tido como o melhor do mundo 3 vezes. Em 1930, 1978 e em 1986. Por ter ganhado de todos os times uruguaios que visitaram Cavalcanti em 1930. Mais tarde, o time se atreveu a excursionar pela Argentina em 1978, e segundo o que contam, ganhou de todo mundo do outro lado do rio, nos 6 jogos disputados. E depois em 1986, jogou contra 3 times argentinos e ganhou todos.

Um século passou. A rivalidade até piorou. “Antigamente havia mais respeito”, dizem os mais antigos. Algumas palavras em dialetos até se escutam, geralmente em tom ofensivo, sempre são usadas pra insultar. “Galinha” pra cá, “Rosinha” pra lá. Isso é normal, ninguém se ofende mais com isso. Pelo menos o estado do gramado do estádio municipal de Cavalcanti anda melhor, mas no meio do campo e dentro das áreas ainda se vê o folclórico barro. Há quem diga que “só tem barro porque aqui faz frio. Frio é pra macho e futebol também”

Mas nunca se viu tanto movimento em torno do clássico como hoje, tem gente vindo de São Borja e até de Santana do Livramento, a cidade está cheia de uruguaios e argentinos que cruzaram o rio só por causa do clássico. Hoje se define o maior vencedor do centenário do clássico. Foi em 1907 o primeiro clássico e curiosamente, eles estão empatados em números de vitórias. Hoje em dia até existe uma estatística mais confiável por parte da imprensa local que historicamente se dividia, com uma parte sempre alinhada com um clube e a outra com o outro. Atualmente há um pouco mais de imparcialidade e ambos os jornais locais confirmam o empate entre os clubes. Para os torcedores isso não existe, “é pra vender jornal” como disse um senhor, torcedor do Galeano, que afirmou que os “Galinhas” já ultrapassaram os “Rosinhas” faz tempo. Já um menino de uns 16 anos que joga no juvenil do Fontanarrosa e esperava ansioso pelo clássico, dizia que essa história de empate nunca existiu, porque o “Rosinha” tem 800 vitórias contra 350 do “Galinha”. São 14h30, e a essa altura quase não há mais espaço vazio pro jogo que começa às 15h. O frio de junho agora apertou. Pra contê-lo, ponches, botas de couro e bombachas nos bigodudos torcedores de ambos os lados. Fazia mais ou menos 0 grau essa hora, foi um dos dias mais frios do ano. De manhã o relvado estava todo congelado.

– Bah, tchê… passa o chimarrão que o jogo vai começar.

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Equipe Trivela

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