Maurício: Fãs raros como dodôs

Maurício é uma ilha pouco maior que a cidade de São Paulo, localizada no sudeste da África. Trata-se de um lugar pouco conhecido fora da região, que tem fama mais pela natureza exótica que por qualquer outro motivo. Não à toa, o maior símbolo do país é o dodô, ave desengonçada e incapaz de voar que foi extinta no século XVII. O pássaro, aliás, oferece um bom paralelo com o futebol do país, onde bons jogadores são muito difíceis de encontrar.
O futebol é o esporte mais popular nas Ilhas Maurício. Entretanto, não são as cores do Fire Brigade ou do FC Dodo (ele mesmo!), dois maiores campeões da liga nacional, que são vistas nas lojas ou nas camisas dos torcedores. E não é porque a capital não tem muita tradição no futebol. Em vez dos times locais, a maior atração no país é a Premier League inglesa, transmitida ao vivo (e em francês) pela TV aberta.
Nem mesmo o patrocínio da Barclays, empresa que dá nome também à liga inglesa, tem sido suficiente para aumentar a presença de público nos estádios, que muitas vezes não passa de poucas centenas. Cria-se, assim, um círculo vicioso, em que a falta de jogadores de nível diminui o interesse, os estádios vazios dão prejuízo à federação nacional e aos clubes, que não conseguem dinheiro para investir no futebol, reduzindo o estímulo aos jovens para se tornarem jogadores de futebol. Assim, o nível técnico continua fraco e o elo se fecha.
Reformulação negativa
As Ilhas Maurício são um dos países de população mais miscigenada do mundo. O arquipélago era inabitado quando foi descoberto no século XVI por navegantes portugueses. Assim, todos os colonizadores que por lá passaram fizeram parte da formação da população nativa: franceses, britânicos, chineses, grupos africanos do continente, árabes, indianos e holandeses.
Estes últimos, ainda que não possuam presença considerável atualmente, deram à ilha o nome que permanece até hoje: navegadores que aportaram por engano no local prestaram uma homenagem a Maurício de Nassau, príncipe de Orange. A influência mais importante, contudo, é dos descendentes de indianos, que correspondem a 68% da população total.
Como a miscigenação é recente, a mistura acontece também no idioma: embora o oficial seja o inglês, resquício dos 200 anos de colonização britânica, a maior parte dos habitantes segue os meios de comunicação e fala francês no dia-a-dia, graças aos primeiros colonizadores de fato do local.
A presença de vários grupos étnicos se refletia no futebol, onde muitas equipes estavam ligadas a determinadas etnias ou religiões. Isso, no entanto, não acontece mais desde 2001, quando a liga nacional foi reformulada, após um ano e meio sem futebol no país.
Isso aconteceu porque em 1999, na decisão entre Fire Brigade, clube tradicional da população de origem africana, e o então campeão Scouts Club, dos habitantes muçulmanos, o árbitro assinalou um pênalti duvidoso para o Fire Brigade, que lhe garantiu o 13º título da história. Terminada a partida, uma briga que começou no estádio espalhou-se pelas ruas e transformou-se em conflitos que duraram três dias e deixaram sete mortos.
O governo proibiu então a prática do futebol (incluindo a seleção nacional) e só permitiu a reorganização de uma liga se os clubes deixassem de representar etnias ou religiões e passassem a ser formados baseando-se nas divisões geográficas. Isso forçou as agremiações a adotarem novos nomes e minou a rivalidade entre as torcidas, diminuindo o interesse aos níveis atuais.
Por um futuro mais colorido
Não são recentes, aliás, as dificuldades financeiras da federação nacional, fundada em 1952 como Associação Esportiva Maurícia. Afiliada à Fifa desde 1962, participou de sua primeira competição oficial somente nas eliminatórias para a Copa Africana de Nações de 1968. Alcançou a fase de grupos em 1974, ano em que participou do primeiro qualificatório para a Copa do Mundo, mas sequer pontuou em ambos.
De fato, Maurício não disputou as eliminatórias das Copas de 1990 e 1994 por não ter dinheiro para pagar as taxas exigidas pela Fifa para sua inscrição, além de ter outros débitos com a entidade. Ainda que a liga nacional exista desde 1935, com diversas interrupções, permaneceu por muito tempo semiprofissional. Para constatar isso, basta olhar para o nome de alguns clubes, como o Fire Brigade (fundado por bombeiros) e o Police Club (idealizado por policiais).
Assim, não surpreende o fato de que apenas algumas dezenas de jogadores da ilha tenham saído para outros países, na maioria africanos, até hoje. Os Dodôs, como são conhecidos, buscam aumentar sua experiência com amistosos contra seleções mais fortes do continente, como aconteceu em 2007, quando uma derrota por 2 a 0 para a África do Sul foi comemorada. O destaque da equipe foi o meia Jacques-Désiré Périatambée, do Niort, da segunda divisão francesa, um raro exemplo aos garotos do país.
E foi justamente contra a África do Sul, principal incentivador do futebol maurício, que o Club M conseguiu seu melhor resultado até hoje: vitória por 2 a 0 pelas quartas-de-final da Cosafa Cup de 2004, competição anual entre seleções do sul do continente. A derrota por 3 a 1 para Zâmbia na semifinal foi pouco sentida, já que o triunfo anterior ainda era comemorado.
A vitória histórica veio na esteira do lento, porém gradual crescimento dos últimos anos da seleção nacional, que conquistou em 2003 o bicampeonato dos Jogos do Oceano Índico, disputado entre as ilhas africanas da região. É pouco, mas melhor que nada, disse à época o presidente da federação, Dinnanathlall Persunnoo. Isso não deixa de ser verdade, tendo em vista que a seleção se desenvolve bem, enquanto o futebol de clubes local parece agonizar.
Nas eliminatórias da Copa de 2006, outro resultado animador: a primeira vitória pela preliminar, contra Uganda, por 3 a 1. O sabor da vitória só não foi melhor porque o time havia perdido o jogo de ida, fora de casa, por 3 a 0.
Para 2010, o desafio é maior. Com a Copa acontecendo na África, seleções pequenas como Maurício foram beneficiadas e poderão participar de mais partidas das eliminatórias, que valem também para a Copa Africana do mesmo ano. Assim, os Dodôs entram como totais azarões diante de Camarões, Cabo Verde e Tanzânia, a quem já venceram duas vezes nas preliminares da Copa Africana de Nações de 2002.
Com tudo isso, o futebol das Ilhas Maurício segue engatinhando. Um país de história rica e formado por várias raças, culturas e cores, como na própria bandeira, que ostenta o vermelho da independência, o azul do oceano, o verde da vegetação e o amarelo da esperança. Esperança de que, num futuro próximo, as diferenças de credo e origem sejam superadas para que somente uma cor seja defendida pelos habitantes: não mais a dos clubes estrangeiros, mas a do país que, afinal, é de todos eles.



