Márcio Braga, a medalhinha e a ética dos punhos de renda

Uma matéria e um artigo publicados hoje na Folha de São Paulo interagem. Falam entre si e traçam um painel da desesperança que atinge o futebol brasileiro. Juntos, mostram que o fundo do poço ainda está longe de ser alcançado.

A matéria mostra o envolvimento de Ricardo Teixeira em um esquema que teria desviado R$ 1,1 milhão do jogo entre Brasil x Portugal, de 2008, em Brasília.

O artigo, de Márcio Braga, ex-presidente do Flamengo, é só elogios a Ricardo Teixeira, a partir do título Ricardo Teixeira: não é hora de renúncia. O artigo é uma biografia de anjo. Ricardo surge como um empreendedor, alguém que colocou o futebol brasileiro nos eixos, tornando-o forte. Está ali um habilidoso líder, capaz de trazer a Copa do Mundo ao Brasil.

No final, pasmem, Marcio Braga diz que Ricardo Teixeira deve ficar para evitar que a… corrupção, ela mesmo, tome conta da CBF. “Ricardo Teixeira não pode ser sucedido por um Zé das Medalhas qualquer”.

Evidentemente, está falando de José Maria Marin, o jurássico cartola, flagrado com a mão na botija, ao pegar sem pedir a medalha reservada para um dos garotos do Corinthians, campeão da Copa São Paulo.

Ora, quando o chefe da CBF é acusado de um embroglio de mais de um milhão, a insinuação de Márcio Braga em relação à pouca honestidade de Marin perde peso. Ela se resume a isso: “que deselegante, pegar uma medalhinha. Que falta de classe”. A roubalheira bem feita, sem flagrante, sem testemunha, com dinheiro perambulando de conta em conta, é perdoada por Márcio Braga.

Para ele, tudo é uma questão de estilo. Talvez ele ache aceitável uma criança receber milhões de presente de um representante da Nike.

É a moral dos punhos de renda. Daqueles que combinam a gravata com o lencinho no bolso do paletó. É a lei da compensação dos bem nascidos. Aquela que chama Law Kin Chong de contrabandista e Eliane Tranchesi de empreendedora. O feio não é roubar. É roubar sem classe.

E pensar que Márcio Braga já foi considerado alguém capaz de renovar o futebol brasileiro. Medalhinha a parte, é um Zé Maria Marin mais novo.

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Equipe Trivela

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