Mais que um jogo

Em Futebol ao Sol e à Sombra, do uruguaio Eduardo Galeano, há um trecho que bem simboliza o que representa o futebol para as camadas populares. Apesar de as palavras de Galeano se dirigirem, de forma poética e magistral, à história do português Eusébio, elas são modelo para a vida de milhares de jovens brasileiros:
“Nasceu destinado a engraxar sapatos, vender amendoim ou roubar dos distraídos. Quando menino, era chamado de ´Ninguém`. Filho de mãe viúva, jogava futebol com seus muitos irmãos nos areais dos subúrbios, do amanhecer até a noite. Chegou aos gramados das canchas correndo como só pode correr alguém que foge da polícia ou da miséria que morde os calcanhares. E assim, disparando em ziguezague, foi campeão da Europa aos vinte anos. Então, começou a ser chamado de 'Pantera´.”
Em terras tupiniquins, o futebol passou a representar a luz de uma vida nova no início do século passado. Foi das mãos dos industriais, donos de fábricas paulistas e cariocas, que vieram os primeiros pagamentos aos operários-jogadores. As vitórias animavam os patrões a investir nas agremiações e a dar aos trabalhadores-atletas, regalias que estes nunca teriam usando as mãos. O reconhecimento dentro do ambiente de trabalho e o complemento na renda eram o esboço do que hoje é a glória mundial e os salários milionários.
O futebol tornou-se profissional, os jogadores passaram a ser produtos e os torcedores, verdadeiros consumidores em massa. Uma visão um pouco pós-moderna demais e pessimista? Longe disso. A profissionalização do futebol representou uma verdadeira revolução na forma de ascensão e mobilidade social no País. O esporte mais popular do mundo, além de despertar paixões, abriu as portas da vida para aqueles que nela nunca bateriam, se não fosse o talento com os pés.



