Lucien Laurent: O primeiro

Eram passados 19 minutos do primeiro tempo. Aos poucos os jogadores das equipes iam deixando o nervosismo da estréia de lado. Os mais de 6.000 impacientes torcedores nas arquibancadas do Estádio Pocitos esperavam ver as redes balançando. Coube ao goleiro francês Aléxis Thépot iniciar o lance que fez aquela tarde, no Uruguai, entrar para a história mundial do futebol.

De sua área, joga a bola para o meio-campo. Dois jogadores a dominam, trocam passes antes de ela a chegar aos pés de Lucien Laurent. O volante dos “azuis” ingressa na área, percebe o arqueiro mexicano se aproximando. Com categoria, coloca a bola dentro da goleira.

O gol não foi apenas mais um. Foi o primeiro de Copas do Mundo. Aconteceu em Montevidéu, em 13 de julho de 1930, às 15h19min. Marcou a estréia das seleções de França e México na competição. Os europeus ainda fizeram outros três, fechando a conta em 4X1.

Apesar da vitória na largada, Laurent e sua turma ficaram no meio do caminho. Perderam para Argentina e Chile e terminaram no 3º lugar do grupo 1, com dois pontos – vitória valia dois pontos -, quatro a menos do que os argentinos, líderes da chave, e os classificados à fase seguinte.

Pior sorte teve o meio-campista, cuja camiseta era a 10. Saiu no meio do jogo contra a Argentina, lesionado, e não participou da terceira partida. Mas sua tarefa já estava cumprida. Os 30 dias de viagem, dentro de um navio (com o restante da delegação, obviamente), desde o “Velho Continente” até o Sul da América, havia valido a pena. Foi surpreendente o fato de um volante, que com raras exceções chegava à frente, ter marcado o gol número um da história das Copas. Mais surpreendente ainda porque nem a França, tampouco ele eram profissionais.

A seleção ainda era amadora – e o México era mais fraco – e o jogador nem poderia ser chamado como tal. Em 1930, atuava pelo Sochaux. Treinava no turno da manhã, e de tarde trabalhava na indústria automobilística.

Jogador operário

Nascido na periferia de Paris, em Saint-Maur-des-Fossés, em 10 de dezembro de 1907, Lucien entrou para o hall da fama aos 22 anos. Foi apresentado ao futebol bem antes disso, no Cercle Athletic de Paris, campeão da Copa da França em 1920. Na edição seguinte – primeira de Lucien como atleta -, o clube ficou com o vice-campeonato. Caso vencesse de novo, seria o primeiro e único título de Laurent.

Defendeu as cores do clube de 1921 a 1930, quando se transferiu para Montbéliard, no leste da França, onde dentre outras atividades, jogou pelo Sochaux. As manhãs eram destinadas a treinamentos, enquanto as tardes eram ocupadas por jornadas de trabalho na fábrica da Peugeot, empresa fundadora e dona do Sochaux.

A cansativa vida na nova cidade foi retribuída com a excursão pela América. Depois da eliminação na Copa do Mundo, os franceses resolveram se aventurar pelo Brasil. Péssimo negócio. Levaram 6X2 do Santos e 3X2 da seleção brasileira. Quatro gols marcados, mas nenhum de “Le 1er”, como Laurent ficou conhecido após a façanha no Uruguai.

Ao voltar ao país natal,passou por uma verdadeira pereguinação Tornou-se um andarilho. Jogou mais duas temporadas no Sochaux e resolveu conquistar novos espaços. Rodou por Club Français, Cercle Athletic de Paris (de novo), Mulhouse, voltou para o Sochaux, e saiu para atuar por Rennes, Strasbourg, Toulouse e Besançon Racing Club. Tudo isso até 1946, quando a idade o impediu de continuar correndo atrás da bola. Não disputou outra Copa – iria particpar em 1934, na Itália, mas o joelho lesionado não permitiu.

Antes da aposentadoria, encheu o povo francês de orgulho pela segunda vez. Em 1939 serviu no exército, e com as Forças Armadas lutou na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Preso por tropas alemãs, só foi libertado no ano de 1943. Mesmo longe dos gramados por quase quatro anos, decidiu voltar. Se estabeleceu em Besançon (região leste da França), onde jogou pelo time homônimo. Inclusive, faleceu na cidade, em 11 de abril de 2005. Completaria, em 2007, 100 anos.

Ele e a Fifa

Lucien Laurent continou no futebol. Mas como professor, orientando e ensinando os jovens. Tentou a sorte como treinador. O reconhecimento na nova atividade sequer chegaram aos pés da fase de atleta. A carreira à beira do campo fracassou, tendo dirigido apenas equipes amadoras de Besançon.

Nada que o abalasse. Continou ligado ao esporte. Sempre muito assediado pela imprensa, dava pitacos sobre os elencos das seleções francesas, principalmente na década 70. Seu último sonho era ver seus país campeão do mundo, algo que passara muito longe em 1930.

Dos que jogaram aquelas três partidas no Uruguai, apenas ele estava vivo em 1998, quando finalmente a França chegou ao topo. Nos sete jogos torceu, se emocionou e sofreu. Era um torcedor símbolo. Desejava ver a Eurocopa 2000, disputada na Bélgica e na Holanda.

Este título, Laurent assistiu pela televisão. No mesmo ano, entretanto, recebeu o maior dos presentes a que tinha direito. A Peugeot o homenageou no Troféu Peugeot dos Campeões. No jogo final, entre Nantes e Monaco, no estádio do Sochaux, voltou a pisar no gramado, com direito ao pontapé inicial.

Com muitas histórias para contar, o ex-volante de 1m62cm, e autor de somente dois gols nos dez jogos em que defendeu os Bleus, sempre ocultou uma, assim como a Confederação de Futebol daquela nação.

Embora a Fifa considere o gol contra o México o primeiro das Copas, documentos indicam o lance como o terceiro. No momento em que Laurent abriu o placar no Estádio Pocitos (antiga casa do Peñarol), os Estados Unidos já aplicavam 2X0 na Bélgica, no Parque Central. Ambos os jogos haviam iniciado às 15h.

A França implorou à Fifa para estrear no dia 14 de julho, data da Queda da Bastilha. A entidade não autorizou, e para acalmar os ânimos resolveu catalogar o gol de Laurent como o número um.

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Equipe Trivela

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