Luca Marchegiani: a Lazio nunca o esquecerá
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Por André Renato
Quando uma equipe marca época, é praticamente do instinto do brasileiro começar a ler a escalação da frente para trás; descobrir quem eram os grandes craques, o goleador. O goleiro é quase um detalhe. Se há um país onde esse pensamento não existe, é a Itália. Posição muito valorizada, não é fácil lembrar de um time que tenha feito história na Bota sem um grande portiere.
E esse é o caso da Lazio da segunda metade da década de 90, período mais vitorioso de sua história, e muito pela imponente figura de Luca Marchegiani, presente nos sete títulos conquistados em três anos pela equipe romana. Por sua elegância dentro e fora do campo, ganhou o apelido de il Conte (“o Conde”).
Primeiras defesas
Luca Marchegiani nasceu no dia 22 de fevereiro de 1966, na cidade de Ancona. Começou a jogar futebol aos 18 anos no pequeno clube da cidade, Jesina Calcio, da quarta divisão, onde realizou 33 jogos, todos na temporada 1986/87, suficientes para chamar a atenção do Brescia, então na Série B.
Na Lombardia, de 1987 a 1988, não teve chances contra Ivano Bordon, goleiro campeão do mundo com a Seleção Italiana em 1982. Marchegiani deixou a equipe após realizar apenas quatro jogos, rumando ao Torino.
Surge uma promessa
Apesar da sua imagem altamente ligada a Lazio, Marchegiani tem história riquíssima no Torino também. Chegando ao clube em 1988, tinha dessa vez a concorrência de Fabrizio Lorieri, mas essa briga foi vencida, disputando a mesma quantidade de jogos de Serie A que o companheiro. O que nenhum dos dois conseguiu foi evitar o rebaixamento.
Para a temporada de Serie B, Lorieri deixou o clube, e Marchegiani assumiu de vez a condição de titular, ajudando o Granata a conquistar o título da segunda divisão sofrendo apenas 22 gols em 34 partidas. Via-se agora no jovem arqueiro de 23 anos um futuro promissor.
A confirmação das expectativas veio nas três temporadas seguintes: em 90/91, reestreando na Série A, o Torino conquista uma improvável vaga europeia; 91/92 e, além do 3º lugar no Calcio (melhor colocação de lá para cá) tendo a melhor defesa do campeonato, também conquista o vice da Copa da UEFA; para fechar, em 92/93, conquista o último título de primeira grandeza da equipe de Turim, vencendo a Copa Itália sobre a Roma. Parecia um sinal.
Lazio: o ápice
Com investimentos do financista Sergio Cragnotti, a Lazio começa a montar o esquadrão que tanto sucesso fez ao final da década. Em 1993, era realizada a maior transferência envolvendo um goleiro: os romanistas pagaram o equivalente a R$ 15 milhões para tirar Marchegiani do Torino. O treinador? Dino Zoff.
A estrela esteve ao seu lado na primeira temporada. Em fevereiro de 1994, em seu segundo dérbi da capital, a Lazio ia vencendo a Roma por 1 a 0, gol de Giuseppe Signori, quando o jovem Francesco Totti sofreu pênalti nos minutos finais. Giuseppe Giannini cobrou e Marchegiani garantiu a vitória, voando para o canto direito.
A primeira conquista veio em 1997/98, título da Copa Itália sobre o Milan. Aí veio uma sequência: Supercopa Italiana 1998 e 2000, Campeonato Italiano 99/00, Copa Itália 2000, Copa dos Campeões de Copas 1999 e Supercopa Europeia 1999. Sete títulos em três anos.
Foi a partir da temporada 2000/01 que Marchegiani, aos 34 anos, começou a perder espaço na Lazio, sendo substituído por Angelo Peruzzi. Em 2003, deixou o clube como o quinto jogador que mais vezes vestiu a camisa azul e branca na história (339 partidas, contra 401 do líder Giuseppe Favalli), passando dois anos no Chievo até encerrar a carreira aos 39 anos. Hoje é comentarista do canal Sky Sport.
Características de jogo e Azzurra
Marchegiani dominava plenamente um fundamento pouco destacado: o comando da defesa. Com ele na meta, raros eram os momentos de desatenção da zaga, transmitindo sempre segurança. Além disso, possuía grande senso de posicionamento e apurado reflexo. Saídas de gol eram sua maior deficiência.
Pela seleção, disputou apenas nove partidas, mas importantes. Estreou em 1992, quando ainda defendia o Torino, convocado por Arrigo Sacchi para ser o “novo Walter Zenga”. Na primeira partida das Eliminatórias da Copa de 1994, Marchegiani foi muito mal no empate em casa diante da Suíça, o que acabou diminuindo seu espaço na Nacionale.
Foi convocado para o Mundial nos Estados Unidos, jogando três partidas, depois que Gianluca Pagliuca foi expulso no segundo duelo, atuando contra Noruega, México e Nigéria.
Uma boa dica para um goleiro contratado pela Lazio é fazer como Federico Marchetti há algumas semanas: afirmar que sua referência na posição é Marchegiani, trazendo o torcedor para o seu lado. Mas a responsabilidade de substituir o goleiro biancocelesti mais vitorioso da história é pra lá de grande.