Longa vida ao lorde da Catalunha

Ontem, apostei aqui mesmo que Guardiola e Mourinho se enfrentariam por Barcelona e Real, pelo menos por mais uma temporada. Apenas mais um palpite furado vindo de alguém que proclamou Cristiano Ronaldo e companhia como campeões da Europa após o segundo gol contra o Bayern. Apesar do treinador ter dado vários indícios de que sairia a qualquer momento (suas renovações eram por uma temporada e ele já havia declarado que vê o ciclo de um técnico de futebol como sendo de quatro anos), sempre tive a impressão de que o veria ainda por muito tempo no clube, consagrando de vez sua imagem como bandeira blaugraná e catalã. Afinal, como disse certa vez o Mourinho, “não existe técnico melhor para o Barcelona”. Se bem que, vindo dele, não dá para saber quanto disso é xingamento e quanto é elogio.

Pep chegou à equipe principal do Barça com um currículo bem modesto para quem assume cargo tão importante. Teve grande passagem pelo Barcelona B, onde o resultado não era o mais importante, mas sim o método. E, pouco a pouco, levou essa filosofia, bem como alguns de seus pupilos, para o time de cima. Como escudo, o profundo respeito de todos envolvidos com o clube, pois já tivera história marcante como jogador no clube onde foi formado. E não é como se ele tivesse a chance de  imprimir o seu estilo logo de cara. Em seu primeiro ano, já foi campeão espanhol e da Champions League, mas os oriundos das famosas canteras de La Masia eram coadjuvantes dos consagrados Thierry Henry e Samuel Eto'o. A exceção era ele, Lionel Messi, já em franca ascensão.

Com a saída dos medalhões, Guardiola montou o time em torno do argentino, que assumiu a (agora popular) função de falso nove e, por tabela, o posto de melhor jogador do planeta. Xavi e Iniesta, que pareciam estagnados, ganharam grande importância e formaram junto com Búsquets, um daqueles pinçados no Barça B, o meio-campo mais forte e entrosado do mundo. Algo que se refletiu também na seleção espanhola, que, com o acréscimo de Xabi Alonso e mesmo sem jogadores mais agudos como Messi e Daniel Alves, deixou o estigma de amarelona de lado para conquistar a Europa e o mundo. É verdade que muito do mérito de Pep tenha vindo da maravilhosa geração que teve em mãos, mas é tolice ignorar o fato de que foi ele quem descobriu a forma certa de aproveitar o melhor do talento de cada um.

O esquadrão de Guardiola uniu o que há de mais nobre no barcelonismo, o apreço pelos valores formados em casa, e aplicava com sucesso o legado das passagens de Cruijff como jogador e treinador, gerando um time não só muito eficiente, mas que também joga o futebol mais bonito do mundo. Nos bastidores, o Barça não é nenhum exemplo de limpeza, como prova a presença de alguém como Sandro Rosell na presidência, mas em campo, nada poderia ser mais puro e cristalino que a supremacia do tiki taka catalão. Foram 13 títulos em 18 disputados, algo que poucos considerariam possível no futebol contemporâneo. E a conta pode aumentar para 14 em 19, caso o Barcelona supere o Athletic Bilbao na final da Copa do Rei, partida que marcará a despedida de Pep.

O treinador se destacou também pelo seu comportamento. Muito confundida com um comportamento politicamente correto e cuidadosamente pensado, sua elegância evitou que a briga pelo topo do futebol espanhol se tornasse uma verdadeira briga de feira. No fundo, Guardiola é tão autoconfiante quanto Mourinho, mas evitava as provocações e as reclamações sobre arbitragem, respondendo-as de forma muito sutil. Era o que acontecia quando o Barcelona vencia no Bernabéu e o técnico culé aproveitava os minutos finais para colocar em campo um moleque saído da base (e cada vez parecia que entrava um mais novo). Nas entrelinhas, a mensagem era a seguinte: “De onde saíram esses que lhe dão tanta dor de cabeça, ainda tem muito mais”.

Rosell promete que o Barcelona dará prosseguimento à filosofia consagrada por Pep. Não será nada fácil. Tito Vilanova, atual auxiliar, assumirá o cargo e talvez não tenha a mesma segurança e liberdade para seguir apostando em nomes como Thiago, Cuenca e Tello, que ainda precisam se firmar. Se os resultados forem piorando, a presença de jogadores revelados pelas canteras tende a diminuir. Guardiola deverá tirar um ano sabático e depois escolherá em qual das tantas portas escancaradas para ele entrar. Seja qual for seu destino, será complicado montar um time ao seu estilo, umbilicalmente ligado ao que se passa na base do Barcelona, a popular “balela do Andrés”. É provável que clube e ídolo passem por tempos de provação. É o preço que pagam todos aqueles que entram para a história sem sair da vida. 

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Equipe Trivela

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