Lille: rumo ao tri

 

Por Rodolfo Zavati

Considerado um dos campeonatos mais equilibrados da Europa, a liga francesa conheceu 29 campeões diferentes desde sua primeira encarnação, na temporada 1893/94. Os maiores vencedores (Olympique de Marseille e Saint-Étienne) possuem apenas dez títulos cada, num contraste evidente com as outras primeiras divisões européias. Numa comparação com os recordistas de seus vizinhos, vemos que Liverpool/Manchester United e Bayern conquistaram, respectivamente, 18 e 21 taças em seus campeonatos, por exemplo.

O revezamento de forças entre os clubes franceses foi ofuscado recentemente, com o Olympique Lyonnais construindo uma hegemonia que lhe rendeu todos os sete campeonatos decididos entre 2002 e 2008. A perda de fôlego do Lyon nas últimas temporadas permitiu que Bordeaux e OM sentissem novamente o gosto de um título nacional – momento que agora pode estar nas mãos de um clube do norte francês que busca quebrar um jejum que dura desde 1954. Líder com quatro pontos de vantagem, o Lille tem mais nove rodadas para suportar a pressão de Marseille e Rennes e, finalmente, soltar um grito preso por mais de 55 anos.

História curta

O Lille Olympique Sporting Club (daí a sigla LOSC) é um clube jovem para os padrões europeus e suas equipes centenárias. Foi formado em setembro de 1944, em plena Segunda Guerra Mundial, numa fusão entre dois tradicionais times da cidade de Lille, na fronteira com a Bélgica: o Olympique Lillois e o Sporting Fives. Ambos eram membros fundadores da liga profissional francesa; o Lillois, inclusive, foi seu primeiro campeão da era profissional, na temporada 1932-33. A união vinha sendo negociada pelas equipes desde 1939, ano em que o futebol francês foi paralisado devido ao início dos confrontos na Europa.

O futebol profissional estava proibido na França de Vichy (nome dado ao Estado fantoche francês no período em que era regido pela influência da Alemanha nazista) e os clubes eram obrigados a disputar ligas amadoras para se manterem na ativa. Com o fim dos combates e da paralisação do campeonato francês, o novíssimo time já mostrou forças logo em sua primeira temporada (também a primeira do pós-guerra), vencendo não só o Campeonato Francês como também a Copa da França – título que conquistaria novamente nos dois anos seguintes. Firme no seu status de grande, o LOSC ainda triunfaria em mais duas Copas (1953 e 1955) e outra Liga (1954) antes de iniciar seu declínio, em 1956, com o primeiro rebaixamento. Desde então, o Lille, que nasceu grande, se tornou um time iô-iô, alternado boas campanhas e rebaixamentos por décadas.

Um fato curioso é que uma espécie de virada de mesa pode ter salvado a equipe do provável ostracismo. Era 1969 e o LOSC patinava nas divisões amadoras quando a Federação Francesa resolveu então dar seu “jeitinho”. Numa canetada dos cartolas, a equipe lilloise foi alçada automaticamente à segunda divisão, mesmo terminando a temporada em décimo – resultado insuficiente para o acesso. Em 1978, após mais um retorno vindo da Ligue 2, o Lille finalmente conseguiu se firmar outra vez, passando 19 temporadas seguidas na primeira divisão até cair novamente, em 1997. Porém, a equipe limitou-se a exercer papel de coadjuvante durante o período, jamais se aproximando de sequer postular um título.

Novos tempos

O cenário começou a mudar quando Michel Seydoux, empresário e produtor de cinema, passou a investir no time progressivamente até adquirir o controle majoritário e se tornar presidente, em 2004. Dali em diante, o LOSC mantem-se como um dos mais regulares clubes da França, sempre fazendo boas campanhas que o transformaram num frequentador habitual das copas européias – incluindo uma ótima campanha na Champions League 2006-07, quando passou da fase de grupos e vendeu caro a eliminação para o Milan, nas oitavas.

Apesar do desempenho louvável nos anos recentes, o título nunca esteve tão próximo quanto agora. A equipe perdeu apenas três dos 29 jogos que disputou até o momento e lidera com folga em número de gols marcados. O ataque positivo, aliás, traduz uma mudança de mentalidade comandada pelo técnico Rudi Garcia. Ex-jogador do clube nos anos 80, Garcia transformou uma equipe conhecida por apresentar um futebol pragmático e defensivo (características de Claude Puel, treinador entre 2002 e 2008) num time com alto poder de fogo.

O elenco que poderá ser campeão e quebrar o jejum que dura desde 1954 não possui estrelas, mas vários bons jogadores se destacam. Na defesa, o nome mais promissor é o do zagueiro Rami, titular da renovada seleção francesa e já negociado com o Valencia para a próxima temporada. Na frente, os gols ficam por conta da dupla Moussa Sow (senegalês, artilheiro do campeonato) e Gervais “Gervinho” Kouassi (marfinense), alimentados pelas assistências do meia belga Eden Hazard. Aos 20 anos, o pequenino Hazard talvez seja o grande postulante a craque da equipe, justificando a recomendação que Zinedine Zidane teria feito ao Real Madrid sobre sua futura compra.

Quatro pontos separam a equipe do norte francês do Marseille, seu mais próximo perseguidor. Dos nove jogos restantes, o Lille jogará quatro deles em seus domínios. Domínios que, aliás, mudarão em breve. O Grand Stade Lille Metrópole, uma moderna arena com capacidade para 50 mil pessoas e que será construída para a Euro-16, será inaugurada no próximo ano e utilizada pelo time a partir de então.

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