Lilian Thuram: defensor nato
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Por Junior Lourenço
Recordista, campeão e politizado. Atributos que não costumam se combinar entre jogadores de futebol. Poucos são os que conseguem levar para fora dos gramados a inteligência que tinham dentro dele. E Lilian Thuram era um deles. Um grande defensor de futebol e de causas sociais.
Nascido em Guadalupe, território francês que fica no Caribe, começou sua carreira como lateral-direito do Monaco, em 1991. Em cinco temporadas, jogou quase duzentas partidas, alta média de exibições por ano que permaneceria nos clubes seguintes. A transferência para o futebol italiano foi a ascenção de uma carreira meteórica.
No Parma, fez enorme sucesso. Construiu seu nome no futebol europeu, o que lhe rendeu mais convocações para a seleção francesa. Era parte de um time que contava com Gianluigi Buffon e Fabio Cannavaro e venceu a Copa de Uefa da temporada 98/99. Em 97 ganhou o prêmio de melhor jogador estrangeiro do Calcio e pela France Football, o de melhor jogador francês. Valorizado, Thuram foi vendido por 34,4 milhões de euros à então campeã italiana Juventus, assim como seus companheiros Buffon e Cannavaro.
A Juve treinada por Marcelo Lippi viveu grandes momentos. Talentosos jogadores e um forte esquema defensivo levaram o clube de Turim à quatro títulos italianos. Entretanto, todo esse sucesso viria abaixo em 2006 com o escândalo Calciopoli, onde investigações revelaram relacionamento entre dirigentes de alguns clubes e a associação de arbitragem. Milan, Fiorentina, Lazio e Reggina estavam entre os envolvidos, mas foi o clube bianconero que sofreu a maior punição. Campeã do Scudetto, teve seus dois troféus anteriores cassados e foi relegada à série B, começando o torneio com nove pontos negativos. A crise técnica e financeira resultou na dissolução do elenco e entre os vários jogadores que saíram estava Lilian Thuram.
Rumou para o então campeão europeu Barcelona, de Ronaldinho e Messi. Lá, ficou apenas duas temporadas antes de encerrar a carreira aos 36 anos, devido à um problema no coração. Esse mesmo problema tirou a vida de seu irmão, alguns anos antes.
Allez les bleus
Em uma trajetória que durou quatorze anos, Thuram é o jogador que mais vezes vestiu o uniforme francês. Foram 142 jogos, mesmo número de Cafú com a camisa a amarela. Convocado desde 1994, esteve no grupo semifinalista da Eurocopa de 96, quando a França perdeu nos pênaltis para a República Tcheca. Dois anos depois foi titular na Copa em que os franceses sediaram.
Fez apenas dois gols com a camisa azul. E que gols. Quantos atacantes não sonham em balançar as redes numa semifinal de Copa? Foi nesse cenário que o defensor Thuram o fez. Na Copa de 98, a França perdia por 1 a 0 para a sensação Croácia, no Parc des Princes em Paris. Thuram marcou duas e vezes e o país-sede classificou-se à final.A decisão aliás, é mais que conhecida para os brasileiros. O categórico placar de três a zero contra o Brasil deu o inédito título de campeão mundial aos franceses. Além dos gols na semifinal, ganhou a bola de bronze, prêmio ao terceiro melhor jogador do torneio.
A geração mais vitoriosa do futebol francês não parou por aí. Em 2000, o título da Eurocopa consolidou a força daquela seleção, criando expectativa ainda maior para as atuações na Copa de 2002. Entretanto, o que se viu foi fiasco após fiasco. Eliminada na primeira fase, sem marcar sequer um gol, a França daquele ano se tornou uma das maiores decepções em Copas do Mundo. Na célebre derrota para Senegal, Thuram viu o gol da seleção africana ser construído do seu lado direito, mas nada pode fazer. Pouco depois veio a Euro 2004 e com ela, uma eliminação preconce diante dos gregos que só não foi mais grave pois os helênicos seguiram firmes até o título.
Thuram optou pela aposentadoria dos Bleus. Um ano antes da Copa de 2006, o treinador Raymond Domenech conseguiu convencê-lo a voltar, junto com Zidane e Makélélé. Apesar de veterano, brilhou. Vice-campeão, foi eleito um dos melhores zagueiros do Mundial. Abandonou de vez a seleção pouco depois da Euro 2008, quando se tornou recordista de jogos do torneio (16), ao lado do goleiro holandês Edwin Van Der Sar.
Politizado e atuante
Thuram não limita sua influência aos gramados. Já esteve envolvido em várias frentes, como manifestar-se contra o então Primeiro Ministro do Interior, Nikolay Sarkozy (atual presidente francês). O jogador mostrou-se contra algumas declarações e atitudes de Sarkozy, como criticar a juventude do país.
Durante os tempos de Barcelona, também foi partidário da causa catalã. Enviou manifestos em defesa ao idioma local, com a parceria de Oleguer, companheiro de Barcelona. Também era favorável à independência de Roussillon, território considerado francês, ao norte da Catalunha.
É idealizador da Lilian Thuram Foundation, que hoje propõe disseminar educação anti-racismo através de eventos, esportes e escolas. Também trabalha na Organização Internacional de Anemia Falciforme e é conselheiro do Alta Comissão de Integração dos Imigrantes. Escreveu o livro “Minhas estrelas negras: de Lucy à Barack Obama (título original é Mes étoilles noires, de Lucy à Barack Obama)”. Como se não fosse o bastante, ingressou ao conselho da Federação Francesa de Futebol, onde também trabalha como organizador da Euro 2016, sediada pela França.
Thuram já consquistou muita coisa no futebol. Mas fora dele, ainda tem muito trabalho pela frente.