Liedson A Minha História

Você mora num bairro pobre de uma cidade a três horas da capital do estado. Tem 22 anos. Já trabalhou como ajudante de pedreiro, mecânico, empacotador de compras e porteiro. Nos domingos, é centroavante de um time amador que disputa o torneio intermunicipal. Oito anos depois, você está num lugar cheio, onde as pessoas cantam “Ele veio do supermercado, ele é um bom empregado”. Não, você não foi eleito funcionário padrão de sua nova firma. Essa musiquinha foi inventada, na verdade, pelos adeptos de um grande clube, do qual você é ídolo. O tal lugar é um estádio europeu. Sonho?
Não. Essa é a história de Liedson, desde 2003 ligado ao Sporting, ex-atacante do Coritiba, do Flamengo e do Corinthians. Seu percurso singular atraiu o jornalista português João Almeida Moreira, do diário Record. Decidido a escrever uma biografia, ele viajou para Valença, na Bahia, a fim de colher pormenores da infância do “Levezinho” (os 63 quilos justificam o apelido), com quem conversou várias vezes. O resultado foi um texto dividido em 31 capítulos que conta a vida do camisa 31 do Sporting em ordem cronológica.
A narrativa usa a primeira pessoa, apesar de não ter sido produzida por Liedson. A estratégia simplifica os relatos e ajuda a dar apelo comercial ao livro, mas, inevitavelmente, subtrai uma parcela de autenticidade, ainda que pequena. Para minimizar esses efeitos e tentar ser fiel aos depoimentos de Liedson, o autor manteve alguns termos desconhecidos para os portugueses, traduzindo-os por meio de notas de pé de página. “Picolé”, “zaga” e “carona” foram algumas das palavras que exigiram esclarecimentos para os leitores lusitanos.
São eles, os fãs de futebol em Portugal, os principais alvos da obra, portanto é natural que dois terços dela se dediquem à fase européia da vida de Liedson. No entanto, a importância da passagem por grandes clubes do Brasil fica evidente quando o jogador escala uma seleção com os jogadores que atuaram a seu lado: um deles foi seu companheiro no Corinthians e também no Sporting, quatro jogaram com ele apenas no Corinthians e um outro defendeu o Flamengo. O próprio Liedson é o centroavante do time, comandado por Geninho.
Nos capítulos que falam sobre a trajetória do atacante no clube lisboeta, o tempo passa lentamente, quase jogo a jogo. Presume-se que os leitores guardam lembranças frescas das partidas mencionadas, por isso o co-autor Liedson pode compartilhar com eles as emoções que experimentou. Nunca é bom fazer generalizações, mas a verdade é que, no Brasil, dificilmente um livro assim funcionaria. Não por acaso, existem pouquíssimos desse tipo. A torcida do Flamengo, por exemplo, tirando aqueles que lêem a Trivela e mais uns poucos, provavelmente não se recorda da tarde em que Liedson perdeu um gol feito contra o Cruzeiro, em 2002. Tarde, aliás, citada na biografia.
Há no livro muitos detalhes acerca da vida pessoal do jogador – da origem do estranho nome à falsa gravidez de uma ex-namorada, passando pelos amigos de Valença e pelas bebedeiras do pai. Sua evolução salarial também é registrada com riqueza de minúcias. Dos míseros reais que auferia como empacotador aos milhares de euros do atual contrato com o Sporting foi um pulo. O ingresso tardio de Liedson no futebol profissional e sua guinada rumo à fama nos fazem pensar em quantos potenciais craques não estarão perdidos nos confins do Brasil, jogando peladas enquanto o impiedoso tempo passa.
Se o tempo é impiedoso, melhor gastá-lo de forma agradável. A leitura de “Liedson – Minha História” não é o melhor passatempo do mundo, mas é leve como o artilheiro baiano. E resolve.
FICHA
Liedson – A Minha História
Autor: João Almeida Moreira
Ano da publicação: 2006
231 páginas
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