Liechtenstein: História que virou filme

“A piada da Europa”. Este foi o título estampado no diário português “A Bola” no dia 10 de outubro de 2004. Um dia antes, a equipe do então técnico Luiz Felipe Scolari empatou em 2 a 2 com a considerada fraca seleção do Liechtenstein, em Vaduz. Já o site da Fifa, anos mais tarde, trouxe a matéria “The mouse that roared” (O rato que rugiu) em referência à enorme diferença de qualidade entre o time de Cristiano Ronaldo e cia. e um conhecido saco de pancadas do continente. Para os liechtensteinenses, entretanto, essa pode ser classificada como a maior glória futebolística do país.

Liechtenstein é um principado localizado no centro da Europa, em meio aos Alpes suíços e austríacos, com uma população de pouco mais de 34 mil habitantes e área de apenas 160 km². Como um característico pequeno país europeu, possui altos índices em todos os indicadores sociais (é o décimo segundo em IDH em todo o mundo, por exemplo), mas esse trunfo não pode ser levado em conta quando se trata de futebol.

Partidas oficiais somente em 1982

Fundada através dos primeiros quatro clubes do país, em 1934, a Confederação Liechtensteinense de Futebol (LFV) não conseguia sequer organizar um campeonato nacional pelo reduzido número de equipes dentro do país. Em 1954, 1958 e 1972 surgiram mais três times, porém ainda era impossível realizar um torneio com apenas sete participantes. A solução encontrada foi colocar todas as representações de Liechtenstein no campeonato da vizinha Suíça, onde até hoje jogam nas divisões inferiores.

A LFV, em 1974, finalmente afiliou-se à Fifa (142° membro), entretanto a primeira partida internacional oficial ocorreu apenas em 1982, na cidade de Balzers, no sul de Liechtenstein. A derrota para a Suíça por 1 a 0 marcou o início da busca por um futebol de melhor qualidade no país, e que deu resultado logo no segundo jogo oficial da equipe, vencida por 2 a 0 frente a um clube chinês, da capital Pequim.

No ano de 1985, sem entrar em acordo com a Fifa sobre a participação de alguns jovens jogadores na seleção principal, Liechtenstein ficou proibido de entrar nas maiores competições do continente, como as eliminatórias para a Eurocopa e Copa do Mundo. Em 1990, após seis anos de parada, o país voltou a participar de amistosos e somente iria estrear em um campeonato europeu nas Eliminatórias para a Euro 96.

Apenas seis vitórias em mais de 70 anos

Até hoje os liechtensteinenses somam 104 partidas, com 87 derrotas, onze empates e apenas seis vitórias, a maior delas em um 4 a 0 contra Luxemburgo fora de casa, em 2004. Entretanto a maior derrota, 11 a 1 em casa para a Macedônia, em 1996, chama mais atenção. Sem falar nos 8 a 0 a favor do Kaiserslautern, da Alemanha, na inauguração do Rheinpark Stadium, que tem capacidade para 6.000 torcedores, em julho de 1998.

A melhor participação de Liechtenstein em competições oficiais aconteceu nas últimas Eliminatórias para a Copa do Mundo, onde a equipe obteve duas vitórias contra Luxemburgo e dois empates, contra Portugal e Eslováquia. No Grupo 4 das Eliminatórias para a Copa de 2010, que reúne ainda Finlândia, Alemanha, Rússia, Azerbaijão e País de Gales, em três partidas somou apenas um ponto. O próximo jogo está marcado para o próximo dia 28 de março, contra a Alemanha, em Leipzig.

“Golden Player” sequer atuou pela seleção

Em 2003, ano em que a Uefa comemorou seus 50 anos, todos os países-membros da federação escolheram seu “Golden Player”, o melhor jogador dos últimos 50 anos. Liechtenstein nomeou Rainer Hasler, ponta-direita que atuou nas décadas de 1970-80 em vários clubes da Suíça, onde marcou história. Entretanto Hasler não disputou uma única partida pelo seu país. Os técnicos das equipes pelas quais passou eram totalmente céticos com relação à estrutura organizacional da LFV.

Já Mario Frick, 34 anos e jogador do Siena, da Itália, pode estar no topo da lista de substitutos de Hasler. O atacante é o recordista de partidas com a camisa liechtensteinense (81) e, de quebra, o maior artilheiro da história da seleção, mesmo que com míseros 13 gols. Sem contar que Frick abriu caminho para a primeira vitória de seus país em competições oficiais, em 1998, na vitória de 2 a 1 contra o Azerbaijão.

Os mais “novos” candidatos a ídolo da torcida liechtensteinense são Franz Burgmeier (26 anos) e Thomas Beck (28), com sete e cinco gols anotados, respectivamente. Mas tanto Frick quanto Beck e Burgmeier dificilmente conseguirão arrancar o rótulo de saco de pancadas deste pequeno principado do centro europeu.

Campanha da seleção vira filme

A curiosa história da seleção de Liechtenstein virou obra cinematográfica na primeira metade de 2008. Uma produtora alemã seguiu a equipe durante toda a campanha nas Eliminatórias da Eurocopa de 2008, onde colheu depoimentos do presidente da LFV, Reinhard Walser do atual técnico, Hans-Peter Zaugg e de jogadores para explicarem o sonho de participar da fase final da competição.

O documentário chamado “The Mouse that Scored” (algo como “O Rato que Marcou”) mostra a força de vontade desses profissionais em ir além nas competições internacionais, mesmo com a certeza de que seu nível técnico ainda é muito inferior ao das outras seleções. No final, Liechtenstein ficou longe da classificação à Euro do ano passado, mas a luta continua, por mais trabalhosa que seja.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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