Leicester: O bom filho à casa torna

Imagine um consórcio liderado por Zico comprando um Flamengo à beira da Falência. Ou Falcão reunindo um grupo de empresários locais para evitar que o Internacional feche as portas. Bem, é isso o que está acontecendo em Leicester, onde o astro Gary Lineker aparece como a melhor chance de evitar que o time local encerre suas atividades.

Embora Lineker não tenha jogado pelos 'Foxes' (raposas) no auge de sua carreira, foi lá que ele fez sua estréia como profissional, em 1979. O atacante passou seis anos na equipe, antes de ser vendido para o Everton, por um valor um pouco superior a US$ 1 milhão. Lineker nasceu em Leicester e passou toda a juventude na cidade, naturalmente adotando a equipe local como seu time do coração.

E foi isso que motivou o ex-atacante a formar, acompanhado por um grupo de empresários da região, um consórcio para comprar o Leicester City, clube que se encontra à beira da falência. O grupo ainda não conseguiu levantar o dinheiro necessário para fazer uma oferta oficial (US$ 7,8 milhões), mas conseguiu várias contribuições, totalizando um valor que já supera os US$ 6 milhões.

Durante toda sua carreira, Lineker cultivou a imagem de bom moço. Bonito e elegante (foi eleito diversas vezes o jogador mais sexy da Inglaterra), nunca levou sequer um cartão amarelo, em 15 anos atuando como profissional. Depois da aposentadoria, virou garoto-propaganda e comentarista de TV, acumulando uma razoável fortuna. O esforço para salvar da bancarrota seu clube do coração – inclusive colocando dinheiro do próprio bolso – só colabora para melhorar ainda mais sua imagem, até porque o objetivo de Lineker realmente parece ser mais emotivo que financeiro.

A vida das 'Raposas'

O Leicester City pode ser descrito como um típico 'time ioiô'. Ao longo de sua história, a equipe foi promovida ou rebaixada da primeira divisão um total de 20 vezes, número superado na Inglaterra apenas pelo Manchester City (21 vezes).

O clube foi fundado em 1884, então com o nome de Leicester Fosse. À época, Leicester ainda não tinha o status de cidade, e o nome veio da rua onde se situava a primeira sede do time. Por sete anos, o Leicester foi nômade, até que em 1891 construiu seu próprio estádio, em Filbert Street, onde mandaria seus jogos por mais de um século. Em 1894, a equipe foi admitida na segunda divisão da Liga Inglesa e em 1908 chegou à primeira divisão, iniciando o sobe-e-desce que marcaria toda a vida do clube.

Curiosamente, esta não é a primeira vez que os Foxes passam por problemas financeiros. Devido à Primeira Guerra Mundial, o Leicester Fosse se afundou em dívidas e acabou fechando as portas em 1919. Imediatamente, fundou-se uma nova equipe, batizada de Leicester City, em homenagem à cidade, que acabara de emancipar-se oficialmente.

De meados dos anos 50 até o final da década de 60, o clube teve seu melhor período. Nessa época, a equipe conseguiu sua mais longa estada ininterrupta na primeira divisão (12 anos) e alcançou três vezes a final da copa da Inglaterra (FA Cup), a qual, no entanto, nunca venceu. Ganhou uma vez a copa da liga inglesa (League Cup), o primeiro título de alto nível na história da equipe. Também nos anos 60, o Leicester jogou pela primeira vez uma competição internacional, a Recopa, sendo eliminado na segunda fase pelo Atlético de Madrid.

O início do fim?

Outro período bom na história do clube se deu na segunda metade da década de 90, após a chegada do técnico Martin O'Neill. Sob seu comando, o Leicester voltou à primeira divisão, terminando o campeonato inglês entre os dez primeiros colocados por quatro vezes seguidas. Além disso, o clube venceu duas vezes a League Cup. Junto com a conquista de 1964, são os únicos títulos de 'primeiro escalão' da história dos Foxes.

A queda começou em 2000, quando O'Neill deixou a equipe para comandar o Celtic, da Escócia. Embora tenha alcançado relativo sucesso na temporada 2000/1, no campeonato seguinte o Leicester foi rebaixado, e foi aí que os problemas financeiros começaram a ameaçar a existência do clube.

Estima-se que hoje as dívidas do Leicester sejam da ordem de US$ 47 milhões. O que pesou fortemente para a criação desse déficit foi a construção de um novo estádio, cujo timing não poderia ter sido pior: o modero Walkers Stadium (custo: US$ 55 milhões) ficou pronto exatamente no ano em que o time foi rebaixado para a segundona. Some-se a isso o colapso da ITV, que deixou os times da Football League sem uma importante fonte de renda, e o esfriamento do mercado de transferências, que impede o Leicester de levantar dinheiro por meio da venda de jogadores, e fica clara a gravidade da situação atual.

Acossada por credores, a diretoria do Leicester não teve outra opção a não ser pedir concordata, em outubro. Pelas leis inglesas, a concordata evita que a empresa tenha sua falência pedida por credores, mas também a obriga a submeter-se a um grupo de administradores externos, que têm por objetivo reestruturar as finanças e, se possível, encontrar um comprador para a companhia. É por esse processo que passa o Leicester hoje.

A situação do clube é precária, e o risco de falência (no caso dos administradores externos concluírem ser impossível equilibrar as finanças) é considerável. Para aliviar um pouco a situação, 30 funcionários da área administrativa foram demitidos, e os jogadores concordaram em adiar até o fim da temporada o recebimento de parte de seus salários.

Há esperanças? Sim, é claro. O consórcio liderado por Lineker é uma delas. Com os US$ 8 milhões que o grupo injetará se confirmar a compra do clube, o Leicester ganharia novo fôlego para sobreviver. Outro ponto positivo é a boa campanha que a equipe faz na segunda divisão, apesar dos problemas extra-campo. Se subir para a Premier League, a receita aumentará sensivelmente, e as chances de salvação serão boas. Se não, as 'Raposas' estarão à beira da extinção.

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