Leicester City – A gangorra quebrou

Fevereiro de 2000. No suntuoso estádio de Wembley, uma maré azul foi ao delírio nas arquibancadas desse que é um dos maiores templos do futebol. Com dois gols de Matt Elliot, o Leicester City sagrava-se, pela terceira vez em sua história – e pela segunda em quatro anos – campeão da Copa da Liga Inglesa.
Maio de 2008. Oito anos depois de seu último momento de glória, os Foxes, jogando em casa e precisando vencer, esbarram no Stoke City, empatando em 0 a 0. Se o rival daquela tarde pôde comemorar o retorno à elite inglesa depois de 23 anos, o Leicester sofreu com o exato oposto. Pela primeira vez em seus 124 anos de história, o time foi rebaixado para a terceira divisão (League One).
O City é uma verdadeira gangorra futebolística. Dificilmente permanece na elite ou mesmo na segundona. Vivendo a maior crise de sua história, devido à redução de recursos televisivos, à construção sem propósito de um novo estádio e conseqüente perda de seus principais jogadores, os torcedores viram a equipe ir praticamente ao fundo do poço.
Sobe-desce desde o começo
O Leicester foi fundado em 1884 com o nome de Leicester Fosse, pelo fato de jogar em Fosse Road na ocasião. Seis anos depois, filiou-se enfim na FA e, em 1894, depois de sagrar-se vice-campeão da Midland League, avançou à Division Two, antiga segunda divisão inglesa. Começava ali o efeito gangorra que marcou os Foxes ao longo da história, com seguidas promoções e quedas.
A mudança de nome veio em 1919, com o término da Primeira Guerra Mundial, aliada ao status de City (para os ingleses, cidade grande), precedendo um dos momentos mais vitoriosos do clube. Liderados pelo treinador Peter Hodge e pelo artilheiro Arthur Chandler, o Leicester conquistou, em 1925, seu primeiro título da segundona e, em 1929, realizou a melhor campanha de sua história na elite até hoje, ficando com o vice-campeonato.
Raras glórias
Depois de um século no anonimato, com freqüentes acessos e rebaixamentos, os anos 50 marcaram o princípio de uma fase animadora, a começar pela fantástica campanha na FA Cup de 1949, quando os Foxes atingiram a decisão do torneio, caindo diante do Wolves. No final da década, em 1957, com mais um retorno à elite, a equipe viveu seu maior período dentre os melhores da Inglaterra, permanecendo lá até 1969.
Nesse meio tempo, o treinador Matt Gilles começou a fazer história no comando do clube. Além de segurar o time na elite por 12 anos ininterruptos, alcançou por duas vezes (1961 e 1963) a decisão da FA Cup, sendo que, na primeira ocasião, levou o Leicester pela primeira vez a participar de uma competição internacional – a extinta Copa dos Vencedores de Copas da Europa. A vaga veio pelo fato do então campeão da FA Cup, o Tottenham, já estar classificado para a Liga dos Campeões por ser campeão inglês daquele momento.
Mas foi em 1964 que, enfim, os torcedores dos Foxes puderam enfim comemorar um título de maior autoridade. Em um duro confronto contra o Stoke City, uma vitória por 4 a 3 no placar geral deu ao Leicester o título da Copa da Liga Inglesa, torneio que o clube viria a vencer outras duas vezes. No ano seguinte, em 1965, voltaria a alcançar a decisão, ficando com o vice-campeonato.
Mas, tal como diz o ditado, “O que é bom, dura pouco” – e ainda menos quando se trata dos Foxes. Com a saída de Gilles, após um começo de temporada não muito agradável, em 1968, o clube não resistiu, voltando à rotina de gangorra.
Esperança nos pés de Lineker
No final dos anos 78, iniciou a carreira no Leicester um dos maiores jogadores ingleses da história, e principal motivo pela resistência azul na elite inglesa no começo da década de 80. Trata-se de Gary Winston Lineker.
O inglês, referência da seleção da rainha nas copas de 1986 (sim, aquela em que os britânicos sofreram o histórico gol da “Mão de Deus” de Maradona) e 1990, foi promovido pelo então treinador dos Foxes, Jock Wallace, ao time principal.
Rapidamente, assumiu a condição de craque do time, conduzindo a equipe de volta à elite em 1983 e, na temporada 1984-85, sagrando-se artilheiro da First Division, com 24 gols. Seu desempenho no Leicester levou-o a seleção inglesa, em 1984, de onde só sairia em 1992.
Novamente, a festa azul teria um final desagradável. Por 800 mil libras esterlinas, Lineker foi vendido em 1985 para o Everton, e, dois anos depois, o City voltou a figurar na segundona. Nesse período, iniciou-se também a primeira grande fase negra do clube, que, além de não retornar em seguida ao rebaixamento, amargou sete anos na divisão de acesso.
Bi na Copa da Liga e fundo do poço
Em 1994, com uma vitória por 2 a 1 sobre o rival Derby Country, o Leicester pôde enfim alcançar a Premier League. Dali até 2001, os Foxes viveram um de seus momentos mais vitoriosos, conquistando, por duas vezes a Copa da Liga Inglesa, em 1997 e 2001, e ficando, por quatro anos consecutivos, entre os dez primeiros da elite. Com a boa fase, vieram participações na Copa da Uefa em duas oportunidades.
Dizem que, quanto maior o pulo, mais brusca é a queda. Não deu outra: de 2002 em diante, instalou-se no Leicester a crise mais amarga de sua história. Tudo começou quando a equipe, então rebaixada e com bem menos recursos televisivos do que o normal, mesmo com o ambiente desfavorável, inaugura o Walkers Stadium, sua nova casa.
O que era pra ser motivo de festa (e que de fato o foi, em seu princípio), virou um elefante branco, que custou 37 milhões de libras esterlinas aos cofres da equipe e foi bastante criticado pela mídia inglesa que acompanha o clube. E, para manter essa desnecessária despesa extra, a equipe teve que vender alguns de seus principais atletas até então, como Robbie Savage e Gary Rowett.
A situação ficava a cada dia mais crítica, a ponto do clube estar à beira de fechar as portas. As dívidas chegavam a mais de 30 milhões de libras esterlinas. Isso em outubro de 2002. Mas eis que o ídolo, mais uma vez, como em um conto de super-herói ou mesmo um seriado animado japonês, aparece na hora H.
Lineker salva, Mandaric complica
Com uma forte campanha, Gary Lineker, maior jogador da história dos Foxes, organizou um consórcio para comprar o clube e tira-lo da lama. Como um de seus investidores-membros, buscou também incentivar os moradores da região e empresas locais a participarem, alegando que a população não poderia deixar uma equipe de uma cidade tão grande morrer como estava ocorrendo.
Tal como desejava Lineker, que, em entrevista à BBC na ocasião, assumiu ser torcedor fanático do City, seu envolvimento foi reconhecido pelos torcedores, que, unidos pela causa, empenharam-se para tirar o clube do buraco. A notícia acalentadora veio em janeiro de 2003, quando os credores do Leicester aceitaram a negociação com Lineker e seu consórcio.
Em 2007, com o City ainda na Championship, um novo nome surge com a intenção de comprar o clube. Trata-se do milionário estadunidense, de origem sérvia, Milan Mandaric, ex-presidente do Portsmouth, que o faz com a expectativa de, em três anos e com novos investimentos, colocar os Foxes novamente na elite inglesa. O acerto foi concluído em fevereiro daquele ano.
Porém, a constante troca de técnicos promovida pelo sérvio, aliada a falta de resultados em campo, mostrou que a volta à elite em três anos não passava de um sonho. A realidade se mostrava um total pesadelo, selado em maio deste ano, com a inédita – e vergonhosa – queda dos Foxes para a terceirona.
Para piorar, Mandaric foi acusado, em novembro de 2007, de participar de um esquema de corrupção no futebol inglês, sendo indiciado juntamente com outros nomes, dentre eles o então treinador do Portsmouth, Harry Redknapp e o senegalês Amdy Faye, do Charlton, à ocasião, emprestado ao Rangers.
Dá para notar que o desenrolar do século XXI, principalmente a última temporada, estarão (infelizmente) na memória do apaixonado torcedor do Leicester. Cabe ver agora se o futuro não será o de um Nottingham Forest ou Leeds United, que hoje lutam, a duras penas e com poucos recursos, para voltar a dias melhores. Afinal, nem sempre Lineker estará vivo para dar uma nova esperança a esses torcedores.



