Kodro: o primeiro ídolo da Bósnia

Com possibilidades reais de ir à Copa do Mundo, a seleção da Bósnia se consolidou de vez como uma das que mais evoluíram nos últimos anos na Europa. Jogadores como Dzeko, Pjanic, Ibisevic e Misimovic brilham nas principais ligas europeias e formam uma excelente linha ofensiva, capaz de fazer o país, independente há apenas 17 anos e livre de guerras há 14, sonhar com voos mais altos. Mas nem sempre foi assim.

Na década de 90, os bósnios eram meros coadjuvantes de iugoslavos – hoje também separados entre sérvios e montenegrinos – e croatas, entre as repúblicas que se emanciparam da antiga Iugoslávia. Mesmo a Eslovênia, espécie de terceira força, conseguiu se classificar para o Mundial de 2002.

Um centroavante, porém, se destacava no futebol espanhol e, mesmo fazendo poucas partidas pela seleção bósnia, se consagrou como o primeiro ídolo futebolístico do país recém-criado. A participação de Meho Kodro no início dessa trajetória vai muito além dos 13 jogos e três gols marcados, ou mesmo da braçadeira de capitão que ostentou durante esse período.

Artilheiro, mas escondido

Nascido em Mostar, antiga Iugoslávia e atual capital da Herzegovina, Kodro começou a se destacar aos 18 anos, no Vélez Mostar, clube atualmente mediano na antiga Iugoslávia e que manteve o tamanho no novo país. Em seis temporadas, o atacante marcou 48 gols em 129 jogos. Alto e forte, usava seu 1.88m de altura para levar vantagem sobre os zagueiros na bola aérea, além de mostrar técnica com a bola nos pés e ser perigosíssimo nas cobranças de faltas e pênaltis.

O fato de se “esconder” em um clube de menor expressão não impediu que seu talento fosse visto no país. Ainda em 1991, antes da guerra estourar, o atacante chegou a disputar duas partidas pela seleção iugoslava, que tinha como base o então campeão do mundo Estrela Vermelha e contava, no ataque com Davor Suker. Com o início dos conflitos, Kodro preferiu imigrar e encontrou, curiosamente em outra área conflituosa, o lugar perfeito para desenvolver seu futebol.

Ídolo em San Sebastián

Aos 25 anos, Kodro desembarcava no País Basco, mais precisamente na cidade de San Sebastián. Era o novo reforço do Real Sociedad, e chegava sem muito alarde. Seus dois primeiros anos foram quase tão discretos quanto sua chegada, e o próprio centroavante admitiu que teve problemas para se concentrar no próprio trabalho enquanto muitos familiares e amigos continuavam vivendo em Mostar sob a mira de bombardeios diários.

A partir da temporada 1993/94, porém, tudo mudou. Aliando força e técnica, Kodro marcou 23 gols e ficou na terceira posição na tabela de artilheiros, atrás de Romário e Davor Suker, seu antigo concorrente na seleção iugoslava, que optou por defender a Croácia. No ano seguinte, mais 25 gols e a vice-artilharia da Liga, atrás apenas de Iván Zamorano, então no Real Madrid. O desempenho, obviamente, atraiu a atenção de clubes maiores, e a transferência para o Barcelona em 1995 foi inevitável.

Substituto de Romário

Após brilhar por duas temporadas no Real Sociedad, Kodro chegava em Barcelona com o aval do técnico Johan Cruijff e uma missão praticamente impossível pela frente: substituir Romário, então melhor jogador do mundo e recém-transferido para o Flamengo, no comando de ataque e, principalmente, no coração da torcida, que naquele ano também viu a saída de Hristo Stoitchkov, vendido ao Parma.

Como se não bastasse a sombra de Romário, a passagem de Kodro pela Catalunha foi marcada por algumas lesões e pelo desgaste de Cruijff com a diretoria, que culminou com a saída do holandês do cargo no final da temporada. Com a contratação de Ronaldo, o bósnio perdeu seu espaço na equipe e se mudou para o Tenerife em troca de Juan Antonio Pizzi, outro artilheiro que fracassou no Camp Nou.

Nas Ilhas Canárias, Kodro não repetiu o desempenho dos tempos de Real Sociedad e marcou apenas 18 gols em três temporadas. Em 1999, o centroavante transferiu-se para o Alavés, e no ano seguinte mudou-se para Israel, onde encerrou a carreira atuando pelo Maccabi Tel Aviv em 2002, aos 35 anos.

Após a aposentadoria, Kodro continuou ligado ao futebol, trabalhando como auxiliar-técnico de José Mari Bakero no próprio Real Sociedad em 2006. Em janeiro de 2008, o ex-centroavante assumiu o comando técnico da seleção da Bósnia como nome de consenso no país, mas foi demitido em maio, após um desentendimento com a federação por ter se recusado a disputar um amistoso contra o Irã.

Mesmo com o incidente, seu prestígio continua inabalável na Bósnia e, enquanto procura um novo emprego, Kodro pode desfrutar de um merecido período de descanso, sem a possibilidade de novas guerras. E com a certeza de que contribuiu muito para o grande salto de qualidade do futebol em seu país.

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Equipe Trivela

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