João Henrique, Muricy e o exagero do mistério

Na terça-feira, jantei com um pessoal do boxe. Pugilistas que estão começando e dois veteranos: o árbitro Antonio Bernardo e Edu Melo, promotor, ambos na faixa dos 70 anos. No final da noite, uma frase sensacional de Mello: “Boxe tem muita história. E quando acaba, a gente inventa outra”.

Uma das mais legais saiu quando Bernardo argumentou que, em 95% dos casos, é possível dizer qual lutador irá ganhar a luta no momento em que entram no ringue. Para ele, a luta é ganha pela preparação anterior (me perdoem o pleonasmo), pela concentração e por tudo o que aprenderam na vida. E deu um exemplo

“João Henrique perdeu três vezes a disputa do título mundial. Estava junto e sempre era possível saber disso. E um delas, contra Bruno Arcari, foi ainda mais fácil prever. Na madrugada da luta, ele foi até meu quarto e me chamou para passear. Não conseguia dormir e caminhamos por duas ou tres horas. Como ganharia uma luta 15 horas depois”.

Antes de fazer a ligação com o futebol, vamos lembrar de João Henrique, segundo Bernardo. “Como perdeu três vezes o título, ficou com fama de covarde. Diziam que no Brasil ele venceria. Um dia, aposentado, João Henrique viu um ônibus cair na estrada. Houve um incêndio. Ele desceu de seu carro e salvou três pessoas. Descia, colocava no ombro, subia o barranco e voltava. Na terceira vez, caiu morto. Havia sofrido hemorragia interna. Não percebeu porque era pugilista forte e a dor não o afetou. Morreu como um pugilista covarde e um herói como pessoa”.

Concordo com Bernardo em relação ao futebol. Cada vez mais acho que treinador tem pouca influência durante o jogo. O trabalho semanal, a correção de detalhes técnicos, o descanso, a força mental é que decidem o jogo. Não acredito no “estrategista” como Luxemburgo sempre foi chamado. Sou fã do Luxa, muito mais pelo conceito que implantou: volantes que saibam jogar do que por substituições que mudassem o jogo. Nunca acreditei na capacidade de Luxemburo em dar nós táticos no adversário.

Um exemplo famoso foi em uma partida contra o Corinthians, quando ele estava no Santos. Mandou o time entrar com 12 jogadores e não deu a explicação. A televisão mostrava Antonio Lopes, tecnico do Corinthians, à beira do campo, falando com seus jogadores, tentando adivinhar o que viria. Poucos minutos de iniciado o jogo, um atleta do Santos se contundiu. Saiu e foi substituído por Geílson, que fez o gol da vitória. Muita gente disse que foi um nó tático, que Luxa era um gênio. Mas, vejam bem, ele ganhou com um cara que Não entrou em campo. Qual a genialidade? Ele sabia que haveria contusão? Sabia que Geílson marcaria?

Acompanhei Telê por muito tempo e sei como ele dava atenção aos detalhes. Jogador treinava, treinava e treinava fundamento. Cafu sofria muito. Um dia, ao ser cobrado por errar tantos cruzamentos, gritou: “quero ver o senhor fazer”. Tele fez.   Acertou muitos seguidos. Ele sofreria muito, hoje, com Douglas e Piris.Ele colocava um cesto na parede e, com chutes de longe, tentava acertar as bolas. Acertava muito.

Telê não tinha genialidades, não fazia trocas mirabolantes. Queria lateral esquerdo com pé esquerdo, queria lateral direito com pé direito, coisa simples assim. Ficava louco com passes errados. Brigava para ter grama em bom estado. Proibia jornalista de entrar no gramado. Era perfeccionista.

Para mim, é isso o que ganha jogo.

Falo por causa da demora do Santos em escolher estádio em que enfrentará o Corinthians.

A escolha da Vila ou do Morumbi é importante. Pode até ser decisiva, pelo modo como o Santos joga, pelo modo como o Corinthians joga.

Só não entendo o porquê da demora em divulgar. Será que Tite perdeu um minuto de sono por não saber onde seria o jogo. Agora, já sabe que será na Vila. Tem uma semana para trabalhar. Muito mistério por nada.

Para mim, são dois técnicos detalhistas cujos times cometem poucos erros defensivos de posicionamento: escanteios, faltas, tuto é muito bem estudado.

Aí, empatam.

O que decidirá é a capacidade técnica de Neymar diante da aplicação e do equilíbrio corintiano. Se o Santos igualar esses quesitos, tem mais chance de vencer, porque o único craque em campo vestirá a sua camisa. 

O resto é disfarce exagerado.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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