Irlanda do Norte: desde os primórdios do futebol

Por Junior Lourenço
Conflitos políticos e territoriais fazem parte da história do continente europeu. Essas brigas internas, e por razões controversas, impactam diversas áreas da sociedade, inclusive o esporte. Carregada com tais polêmicas, há uma ilha perto do berço do futebol que, por esse motivo, sempre esteve presente em sua história.
Irlanda e Irlanda do Norte começaram juntas, mas se separaram no meio do caminho. E a parte de cima do território também tem sua parcela na memória do futebol.
Influente porém dividida
Apesar de ser um pequeno país – aproximadamente 1,7 milhão de pessoas – é notável a influência da Irlanda do Norte no jogo como conhecemos hoje. Fundada em 1880, a IFA (Irish Football Association) é a quarta federação mais antiga do mundo, perdendo apenas para seus vizinhos britânicos.
Curiosamente, algumas das duradouras regras que conhecemos foram sugeridas por membros da federação – a cobrança de pênalti, implantada em 1891; e o impedimento, em 1920.
Quando surgiu, a IFA (Irish Football Association) era responsável pelo futebol de toda a ilha, mas eventos políticos no começo do século passado transformaram o cenário. Após a divisão de território entre Irlanda e Irlanda do Norte, em 1920, os clubes de Dublin decidiram criar sua própria federação, a FAI (Football Association of Ireland).
De maneira mais tímida, a população local ainda apresenta divergências. Os “unificadores”, predominantemente protestantes, defendem que a Irlanda do Norte permaneça sob a bandeira do Reino Unido. Enquanto isso, os “nacionalistas”, em sua maioria católicos romanos, defendem uma junção política com a outra parte da Irlanda. Discórdia que já gerou muita violência interna, felizmente com notáveis sinais de melhoria após um acordo em 1998.
Essa divisão em 1920 culminou em uma crise de identidade, com reflexos no futebol. Nas décadas seguintes, as duas seleções jogavam com o nome de Irlanda mas sem disputar a mesma competição. A tardia filiação à FIFA já trouxe problemas no início. A federação norte-irlandesa escalou quatro jogadores que já haviam jogado pelos seus vizinhos do sul, em uma partida válida pelas eliminatórias da Copa de 1950. O resultado foi que a partir de 1953, a FIFA exigiu que as equipes fossem distinguidas, chamando-as de Irlanda do Norte e República da Irlanda.
Antes da filiação, a maior competição que a seleção jogava era a British Home Championship, desafiando Escócia, Inglaterra e País de Gales. Boas lembranças. A última edição foi vencida pelos Ulster – apelido da seleção – em 1984. Mas o âmbito internacional fez bem aos norte-irlandeses, que conquistariam resultados surpreendentes.
Pequenina porém recordista
Para quem gosta de curiosidades dos Mundiais, as campanhas da Irlanda do Norte são um prato cheio. Em apenas três participações, o país tem fatos marcantes.
Disputou as Copas de 58, 82 e 86. Chegou duas vezes à fase de quartas de final. Na primeira participação derrotaram a Tchecoslováquia e foram goleados pela França, por 4 a 0. Estabeleceram alguns recordes que duram até hoje: é a menor nação que se classificou para mais de uma edição das Copas, a marcar e também a vencer um jogo de Mundiais e a menor a ter chegado nas quartas. E só não é a menor em ter disputado o torneio, pois perdeu o recorde em 2006, com a classificação de Trinidad e Tobago.
Outro recorde é o de Norman Whiteside, que se tornou o jogador mais novo a atuar em uma partida de Copa do Mundo, com apenas 17 anos e 41 dias, em 1982. Essa marca pertencia simplesmente a Pelé, desde 1958. A campanha no Mundial de 82 aliás também merece registro. Além de outra classificação para as quartas, os norte-irlandeses venceram a Espanha, que sediou aquela edição.
O jogador que mais vezes vestiu a camisa verde foi o goleiro Pat Jennings. Com 119 aparições, também teve passagens duradouras por Tottenham e Arsenal, vencendo a Copa da Inglaterra com os dois rivais. Terminou a carreira internacional em uma derrota para a seleção brasileira por 3 a 0, na Copa de 86.
Atualmente
Nas eliminatórias para a África do Sul, a seleção caiu em uma difícil chave. Além das classificadas Eslováquia e Eslovênia, ainda enfrentaram as experientes Polônia e República Tcheca. Chegaram a sonhar com a vaga, mas terminaram em quarto lugar.
Disputam agora as eliminatórias da Eurocopa 2012, reencontrando os eslovenos, e concorrendo com as tradicionais Itália e Sérvia. Até aqui foram três jogos, uma vitória e dois empates. O primeiro de cada grupo e o segundo melhor vice tem classificação direta para o torneio, enquanto os outros vices vão para a repescagem.
O elenco tem alguns jogadores atuando na primeira divisão inglesa, como Chris Baird e Craig Cathcart, defensores de Fulham e Blackpool, respectivamente. O jovem meio-campista Oliver Norwood, do Manchester United, chamou a atenção nas eliminatórias do Europeu sub-19, em 2010.
Mas é David Healy o homem gol dos Ulsters. O atacante do Doncaster, com passagens por Leeds, Fulham e Sunderland, é o maior goleador da seleção em toda a história, marcando 35 vezes. Seus gols são a esperança do país – que tem como referência de ataque George Best, ex-jogador e craque do Manchester United – em conquistar novas chances de mostrar ao mundo sua tradição no futebol.



