Inter 100 anos: Preto, azul e dourado
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Completar cem anos é uma marca absolutamente expressiva. Atingir tal número com uma extensa lista de glórias, então, é para muito poucos. Neste sábado, a Internazionale de Milão adentra ao hall de clubes centenários, celebrando, também, o retorno ao topo das grandes competições. Após o bicampeonato italiano, os neroazzurri caminham a passos seguros para ampliar a seqüência, ainda que, possivelmente, dêem adeus à Liga dos Campeões na próxima terça-feira.
Os gloriosos cem anos da Internazionale têm, naturalmente, muita coisa pra contar. Grandes conquistas como o bicampeonato da Liga dos Campeões, craques de classe mundial como Giacinto Facchetti e, sobretudo, intermináveis histórias que fazem dos neroazzurri um dos clubes mais expressivos do planeta bola.
Surgimento, fascismo na Itália e consolidação
A Inter veio ao mundo com o objetivo de fazer frente ao Milan. Em 9 de março de 1908, um grupo de italianos e suíços se reuniu e definiu a criação neroazzurra, propondo que fossem aceitos jogadores estrangeiros – algo então visto como um tabu. O nome escolhido, naturalmente, só poderia ser Internazionale.
Bastaram dois anos para que o clube levantasse seu primeiro caneco expressivo. Em 1910, liderado por Virgilio Fossati, capitão e técnico, a Internazionale levou o scudetto. Anos depois, o jogador seria executado na 1ª Guerra Mundial.
As guerras, bastante inerentes nesse período histórico, tiveram sensível interferência na história interista. Em 1928, em decorrência da dominância do regime fascista, a Internazionale teve de se unir à Milanese Unione Sportiva, o que deu origem à Ambrosiana SS Milano. A então novidade fez inclusive com que o uniforme fosse alterado. O azul e preto, alusão ao céu e à noite, deram vez para uma camisa toda branca preenchida por uma cruz vermelha. O leitor mais atento pôde perceber: é a terceira opção de jogo da Inter para a atual temporada, em relançamento.
A pressão para que a união fosse diluída, porém, trouxe resultado. Insatisfeita com a junção, a torcida interista conseguiu que, passo a passo, a origem neroazzurra fosse preservada. Após virar AS Ambrosiana e depois AS Ambrosiana-Inter, o objetivo foi atingido: após a 2ª Guerra Mundial, enfim adotou-se o Internazionale FC Milano, mantido até os dias atuais.
As maiores glórias do centenário
O primeiro time expressivo montado pela Internazionale foi, coincidentemente, o maior da história do clube. A fase gloriosa vem com Helenio Herrera, nascido na Argentina, que inventou a popular fórmula do Catenaccio e, assim, colocou os neroazzurri alguns patamares acima.
Herrera chegou à Milão em 1960 após dois anos dirigindo o Barcelona. De lá, o treinador trouxe Luis Suárez, outro personagem vital na história interista. Se durante muito tempo e até os dias de hoje a Itália pode se vangloriar de sua tradição defensiva, Helenio Herrera, certamente, tem sua parcela.
A Internazionale de Herrera atuava sob um sistema tático definido como 5-3-2, reconhecendo limitações e, na maioria das vezes, vencendo os jogos pela solidez na defesa e, claro, eficácia em contra-ataques. Entre os nomes mais famosos, além de Suárez, destacam-se Facchetti (cuja camisa três foi imortalizada), Tarcisio Burgnich, Armando Picchi, Jair, Mario Corso e Sandro Mazzola.
A estratégia de Herrera, rapidamente, mostrou resultados. Após um terceiro lugar em sua temporada de estréia, o treinador subiu mais um degrau no ano seguinte para, enfim, ganhar o título italiano de 1962/63. Nos três torneios seguintes, a Inter sairia vencedora em dois. Além disso, evidentemente, a Internazionale, sob o Catenaccio, bateria o Real Madrid e o Benfica, vencendo duas Copas dos Campeões consecutivas, em 1963/64 e 1964/65. Os neroazzurri ainda voltariam às finais européias em 66/67 e 71/72, sendo batidos, respectivamente, por Celtic e Ajax. Contra os holandeses, porém, o time já estava com Giovanni Invernizzi.
Dois scudetti em 30 anos
Os anos seguintes viram uma abstinência enorme da Internazionale em relação às conquistas – apenas em períodos bem esporádicos os neroazzurri conseguiram títulos expressivos. De 1972 a 2004, um recorte de 32 anos, o clube só somou dois scudetti à sua galeria, assistindo ao crescimento vertiginoso de Juventus e Milan no ranking de êxitos na Série A.
Ao longo desses anos, o elenco interista mais memorável foi o que venceu a Série A em 1988/89, deixando para trás o Napoli de Maradona e Careca. Entre os nomes mais expressivos, destaque aos alemães Lothar Matthäus, Andréas Brehme e o argentino Ramón Diaz, além dos já consagrados Giuseppe Bergomi e Walter Zenga. O treinador era Giovanni Trapattoni.
Distante dos primeiros lugares em quase toda a década de 80 e o início dos anos 90, a Internazionale conheceu uma realidade diferente quando Massimo Moratti, em 1995, assumiu o comando do clube. Filho de Angelo Moratti, presidente de 55 até 68, Massimo trouxe consigo uma esperança de recolocar a Inter no topo. Para isso, turbinou os investimentos e intensificou a contratação de jogadores caríssimos.
Além de Ronaldo, reconhecidamente a maior loucura de Moratti, a Internazionale gastou fortunas com jogadores como Paul Ince, Djorkaeff, Zamorano, Roberto Baggio, Blanc, Seedorf, Vieri, Vampeta, Hakan Sukur, Robbie Keane, van der Meyde, Cannavaro, Adriano, Toldo, Davids e Verón, além dos que ainda fazem parte do clube.
Mesmo assim, a Inter esteve apenas perto de vencer títulos importantes. No período Moratti, o clube ficou conhecido por montar grandes elencos, mas com a mesma consistência, produzia um ambiente insuportável, em que o êxito se tornava praticamente impossível. De Mircea Lucescu a Roy Hodgson, passando por Hector Cúper, Marcelo Lippi e Marco Tardelli. Qualquer que fosse a receita, o resultado seria o mesmo: fracasso.
A nova era em Appiano Gentile
Atualmente, contudo, a Internazionale navega em mares razoavelmente seguros. Ainda que passe por um período de certa instabilidade na Série A e tenha boas chances de dar adeus à Liga dos Campeões, não há como negar que a pressão em Appiano Gentile é bem menor, em razão dos dois títulos italianos. O terceiro scudetto, é bem possível, será atingido.
É impossível desvincular a retomada interista dos lamentáveis episódios do Calciocaos. Basicamente sem a concorrência de Milan e Juventus, os neroazzurri somaram jogadores como Ibrahimovic e Vieira, amenizaram a pressão e montaram, claro, com muita competência, uma equipe capaz de se colocar em condição favorável sobre os demais.
Completando cem anos de vida, a Internazionale tem glórias suficientes para ser rotulada como um dos maiores gigantes do planeta. Com uma das mais belas camisas do futebol mundial, glórias como o bicampeonato europeu com Helenio Herrera, e páginas intermináveis de sucesso, os neroazzurri são daqueles indispensáveis na atmosfera futebolística. Agora, além de tudo, centenários.