Honved: A decadência do time de Puskas

Imagine o Real Madrid disputando a segunda divisão espanhola em 2050. Ou a Juventus jogando a Série B daqui a quatro décadas. Parece impossível, não é? Mas foi justamente isso o que aconteceu com o Kispest-Honved, melhor time do mundo no começo da década de 50 e que foi rebaixado no último mês de maio para a segunda divisão do acanhado campeonato húngaro. Sua ascensão e queda nestas cinco décadas coincidem com a situação do futebol da Hungria nesse período.

Um pequeno time adotado pelo exército

O Kispest foi fundado em 1909 para representar a cidade de mesmo nome, hoje transformada em subúrbio da capital Budapeste. Sem grandes ambições, com públicos que raramente superavam 4 mil pessoas, o pequeno time conseguiu apenas dois feitos relevantes em seus primeiros 35 anos de vida: chegar à divisão de elite do futebol do país em 1916 e vencer a copa da Hungria em 1926.

O clube manteve-se como coadjuvante até que chegou ao time um garoto baixo e meio gordinho chamado Ferenc Puskas, na metade da década de 40. E ele trouxe seu grande amigo de infância, Jozsef Bozsik, que, assim como ele, morava perto do estádio do Kispest. Quem reconhece os nomes já sabem que os dois garotos eram verdadeiros prodígios e em pouco tempo levaram o time a brigar pelas primeiras posições do campeonato. Porém, isso ainda não era suficiente para ser campeão húngaro, muito menos um dos maiores times do futebol mundial.

Foi no final de 1949, quando o clube completava seu 40º aniversário, que sua sorte mudou. A Hungria vivia sob ditadura comunista e, como era comum em países da Cortina de Ferro, seria interessante que as forças armadas tivessem um time forte disputando o campeonato local. O Ferencvaros, clube mais popular da época, não servia para representar o exército, por sua tradição independente e ligada ao fascismo. Foi então escolhido o Kispest, que a partir de então mudou de nome para Kispest-Honved.

Paralelamente a isso, havia o projeto de montar uma seleção húngara forte. Para que o time ganhasse entrosamento, o lendário técnico Gusztav Sebes decidiu concentrar todos os jogadores da seleção em apenas duas equipes: o Honved, time do exército, e o MTK, equipe da polícia secreta húngara. Como esta era odiada pela população, o Kispest ganhou popularidade e foi capaz de amealhar os principais nomes do time que viria a ser conhecido como a Seleção de Ouro – Sandor Kocsis, Zoltan Czibor, Laszlo Budai, além de Puskas e Bozsik, que já faziam parte do Honved.

Dos seis campeonatos húngaros que disputou com essa base, o Kispest venceu cinco. Incentivado pelo governo, o time fazia numerosas excursões a outros países, sendo reconhecido em toda a Europa como o melhor do mundo. Só não ganhou títulos internacionais porque nessa época ainda não existia a Copa dos Campeões (nem nenhum torneio equivalente).

A queda e a volta por cima

O período áureo do Honved encerrou-se com o levante húngaro de outubro de 1956. Insatisfeita com a situação do país, a população saiu às ruas e rebelou-se contra o controle de Moscou. Por várias semanas, o país viveu um clima de guerra civil, com trocas de tiros e tanques nas ruas. Exatamente durante esse período, o Kispest estava em excursão pelo exterior. Duramente criticados pelo governo após a derrota na final da Copa de 1954, astros como Puskas, Kocsis e Czibor recusaram-se a voltar ao país e desertaram para o ocidente. O impacto no time foi tão grande que o Honved chegou a ser rebaixado nessa temporada, sendo salvo da Segundona por uma virada de mesa que ampliou o número de equipes na primeira divisão.

O prestígio do Honved, no entanto, não seria mais o mesmo. Com o fim da Seleção de Ouro de Sebes, os jogadores húngaros passaram a ter mais liberdade para escolher onde jogar. Assim, o ex-time de Puskas teve que amargar uma seca de 25 anos sem vencer o campeonato local.

Porém, na década de 80, o sol voltou a brilhar para o Kispest. Novamente, os dirigentes conseguiram montar um bom elenco, com a presença de vários jogadores da seleção. Claro que a essa altura o prestígio internacional do futebol húngaro não era mais o mesmo, mas pelo menos localmente o Honved voltou a ser uma força dominante, vencendo sete vezes o campeonato em 12 temporadas, entre 1980 e 1991.

Rumo à Segundona

Os anos 90 trariam um derradeiro sucesso para o Honved, o título da copa da Hungria em 1996. Porém, com o 'boom' financeiro do futebol, começou a ficar cada vez mais difícil para um time de pequena torcida como o Kispest competir com os outros. O clube passou a sofrer com problemas financeiros, e isso se refletiu no desempenho dentro de campo.

As temporadas 2000/1 e 2001/2 já haviam sido fracas, mas o verdadeiro desastre aconteceu em 2002/3. Desde o início do campeonato, o Honved foi mal das pernas. A impaciência da diretoria também não ajudou, trocando de treinador quatro vezes ao longo do campeonato. Na penúltima rodada, uma derrota para o Zalaegerszegi combinada com a vitória do rival na briga contra o descenso Bekescsabai empurrou o Kispest-Honved para a segunda divisão.

Agora, não há mais salvação. Para um time que já enfrentou de igual para igual Manchester United, Barcelona e Milan, resta contentar-se com o longo caminho de volta ao topo, jogando contra times como Szazhalombatta e Balassagyarmat na temporada que começa agora.

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