História: As Copas antes da Liga

Quem já leu alguma coisa sobre a história da Liga dos Campeões, sabe: tudo começou em 1955, quando um jornalista francês, Gabriel Hanot, do diário L’Equipe, enfastiado de ver o Wolverhampton, da Inglaterra, se auto-intitulando “Campeão do Mundo”, após uma série de vitórias em amistosos, propôs a criação de um torneio maior entre clubes do Velho Continente. E a Uefa aceitou a sugestão, criando a então Copa dos Campeões, que durou até 1990/91.

Entretanto, a dimensão que aquele torneio proposto por Hanot tomou rapidamente eclipsou os torneios que haviam levado à criação da Copa. Torneios que, de certa forma, foram fundamentais para que ela surgisse. E, por incrível que pareça, nada disso começou com Inglaterra, Espanha ou Itália. Mas, sim, com o Império Austro-Húngaro.

A primeira experiência de tentar unir clubes europeus numa competição veio em 1897. John Gramlick, co-fundador do Vienna Cricket and Football Club (mais conhecido como Cricketer), da capital austríaca, montou a Challenge Cup. Todos os países do Império Austro-Húngaro poderiam ter clubes participantes, mas só Viena, Budapeste e Praga tiveram representantes na primeira edição – vencida pelo próprio Cricketer do fundador, que superou o FC 98 por 7 a 0, na final.

O plano era que o troféu da Challenge Cup ficasse com o primeiro clube a vencê-la três vezes, mas, em 1903, ficou acertado que a taça seria de posse transitória. E sua disputa durou até 1911, quando o Wiener SC passou pelo Ferencvaros, por 3 a 0, e ficou com o troféu, na última edição da Challenge Cup. Outro clube vienense, o Wiener AC, foi o mais vencedor do torneio, com três conquistas.

Ascensão (da Copa Mitropa) e queda (do Império Austro-Húngaro)

A Primeira Guerra Mundial veio, em 1914, e provocou a queda do Império Austro-Húngaro. Mesmo assim, os países da região continuavam com vantagem no futebol, adotando mais cedo o profissionalismo. Não impressiona, portanto, que Áustria e Hungria, mais a Tchecoslováquia, fossem ativos na criação da Copa Mitropa, que levava o nome como abreviação de “Mittel Europa”, o termo alemão para a Europa Central. Em 17 de julho de 1927, uma reunião em Veneza, comandada por Hugo Meisl, presidente da Confederação Austríaca de Futebol, confirmou a criação do novo torneio.

Inicialmente, só as três nações fundadoras, mais a Iugoslávia, ganharam direito a ter times na Copa Mitropa. Cada país tinha dois times no torneio, que teve a edição pioneira, já em 1927, vencida pelo Sparta Praga. A copa continuou crescendo em 1929, quando a Itália substituiu a Iugoslávia entre os países com clubes participantes – e teve seu primeiro vencedor em 1932, com o Bologna.

Antes disso, em 1930, o Servette, clube suíço, tentou dar um passo ainda maior. E, simultaneamente à realização da primeira Copa do Mundo de seleções, convidou os campeões nacionais de Áustria, Hungria, Bélgica, Tchecoslováquia, Alemanha, Itália, Holanda e Espanha para formar a Copa das Nações, envolvendo todas essas equipes. Na final, o Ujpest superou o Slavia Praga, por 3 a 0, e se auto-intitulou “Campeão dos Campeões”. A Copa das Nações poderia até ser a antecessora real da intenção da Copa dos Campeões (e até é reconhecida como tal), mas ficou só na edição de 1930.

Mas a evolução da Copa Mitropa prosseguiu em 1934, quando cada país passou a levar quatro clubes, ao invés de dois. E se consolidou nos anos seguintes, quando várias outras nações da região integraram-se ao torneio. Em 1936, a Suíça foi aceita no restrito clube; no ano seguinte, os suíços permaneceram, a Iugoslávia retornou e a Romênia foi aceita no grupo.

Com a disputa da Copa Mitropa desenvolvendo o futebol de todos os países em sua região, as seleções nacionais também despontavam. Para não citar as ótimas participações em Mundiais, na década de 1930 (Itália e Tchecoslováquia decidiram a Copa de 1934; Itália e Hungria, a de 1938; e a Iugoslávia foi semifinalista em 1930), houve também a fundação da Copa Dr. Gerö, juntando os times nacionais dos países da Copa Mitropa.

Mas, já em 1938, os efeitos da Segunda Guerra Mundial que se iniciaria começaram a afetar o torneio. A Áustria não pôde ser incluída entre os países que disputavam a Mitropa, pela anexação à Alemanha hitlerista. Em 1939, ano do início do conflito, dos 20 clubes que o torneio poderia ter (lembrando: quatro de cada país), só metade participou, com a vitória do Ujpest. E, em 1940, já com a guerra ocorrendo, a edição da Copa Mitropa começou, mas não foi encerrada nem teve campeões declarados.

A Mitropa decai

Quatro anos foram necessários após o fim da Segunda Guerra, em 1945, para que a parte latina da Europa não só se recuperasse dos danos, mas também notasse a necessidade de reagir no futebol de clubes. E, em 1949, Itália, Portugal, Espanha e França criaram a Copa Latina, inicialmente só com o campeão de cada país. O primeiro vencedor da competição foi o Barcelona, vencendo o Sporting na final, por 2 a 1.

E, em 1951, a Copa Mitropa retornou, renomeada Copa Zentropa (de “Zentral Europa), e com o Rapid Viena sendo campeão. Entretanto, com o crescimento dos times latinos – e, por tabela, da Copa Latina -, a Mitropa entrou em decadência. Passou a ser disputada por clubes de segunda divisão dos países centrais europeus, até seu fim, em 1992.

E, em 1953, motivado pela inauguração dos refletores de seu estádio, o Molineux, o Wolverhampton iniciou a série de amistosos vencidos, contra Racing, Spartak Moscou e Honvéd. Intitulou-se “Campeão do Mundo”. E motivou Gabriel Hanot a ter a ideia fundamental da Copa dos Campeões.

A Copa Latina duraria ainda até 1957, quando teve como campeão o Real Madrid. O mesmo Real Madrid que foi soberano nos primeiros tempos da Copa dos Campeões, ajudando a solidificar a ideia de Hanot – e a provar que ideias como a Challenge Cup, a Copa Mitropa e a Copa das Nações não eram absurdas.

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Equipe Trivela

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