Guardiola deixa um desafio para trás e vai em busca de outro, bem maior

Existem alguns termos na imprensa esportiva que me incomodam. Não gosto, por exemplo, quando importam expressões de outros países e começam a utilizá-la por aqui. Dizer que o Messi fez um hat-trick vá lá, mas o Joaozinho do XV de Caraguatatuba, onde jogaram com muito destaque o Vitor Guedes e o André Coutinho, é bobagem. O cara fez três gols e pronto. Para que usar algo que vem de fora sem tentar adaptá-lo à língua portuguesa?. Se todos pensassem assim, ainda falaríamos em center fowards, halfs, linesman etc. A língua de um país é algo móvel, que adapta expressões de outros. Deletar já e um verbo. Hat trick, pelo menos para mim, é um exagero. Playmaker também. Atualmente estou vendo muito basquete, graças a Franca que sempre admirei e a toda hora, a cada tempo pedido, a cada intervenção do comentarista Bial (que mala!) fala-se em um tal de pick and roll. Prefiro rock'n roll, que aqui é só rock.
Outras expressões atingem um signifciado que não deveriam ter. O exemplo mais gritante é chamar de competitivo aquele time que joga duro, joga feio e chega longe nas competições. Ganha poucas vezes, mas chega. O maior exemplo é o Estudiantes de la Plata, um time que, antes de ser competitivo, era sujo. O time de Zubeldia, Pachamé, Verón e Billardo foi tricampeão da Libertadores, ganhou o Mundial, mas é conhecido mesmo por pontapés e tapas. E agulhadas, dizem.
Ao se chamar de “competitivo” esse tipo de time, automaticamente estamos dizendo que o outro tipo de futebol – passes, dribles, ultrapassagens, lançamentos, chutes de fora da área – não é competitivo. Esse é chamado de sonhador, de mágico, de irreal.
Mas, e o Barça de Guardiola?
Se vencer a Copa do Rey terá ganho seu 14º título em 19 possíveis. Pode ser mais competitivo? O Santos de Pelé, o Flamengo de Zico, o São Paulo de Telê, a Academia de Ademir da Guia, eram competitivos? Lógico. É possível vencer jogando bonito. Esse é o legado que Guardiola deixa ao mundo ao anunciar sua saída do Barcelona.
Vai descansar e buscar novos desafios. Vejo aí uma contradição. Sua vida, a partir de agora, será um imenso duelo, mas ainda havia questões a serem vencidas na Catalunnha.
Vamos explicar melhor: o grande desafio de Guardiola é montar um outro time competitivo com o mesmo estilo que encantou o mundo. Se Guardiola ganhar como Felipão ganhava, dirão que ele é competitivo, mas que a magia era mesmo das canteras do Barça. Se jogar bem, no mesmo estilo, e não ganhar, dirão que o bom era Messi. E que ele teve a sorte de pegar um time que jogava por si só, tanto que continuou jogando bem com o Villanueva.
A Guardiola não resta outra opção a não ser repetir o que já fez: ganhar quase sempre jogando maravilhosamente sempre. É uma dura missão. É o preço que paga por haver encantado o mundo, por haver mal acostumado os que gostam de futebol. Por deixar claro que é possível sim vencer e encantar.
Ao deixar o Barcelona, Pep Guardiola deixa, porém um desafio para trás. Como vencer equipes que se postam atrás, jogam aguerridamente, se entregam de corpo e alma e apostam em um contra-ataque? Como fazer com que seu toque de bola, que garante 82% de posse de bola (foi assim com o Chelsea) supere o feio muro – nada a ver com o outro, de Roger Waters – postado na grande área?
Como acrescentar algo de imponderável, algo de surpreendente naquela beleza harmônica, repetitiva e previsível na sua grandiosidade? Como transformar aquela beleza apolínea em algo mais dionisíaco? Esse é o desafio que Guardiola deixa para trás, em busca de outro, bem maior.
Ah, como tenho um grande ego, digo que a minha solução seria colocar um pouco mais de drible e de jogadas verticais naquele time. Para mim, Neymar e Lucas podem jogar ali sim. E romper a camisa de força da beleza celestial para chegar à algo mais diabólico.



