‘Ginga – A alma do futebol brasileiro’
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Mais um documentário obscuro temos aqui em ‘Ginga – A alma do futebol brasileiro’. Lançado em 2006, tem-se a impressão de que sua produção visava o Mundial acontecido naquele mesmo ano. Chama a atenção o nome do requisitado diretor Fernando Meirelles (‘Cidade de Deus’, ‘O Jardineiro Fiel’ e ‘Ensaio Sobre a Cegueira’) na produção. ‘Ginga’ contou com iniciativa e patrocínio da Nike.
Temos apresentadas dez histórias de dez brasileiros diferentes que de alguma forma jogam futebol em algum lugar do Brasil. No Rio de Janeiro acompanhamos o garoto Romarinho, oriundo das favelas cariocas, um destes milhares que proporcionam dribles desconcertantes em qualquer hora do recreio de qualquer escola pública. Observamos seu dia a dia e o teste no Flamengo. Sérgio vem da classe média paulistana e quando não arrisca dribles entre as pernas da irmã no espaço mínimo do quarto do apartamento, joga torneios amadores de futsal.
De volta ao Rio de Janeiro, Natalie representa as garotas que jogam futevôlei na areia de Copacabana. Mais uma vez na capital paulista, Paulo César alimenta o sonho de ser aprovado numa peneira da Portuguesa de Desportos. É o primeiro momento tocante de ‘Ginga’, pois Paulo César é a esperança de melhora de vida da própria família. A cena em que o garoto surge recebendo moedas por guardar carros é difícil de ser descrita. Sobretudo porque acompanha o depoimento do pai que diz que em alguns dias sua família apenas janta, pois não há o suficiente para um almoço.
Em Paricatuba, no Amazonas, acompanhamos um treinamento de um time amador pertencente a uma comunidade ribeirinha. Celso é filho adotivo de uma família e faz parte deste time inscrito no Peladão, o maior torneio amador do mundo, que acontece em Manaus. Os jogadores da equipe treinam de maneira primitiva, subindo em árvores, puxando bois, praticando exercícios na areia. O Peladão tem uma organização incrível, com atrações além do futebol, como a ‘rainha do Peladão’, algo similar às ‘rainhas de rodeio’. Nada de disputa no tapetão, já que a ‘rainha do Peladão’ pode conceder o retorno de um time eliminado à disputa.
Essa história de Celso lembra muito a campanha da Adidas que visava a Euro 2008, onde atletas patrocinados pela marca (encabeçados por Kaká, Messi e Gerrard) foram para lugares distantes da Europa incentivar crianças a praticar o esporte. As tomadas concedidas pela bela direção de fotografia (creditadas a Raul Fernandez) revelam imagens que Santiago Bernabeu algum proporcionaria. Garotos jogando bola em cima da balsa que flutua sobre o rio Amazonas, a mesma que os leva para a disputa do Peladão em Manaus.
De volta ao Rio, em Niterói, somos apresentados a Wescley, que teve uma perna amputada após sofrer um acidente. O garoto alimentava o sonho de fazer um teste no Vasco antes de se acidentar. Ele foi atropelado por uma Kombi, enquanto assistia a um jogo do clube da calçada em frente a um bar. Wescley anda com o amparo de duas muletas e surge jogando uma pelada na rua, bem como o faz num campo junto a outros amputados que também jogam com o amparo de duas muletas no campo da associação para deficientes físicos. E pensar que tem atleta fisicamente perfeito e milionário que reclama de certas condições…
Temos ainda Karine e Diego, antes de Falcão e Robinho concederem suas histórias um pouco mais bem sucedidas no futsal e no futebol de campo, respectivamente. Robinho, aliás, nem mereceria ser mencionado aqui nesta resenha diante de histórias tão bonitas de gente comum que realmente joga por amor ao futebol. Nos extras temos um momento com o ‘fanfarrão’ Roberto Carlos, que de maneira sincera fala sobre como se identificou com as histórias apresentadas. Ele, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho tentam definir o significado da palavra ‘ginga’. ‘Ginga’ esta que Fernando Meirelles e os diretores tentam explicar também e que se personifica muito bem através do futebol.
‘Ginga – A alma do futebol brasileiro’ vale ser resgatado e conferido. Para os cinéfilos um item inusitado na filmografia de Fernando Meirelles.