Futebol – O Brasil em Campo

O olhar inglês para o futebol brasileiro sempre foi uma combinação um pouco esquizofrênica. Provavelmente não existe um povo na face da terra que admire com maior clareza o futebol brasileiro do que o inglês. A verdadeira adoração que se faz na Inglaterra dos ícones brasileiros, como Pelé, Jairzinho e Garrincha, é muito mais intocável do que a de muitos conterrâneos.

Indissociável dessa observação romântica e sincera é a forma arrogante e preconceituosa que o olhar inglês reserva para o futebol brasileiro (e para o país em geral). Não é incomum encontrar nos amantes ingleses do futebol reprovações à conduta brasileira. Reprovações essas que acabam se baseando em fatos, é verdade, mas também em preconceitos.

´´Futebol – O Brasil em Campo´´ (Soccer, the Brazilian Way), de Alex Bellos, sintetiza um pouco dessa relação complicada de adoração e preconceito. Bellos é correspondente no Brasil do The Guardian, certamente o melhor jornal britânico, e aproveitou sua estada aqui para fazer um retrato da relação do esporte com o Brasil, explicar o funcionamento de algumas coisas e de dar sua visão – uma visão bem britânica.

O melhor do livro vem da capacidade de Bellos de encontrar histórias ´sui generis´, curiosas e interessantes, como é comum na boa imprensa britânica. Uma delas, que descobre brasileiros jogando nas Ilhas Faroe, completamente desambientados, mas que mudaram suas vidas por jogarem futebol, é simplesmente sensacional. Ou então a visita à casa da filha de Garrincha. Um achado para qualquer tipo de leitor.

Outro ponto alto do livro são algumas entrevistas que o autor fez durante a produção do texto. Como uma com o falecido Zizinho, gênio da bola do Brasil pré-Pelé, ou então com Aldyr Schlee, brasileiro ´da fronteira´ responsável pelo ícone que é a camisa verde-e-amarela da Seleção, ou, ainda, com Ghiggia, o carrasco da Copa de 1950. O jornalista Bellos foge do óbvio e acha ângulos que desvelam aspectos novos, dando outras dimensões ao assunto.

A dificuldade, para um brasileiro, de ler o livro vem da necessidade (extremamente justificável para um leitor inglês) de informações históricas e contextuais. Algumas, como a introdução do futebol no Brasil, são até palatáveis para leigos. Mas explicar mitos como Garrincha (às vezes, até perpetuando lendas infundadas, como a de que Garrincha acabou com Nilton Santos no primeiro treino no Botafogo) acaba sendo repetitivo para um brasileiro. Mas, repito, é algo necessário, levando-se em conta que o leitor seja inglês.

Pensando justamente nesse leitor inglês, que não tem muita informação sobre o Brasil, é que fica uma dúvida sobre qual o Brasil que ele imagina ao final do livro. Algumas passagens, ainda que reais, reforçam certos preconceitos. Como a do ´coronel´ que faz do estádio público de uma cidade miserável no nordeste uma fonte de seu poder. Outras narram distorções, como a de que o país tem inúmeras ´adaptações´ do futebol, como ´futepênalty´, ´ecobol´, ´autobol´ ou ´futeboi´. Assim como na passagem do estádio de Brejinho, nada é irreal, mas o leitor é levado a crer que o ´ecobol´ é um esporte de proporções nacionais.

O valor do livro não fica anulado por isso. Certamente, ´´Futebol…´´ não chega a ser ´´um dos dossiês mais originais e completos já feitos sobre a relação do Brasil com o esporte dos Ronaldinhos´´, como diz um jornalista da Folha citado na contra-capa do livro. Não deve ter sido essa a pretensão de Alex Bellos quando começou a escrever o livro. O autor queria contar histórias. Isso, ele conseguiu.

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