Footballmania

Certas verdades do futebol parecem ter sido geradas na pré-história. ´Os cartolas arruínam nosso futebol´, ´o regulamento não é levado à sério´ e ´virada de mesa´ são expressões que têm um desagradável odor de bolor que nos remete à eternidade. Será que foi sempre assim? Será que nunca tivemos um futebol dirigido por gente de respeito?

Infelizmente, ´´Footballmania´´ nos mostra que não. Tese de doutorado em história na Unicamp, o livro é uma pesquisa profunda e detalhada do autor em busca das raízes do esporte no Rio de Janeiro, onde Oscar Cox (o Charles Miller carioca) introduziu o esporte bretão como uma forma de lazer sofisticada para a moçada da high society da capital nacional.

No livro, podemos nos dar conta de que com o desenvolvimento de clubes e federações, o ´jeitinho brasileiro´ naturalmente foi tratando de corromper regulamentos para poder servir a quem tinha mais poder. Das classes mais abastadas, o esporte se alastrou como uma praga bíblica entre as classes mais populares, causando verdadeiro furor entre seus praticantes, que geraram paixões clubísticas e lutas acirradas sobre o esporte.

Leonardo mostra com detalhes e muitos números como o esporte trocou o eixo das Laranjeiras (onde seu clube, o Fluminense, era a sensação da época) pelas periferias da cidade, mas não sem desvelar um racismo anacrônico e visceral da sociedade, onde negros não podiam atuar pelos clubes mais conceituados. Especialmente interessante a passagem onde a torcida, mulata por natureza, se identifica com o uruguaio Gradin (um jogador negro que viera ao Rio para disputar um ´match internacional´) e evita apupá-lo.

´´Footballmania´´ é muito preciso ao delimitar a importância do esporte no combate às barreiras raciais e sociais que o Brasil herdara do Império escravista. Certos clubes não aceitavam jogadores que tivessem profissões braçais e chegavam a se recusar a enfrentar aqueles que não respeitassem tais exigências.

O livro fala longamente do primeiro ídolo futebolístico brasileiro, o ´keeper´ Marcos de Mendonça, goleiro do Fluminense que levava as platéias ao delírio por suas virtudes esportivas e que causava palpitações no público feminino (porque, à época, ir às Laranjeiras ver futebol era sim um programa do mais alto nível), por suas virtudes plásticas.

Se o livro tem um defeito, é um certo academicismo em seu texto. Como se trata mesmo de uma tese universitária, não se pode considerar isso um defeito, mas, para o leitor comum, algumas justificativas e uma avalanche de dados que acompanha todo o trabalho chega a cansar em diversas ocasiões.

O Brasil ainda não descobriu de verdade a relação indissolúvel que o futebol tem com a cultura popular no sentido de estabelecer limites e às vezes até ensinar cidadania. ´´Footballmania´´ é um excelente exemplar de como o esporte é um pilar-mestre do jeito de ser do brasileiro, em suas virtudes e defeitos. Ver o modo como a corrupção sempre esteve entranhada no esporte ilumina os caminhos a serem tomados e mostra que o buraco é muito mais embaixo do que fazer duas CPIs, cantando o hino no final.

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